(c) 2023 am|dev

(A) :: Lucros do BCP sobem 12,7% para 565,8 milhões de euros, o "melhor semestre" mas a prudência levou BCP a criar mais almofadas financeiras

Lucros do BCP sobem 12,7% para 565,8 milhões de euros, o "melhor semestre" mas a prudência levou BCP a criar mais almofadas financeiras

O BCP aumentou os lucros do primeiro semestre em 12,7% para 565,8 milhões de euros, anunciou a entidade liderada por Miguel Maya, que assume um momento de prudência.

Alexandra Machado
text

O BCP aumentou os lucros em 12,7% para 565,8 milhões de euros, anunciou o banco liderado por Miguel Maya. A atividade em Portugal gerou lucros de 470,2 milhões de euros, mais 10,9%, face ao período homólogo. Este é o argumento para o crescimento dos lucros, salienta o banco em comunicado.

Foi o melhor semestre do BCP, salienta Miguel Maya. “Foi mais um semestre bastante bem conseguido, e em resultado de toda a transformação do banco que tem vindo a ser feita ao longo de vários anos e estou confiante do que estamos a fazer e como estamos a servir a economia e os clientes e que vai permitir ao banco continuar a criar valor. Estamos confiantes em relação ao futuro”.

Por isso o BCP está confiante na execução do plano estratégico delineado até 2028. “Estamos claramente a cumprir com o plano ou mesmo acima”, salienta Miguel Maya, não avançando com projeções para o conjunto do ano. Até porque o presidente do BCP assume a necessidade de ser prudente face à conjuntura económica. “O contexto está tão imprevisível e nós temos de reforçar a prudência. Estamos muito confiantes no plano estratégico que entregámos mas o momento obriga-nos a estarmos prudentes”. Realça mesmo que é uma questão de realismo e de estarem “preparados para o pior”. Daí a opção de “reforçar as reservas para fazer face a cisnes negros”.

Essa prudência levou o BCP a aumentar as imparidades, o que Miguel Maya, em conferência de imprensa, explica com “toda a instabilidade e conjuntura macroeconómica”, o que levou o banco a “aumentar os níveis de prudência”. “Queremos ter um balanço protegido”. E por isso, assume, “não damos nada por adquirido”. 

Essa prudência é vista, em particular nas imparidades e provisões para outros riscos sem ser pelo crédito. Na atividade em Portugal, as outras imparidades e provisões passaram de 5,6 milhões de euros no primeiro semestre de 2025 para 28,3 milhões de euros.

Já as imparidades do crédito (líquidas de recuperações) totalizaram 104,4 milhões de euros, mais 16,3% do que em igual período do ano passado. Em Portugal, atingiram 72,5 milhões de euros, um aumento homólogo de 5,4% e a nível internacional subiram para 31,9 milhões de euros, em particular por causa da Polónia.

As imparidades aumentaram também porque a carteira de crédito subiu. O BCP conseguiu um aumento na carteira de crédito de 8,3% para 65.238 milhões de euros, sendo de 7% o crescimento no crédito a particulares (para 39.523 milhões) e 11% no crédito a empresas (25.715 milhões).

O BCP reforça que considera que “a garantia pública do Estado aos jovens não é uma forma para resolver o problema da habitação, é apenas uma solução para pessoas que não têm 10% do capital inicial. Nesse sentido não temos dúvida de que é uma importante ajuda e dá um importante contributo”. O peso de crédito com garantia na produção foi de 41%. Dos 345,4 milhões de euros alocados ao BCP, o banco já utilizou 68%, acima da média do sistema. “Há uma procura crescente”, indica, garantindo que há espaço para crescer tanto no crédito à habitação como no crédito ao consumo.

“Neste momento não há aquecimento excessivo. As alterações do Banco de Portugal faziam sentido fazer, pessoalmente subscrevo as alterações. O Banco de Portugal anda à frente dos acontecimentos, faz leitura do mercado, entendeu por bem fazer essa alteração”, declarou, em conferência de imprensa, assumindo que não houve uma alteração significativa do BCP nos critérios de concessão de créditos e que o banco faz uma análise profunda para que o cliente tenha condições de pagar. “Não apertamos algo que tínhamos bem incorporado nos modelos. A afinação que pode ter um impacto de 5% vamos procurar compensar com maior proatividade comercial”.

https://observador.pt/2026/07/02/banco-de-portugal-muda-regras-para-creditos-da-casa-e-consumo-trava-taxa-de-esforco-mas-da-mais-anos-para-se-pagar/

O Banco de Portugal reviu as regras macroprudenciais que vão entrar em vigor a 1 de agosto para a concessão de crédito à habitação e crédito ao consumo. Miguel Maya diz que “percebemos a prudência [do Banco de Portugal] e não creio que tenha efeito grande na produção de crédito à habitação”. Estima que esse impacto pode atingir os 5% no total do crédito à habitação.

A margem financeira do BCP em Portugal atingiu os 733,2 milhões de euros no primeiro semestre de 2026, mais 11,3% face a igual período do ano passado. O banco assume que “para esta evolução contribuiu em larga medida a redução dos custos de funding, influenciada sobretudo pela diminuição dos custos associados à remuneração dos depósitos de clientes, não obstante o aumento registado no saldo médio dos depósitos remunerados face ao primeiro semestre de 2025″. Também as receitas com comissões aumentaram 5,8% (sendo de 4,2% a subida nas comissões bancárias e 14,7% as relacionadas com mercados), mas Miguel Maya assegura que este aumento se deve à maior atividade dos clientes e ao maior número de clientes e não por via do preçário.

