Tudo começou em julho de 1911. Agora, mais de um século depois, o Brescia, histórico clube italiano, foi declarado extinto por dívidas na ordem dos 20 milhões de euros. O Tribunal de Brescia decretou a liquidação judicial do clube, que declarou falência em julho de 2025. A queda do Brescia já há muito que se antecipava. O clube, penalizado com perda de quatro pontos por irregularidades no pagamento de salários e contribuições fiscais, acabou despromovido para a Serie C e, sem licença para competir, viu a insolvência tornar-se inevitável.
A queda do Brescia também poderá estar a ser ofuscada pela recente novela em torno da seleção, da Federação e do regresso de Roberto Mancini ao comando técnico dos azzurri, depois de uma revolução na organização que tutela o futebol italiano, que agora vê um novo capítulo levantar-se, com vários clubes da Serie A, que apoiavam a nomeação de Conte para selecionador, a insurgir-se contra a escolha de Malagò, presidente da FIGC. Ao mesmo tempo que tudo isto acontece, o Brescia Calcio, o clube que formou Andrea Pirlo e Sandro Tonali, que Roberto Baggio, Hagi e Guardiola representaram, o clube que acolheu Balotelli, já em anos longe da sua melhor fase (o clube e o jogador), a porta de entrada de Marek Hamšík em Itália, vai fechar de forma permanente e com efeito imediato.
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O processo que culminou na extinção do Brescia não foi repentino. Na temporada 2024/25, o clube foi punido pela Federação Italiana de Futebol (FIGC) com a perda de quatro pontos devido a atrasos no pagamento de salários e contribuições fiscais. O problema central residia na dívida acumulada de cerca de 20 milhões de euros, que incluía salários em atraso aos jogadores e funcionários. O empresário Massimo Cellino, proprietário do clube, tentou apresentar um plano de recuperação financeira, mas a proposta foi rejeitada pela Justiça italiana, que considerou insuficientes as soluções apresentadas para garantir a continuidade da sociedade.
Embora nunca tenha conquistado a Serie A ou a Taça de Itália, o Brescia deixa uma marca difícil de igualar entre os clubes de média dimensão do futebol italiano. Ao longo dos seus mais de cem anos de história, disputou 23 temporadas no principal escalão, revelando alguns dos maiores talentos do país e servindo de casa a nomes que marcaram uma era do futebol europeu. O período mais marcante da história do clube chegou no início dos anos 2000. Com Carlo Mazzone no banco, o Brescia estabilizou-se na Serie A e viveu a melhor fase da sua existência. Em 2001, chegou à final da Taça Intertoto, perdendo para o Paris Saint-Germain.
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Roberto Baggio, considerado um dos melhores jogadores italianos de todos os tempos, chegou ao Brescia já em final de carreira e representou a Leonessa d’Italia por 101 vezes, nas quais assinou 46 golos e 11 assistências. Muitos viam-no na reta final da carreira, mas em Brescia voltou a ser decisivo, levando o clube ao surpreendente oitavo lugar na Serie A em 2000-01, o melhor resultado da sua história no principal escalão. Em quatro temporadas, terminou ali uma carreira que o colocou entre os maiores futebolistas italianos de sempre. Ao seu lado jogava um jovem chamado Andrea Pirlo, formado no clube e lançado na equipa principal antes de construir uma carreira de exceção ao serviço do AC Milan, da Juventus e da seleção italiana.
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Pouco depois, também Pep Guardiola vestiu a camisola do Brescia. O antigo médio do Barcelona encontrou em Itália um dos períodos mais importantes da sua aprendizagem tática, trabalhando às ordens de Carlo Mazzone e dividindo balneário com Baggio. Anos mais tarde, já como treinador, continuaria a destacar a influência que o futebol italiano teve na sua forma de entender o jogo. “Tive o privilégio de o conhecer em vida, de aprender e ver tantas coisas, de receber apoio em momentos difíceis. O Carletto, a família Corioni [antiga detentora do clube] e toda a equipa do Brescia estiveram ao meu lado. É por isso que continuo a adorar a cidade e ambas as famílias; ainda mantenho contacto com elas”, afirmou na conferência de imprensa de um Manchester City-Nápoles, que os cityzens venceram (2-0), a contar para a fase de liga da última edição da Champions League.
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A lista de nomes ligados ao Brescia não termina aí. Gheorghe Hagi, o “Maradona dos Cárpatos”, passou pelo clube no início da década de 1990, entre 1992 e 1994, e foi fundamental para a subida à Serie A. Marek Hamšík deu ali os primeiros passos no futebol italiano antes de se afirmar no Nápoles, chegando em 2004 e partindo em 2007. Luca Toni representou a equipa entre 2001 e 2003, marcando 16 golos antes de se tornar campeão do mundo em 2006. Sandro Tonali seguiu o mesmo caminho de Pirlo, afirmando-se na formação do clube entre 2012 e 2020 antes de rumar ao Milan. Até Mario Balotelli, natural de Brescia, regressou à cidade em 2019, numa tentativa de relançar uma carreira que nunca voltou a atingir o brilho dos primeiros anos.
O Brescia desaparece sem grandes títulos para exibir, mas deixa um legado raro. Poucos clubes italianos contribuíram tanto para a formação de jogadores de elite e conseguiram reunir, ao longo da sua história, tantos nomes incontornáveis do futebol europeu. É essa memória, mais do que qualquer troféu, que continuará a sobreviver ao desaparecimento da Leonessa d’Italia. A camisola 10 foi aposentada em homenagem a Roberto Baggio, e a camisola 13 também foi aposentada, em homenagem a Vittorio Mero, que faleceu após um grave acidente automobilístico. O clube revelou Andrea Pirlo, que se tornou um dos maiores jogadores da história, e Sandro Tonali, que seguiu o mesmo caminho.
O Brescia disputou a Serie A em 23 ocasiões, com a sua melhor campanha a ocorrer na temporada 2000/2001, quando terminou na oitava posição. O clube também venceu quatro vezes a Serie B (1964/65, 1991/92, 1996/97, 2018/19) e o Torneio Anglo-Italiano em 1994, a maior conquista notável da sua história até então. O regresso à Serie A em 2010, após bater o Torino no playoff de subida, foi um dos últimos momentos de glória. O último foi o regresso ao mais alto escalão do futebol italiano em 2019/20, seguido de uma descida à Serie B no ano seguinte, o escalão que o Brescia melhor conheceu nos seus 115 anos de história.