Quando os Estados Unidos celebram os 250 anos da sua independência, há uma pergunta que nos conduz a uma história surpreendente: que português mereceu um quarto na casa de Thomas Jefferson?
Quando visitei Monticello, na Virgínia, procurava compreender melhor o homem que escrevera a Declaração de Independência e imaginara uma República fundada na liberdade, no conhecimento e na responsabilidade cívica. Não esperava encontrar ali, também, uma história portuguesa.
No piso térreo da residência existe o North Square Room, ainda hoje associado ao nome de Abbé Correia da Serra. Foi ali que se hospedou repetidamente José Francisco Correia da Serra, naturalista, diplomata e um dos mais extraordinários intelectuais portugueses do seu tempo. O quarto conserva actualmente um retrato seu, pintado por Rembrandt Peale.
Aquele aposento é mais do que uma curiosidade histórica. É o vestígio de uma amizade intelectual rara e de uma contribuição portuguesa para a construção científica e política da jovem república americana.
O Abade Correia da Serra nasceu em Serpa, em 1750. Foi sacerdote, naturalista, botânico, geólogo, diplomata e, com o Duque de Lafões, fundador da Academia das Ciências de Lisboa. Pertencia à última geração dos sábios universais, para quem a ciência, a filosofia, a política e a cultura integravam uma mesma procura de conhecimento.
As condições políticas portuguesas levaram-no a viver no estrangeiro. Passou por Londres e Paris, relacionando-se com alguns dos maiores cientistas europeus, entre eles Joseph Banks, Georges Cuvier e Alexander von Humboldt. Quando chegou aos Estados Unidos, encontrou uma república ainda em construção, aberta às ideias que circulavam entre a Europa e o Novo Mundo.
Conheceu Thomas Jefferson em Monticello, no Verão de 1813. A admiração foi imediata. Pouco depois, Jefferson descreveu-o como “the greatest collection, and best digest of science in books, men, and things that I have ever met with” (a maior reunião e a melhor síntese de ciência nos livros, nos homens e nas coisas que alguma vez encontrara) acrescentando que possuía “the most amiable and engaging character” (uma personalidade extremamente simpática e cativante) (Thomas Jefferson a Caspar Wistar, 17 de Agosto de 1813, The Papers of Thomas Jefferson: Retirement Series).

Monticello, a histórica casa de Thomas Jefferson, na Virginia, perto de Charlottesville.
Não era uma gentileza de circunstância. Em 1815, Jefferson escreveria que Correia da Serra era, “sem excepção, o homem mais erudito” que conhecera em qualquer país. O português visitou Monticello sete vezes e referia-se a essas deslocações como a sua peregrinação anual. Jefferson chegou a convidá-lo a fazer da casa o seu lar.
A intimidade dessa amizade está também numa carta de Abril de 1814, na qual Jefferson lhe pede que conserve a posse do seu quarto. O North Square Room nunca foi formalmente baptizado por decreto presidencial, mas ficou ligado ao hóspede português que ali conversava com Jefferson sobre botânica, geologia, agricultura, política e educação.
Correia da Serra não foi um Founding Father. A independência americana estava conquistada antes da sua chegada. Mas tornou-se um interlocutor privilegiado da geração fundadora, numa época em que as instituições da república ainda estavam a adquirir forma.
A sua presença em Monticello coincidiu com o período em que Jefferson concebia o Central College e a futura Universidade da Virgínia. Não seria rigoroso apresentá-lo como fundador da universidade. Mas pertenceu ao círculo científico e educativo em que o projecto foi pensado e levou para essas conversas a experiência das academias e das redes europeias do conhecimento.
A sua intervenção mais concreta na vida política americana ocorreu na diplomacia. Nomeado, em 1816, ministro plenipotenciário do Reino Unido de Portugal, do Brasil e dos Algarves, enfrentou a actividade de corsários armados nos portos americanos, que atacavam navios portugueses sob bandeiras dos movimentos independentistas sul-americanos.

Retrato do Abade Correia da Serra (pintado por Domenico Pellegrini), propriedade da Academia das Ciências de Lisboa.
Correia da Serra pressionou a Administração e o Congresso para que os Estados Unidos aplicassem efectivamente os seus deveres de neutralidade. Essa acção contribuiu para o reforço da legislação de 1817 e 1818, que passou a limitar com maior eficácia o armamento, em território americano, de navios destinados a combater potências com as quais os Estados Unidos estavam em paz. Aí, o sábio tornou-se diplomata e as ideias converteram-se em lei.
A influência intelectual raramente deixa monumentos. Faz-se de cartas, conversas, livros, caminhadas e amizades. É mais difícil de medir do que uma batalha, mas pode ser mais duradoura.
Talvez isso ajude a explicar o esquecimento de Correia da Serra em Portugal. A nossa memória histórica privilegia mais os nomes que conquistaram territórios. Celebramos, justamente, os navegadores e esquecemos com demasiada facilidade aqueles que alargaram as fronteiras do conhecimento.
Nos 250 anos da independência americana, não se trata de atribuir a um português um protagonismo que não teve. Trata-se de reconhecer o que as fontes demonstram: Correia da Serra conquistou a admiração de Jefferson, participou no universo intelectual em que a jovem república pensou as suas instituições e exerceu influência concreta na política americana de neutralidade.
Jefferson não lhe ergueu uma estátua, mas deu-lhe um lugar na sua casa e na sua amizade. Dois séculos depois, esse lugar continua em Monticello. Talvez tenha chegado o momento de Portugal lhe reservar também um lugar mais visível e permanente na sua memória.
Nota: Nos últimos anos, a FLAD tem desenvolvido um trabalho continuado de valorização da figura do Abade Correia da Serra, promovendo a investigação sobre o seu legado científico, diplomático e intelectual. Em colaboração com a Thomas Jefferson Foundation, apoiou também a recuperação e interpretação do quarto de Monticello associado ao sábio português, hoje acessível ao público como parte integrante da visita à residência de Thomas Jefferson.
[Os artigos da série Portugal 900 Anos são uma colaboração semanal da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. As opiniões dos autores representam as suas próprias posições.]
