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O secretário-geral do PS afirmou esta quarta-feira que transmitiu ao primeiro-ministro que a autoridade política do ministro da Administração Interna “está fragilizada” e que Luís Neves e Luís Montenegro devem avaliar as condições do governante para continuar no Governo.
“Transmiti [a Luís Montenegro] que, no meu entender, a autoridade política do ministro da Administração Interna está fragilizada. Os factos fragilizam a autoridade política do titular da Administração Interna, que tem a direção das forças de aplicação da lei”, disse José Luís Carneiro.
O líder do PS falava aos jornalistas, na sede nacional do PS, em Lisboa, depois de se ter encontrado com o primeiro-ministro, Luís Montenegro, na residência oficial de São Bento, para pedir esclarecimentos sobre as polémicas a envolver o ministro da Administração Interna, Luís Neves, e minutos antes da conferência de imprensa do governante, agendada para as 18h.
O secretário-geral socialista afirmou que não o PS não pede a demissão de ministros, por ser uma competência do líder do Governo, mas considerou que “deve ser feita uma avaliação rigorosa por parte do primeiro-ministro e do ministro da Administração Interna sobre as condições ou não para o exercício das funções políticas”.
“Mais importante não é concentrarmo-nos na pessoa A, na pessoa B, que momentaneamente é titular de função política, da mais alta responsabilidade, a nossa grande preocupação é mesmo a da salvaguarda das instituições democráticas”, disse também.
Questionado sobre se esta posição significa que considera que Luís Neves já não tem condições para continuar no Governo, Carneiro insistiu que essa “é uma avaliação que deve ser feita pelo primeiro-ministro e pelo próprio ministro da Administração Interna”.
Inquirido sobre o que faria se estivesse na mesma situação que o ministro, Carneiro respondeu que “dificilmente estaria numa circunstância desta natureza”. Se fosse primeiro-ministro, teria avaliado antes “se um diretor da Polícia Judiciária deveria ou não integrar o Governo”, disse.
“Pese embora (…) fiquei, quando com ele trabalhei, com a ideia de se tratar de um polícia de grande competência e de reconhecido mérito pelos seus colegas de trabalho”, acrescentou.
José Luís Carneiro defendeu ainda que o ministro da Administração Interna deve ir ao Parlamento “tão breve quanto possível”, mas que os socialistas se opõem à constituição de uma comissão de inquérito às polémicas a envolver Luís Neves.
O secretário-geral do PS disse que Montenegro deu alguns esclarecimentos neste encontro, mas que estes “não dispensam que o ministro da Administração Interna” responda aos deputados na Assembleia da República.
“Manifestei a nossa divergência profunda com a AD e com os partidos que inviabilizaram que o ministro da Administração Interna fosse ouvido na Assembleia da República no seguimento da proposta feita pela IL”, sublinhou, acrescentando que Luís Neves “deve ser ouvido tão breve quanto possível” no Parlamento.
Carneiro argumentou que “o dever de transparência é um dever de todos os titulares de cargos políticos, e de todos aqueles que estão investidos de especiais responsabilidades e de uma especial missão de serviço público”, e que os esclarecimentos de Neves aos jornalistas não dispensam o escrutínio parlamentar.
Para Carneiro, o caso tem três dimensões que precisam de esclarecimentos: as “construções irregulares em Reserva Ecológica Nacional (REN) e Reserva Agrícola Nacional (RAN)”, a não entrega da Declaração Única de Rendimentos à Entidade para a Transparência quando estava à frente da Polícia Judiciária (PJ), e as “questões relacionadas com a remoção de prova de crime que está em apreciação pelas autoridades judiciárias”.
O líder do PS disse ainda ter transmitido ao primeiro-ministro que o seu partido é “contrário a uma comissão de inquérito” sobre o caso, como propôs o Chega, por considerar que esse tipo de iniciativa “tenderá a lateralizar as questões que estão em apreço e contribuir para o descrédito das instituições democráticas”.
Insistiu ainda que o PS “o mais rápido possível procurará que o ministro seja ouvido na Assembleia da República”, embora sem especificar através de que instrumento de escrutínio parlamentar, reiterando apenas que a o PSD e o CDS-PP travaram a proposta da IL para que Luís Neves fosse à Comissão Permanente do Parlamento.
O líder socialista pediu também que se evitasse, em democracia, o “oito ou oitenta”, rejeitando que haja “condenações persecutórias” ou ilibações sem se apurar responsabilidades.
Em fevereiro, quando Luís Neves foi nomeado ministro, José Luís Carneiro disse que o governante seria “uma personalidade forte” num “Governo frágil”, dizendo ter “a melhor das impressões” sobre o ex-diretor nacional da PJ.
Na conferência de imprensa desta quarta-feira, o ministro da Administração Interna disse que o transporte para a construtora de Barcelos do atrelado apreendido pela Polícia Judiciária num processo de tráfico de droga foi uma decisão sua e “um puro ato de boa gestão”.
A polémica que envolve Luís Neves teve início a 10 de julho, quando o semanário Nascer do Sol noticiou que o ministro da Administração Interna contratou para remodelar um imóvel que detém em Odemira uma empresa anteriormente responsável por obras na Polícia Judiciária (PJ) quando Luís Neves era diretor nacional.
A 17 de julho, a PJ anunciou que abriu um inquérito sobre o atrelado apreendido num processo de tráfico de droga que foi encontrado atracado a um camião da empresa Construbarcelos, que fez obras numa propriedade do ministro da Administração Interna.
https://observador.pt/2026/07/29/construbarcelos-so-pediu-novo-alvara-apos-caso-das-obras-no-monte-do-ministro-luis-neves-empresa-arrisca-sancoes-do-regulador/