No final de junho deste ano, o rácio de transformação, que é a percentagem de depósitos que são convertidos em créditos, ficou nos 68%. “Isto é abaixo do que gostaríamos”, admite Miguel Maya, assumindo que não é mais alto porque não tem havido procura “para esta capacidade instalada de concessão de créditos”. E as empresas têm aumentado os seus depósitos. “As empresas estão melhor geridas e preparadas e neste contexto têm reforçado a posição financeira. Começa a ver-se uma retoma do investimento, mas houve posição de prudência”. Acredita que não há subfinanciamento nas empresas.

Moçambique é para manter

O BCP tem como compromisso criar valor para Portugal e empresas. Mas não só. E por isso garante que a operação de Moçambique não é para vender. “O BCP está em Moçambique há mais de 30 anos, tem uma vantagem competitiva, e aporta um forte valor para a sociedade moçambicana, para as exportadoras portuguesas, e é uma referência para atrair investimento internacional. Gera muito valor para Moçambique, para os moçambicanos, para Portugal, para as empresas portuguesas e para os acionistas do BCP”.

Assume que em tempos o BCP passou por períodos complexos e a diversificação a leste e em Moçambique foi importante. E agora as “perspetivas para Moçambique são positivas, não haveria razão nenhuma para desinvestirmos nessa operação. Não está nos planos de todo o desinvestimento”.

Sobre as participações minoritárias em Angola e França, Miguel Maya diz não ter urgência em vender. “Geram resultados, faremos o que tivermos de fazer quando considerarmos que é o momento de fazer. Nenhuma delas é um problema. Ou aparece uma boa oportunidade e ponderamos ou continuamos. Têm rendibilidade e não são tema”.

“Os acionistas é que escolhem o BCP. Não somos nós que escolhemos os acionistas”

O BCP em junho conseguiu superar, em bolsa, o valor de 1 euro por ação, deixando de ser o que se designa de “penny stock”. É um marco “simbólico”. E aí se mantém. A remuneração acionista pode atingir 90% dos lucros anuais, sob a forma de dividendos e compra de ações próprias.

Numa altura em que o Governo anunciou a intenção de criar um fundo soberano e que, segundo o Eco, poderia entrar numa posição no BCP. Miguel Maya escusa-se a comentar. “Não fazemos comentários políticos. Os acionistas é que escolhem o BCP. Não somos nós que escolhemos os acionistas. O Estado decidirá”.

E garante que “a gestão do BCP vai permanecer muitíssimo profissional”. “Quanto ao resto é tema político. O Estado deve tomar a decisão. O BCP não tem nenhuma capacidade de interferência”.

154 milhões de contribuições para o Fundo de Resolução reclamados em Tribunal. BCP quer alterar modelo

Foi o BCP que levou à declaração por parte do Tribunal Constitucional da ilegalidade das contribuições periódicas adicionais dos bancos para o Fundo de Resolução. “Não há vitórias nem derrotas. Desde o primeiro momento não houve nenhuma conferência em que o BCP não tenha referido a carga desproporcionada e que prejudicava o level playing field [ambiente concorrencial]”.

https://observador.pt/2026/07/23/contribuicoes-adicionais-da-banca-para-o-fundo-de-resolucao-consideradas-inconstitucionais/

“Não é equilibrada” a exclusão de algumas instituições, nomeadamente de operadores internacionais que “não têm esse fardo”, atira.

O BCP já pagou, até junho, mais de 600 milhões para “alimentar as contribuições”. Assumiu ainda que reclamou em tribunal sobre todas as contribuições consideradas desequilibradas.

“O que queremos é a alteração do modelo, que os bancos possam concorrer em igualdade de circunstâncias e concorrer de forma justa com outros operadores”.

Em relação aos montantes reclamados da contribuição para o Fundo de Resolução estão em causa 154 milhões de euros. “Tem de ser corrigido algo que não está bem”, assumindo que não põe em causa o “funding do FdR. Basta que seja por Decreto-Lei e fica resolvido”.

O Estado já teve de devolver aos bancos os pagamentos pelo adicional de solidariedade que foi igualmente considerado inconstitucional. O Ministério das Finanças foi dizendo que seria encontrado um substituto. Mas Miguel Maya diz agora que “não estou à espera de nenhuma nova contribuição. Não há nada que justifique o adicional sobre a banca. Temos a rendibilidade adequada para atrair investidores. Não vejo razão para haver qualquer outra contribuição. Não há lucros excessivos, nem extraordinários. Tenho esse tema encerrado”, declara.

Também critica as palavras da Autoridade da Concorrência, ao dizer que não se pode ter sol na eira e chuva no nabal. Critica quem quer menos regras se for para cumprir a união bancária europeia, mas mais regras para o mercado nacional. E diz que não deve haver o discurso se for para a união bancária estou de acordo, se for para a paróquia de Benfica não, assumindo que deve haver preocupação de permitir “inovação de todos os operadores”. Por isso, espera que “haja bom senso, ponham a preocupação de concorrência para a união bancária”.