Durante anos ouvimos sucessivos governos e responsáveis políticos defenderem, com enorme convicção, a necessidade de colocar a “Paixão pela Educação” no centro da estratégia nacional. A expressão era bonita. Mobilizadora. Quase poética.
O problema é que a paixão, quando não é acompanhada de exigência, transforma-se facilmente em facilitismo.
Os resultados dos exames nacionais do 9.º ano, conhecidos esta semana, deviam fazer-nos parar para pensar. Mais da metade dos alunos tiveram nota negativa em Matemática, e a média nacional ficou em 49%. Não estamos perante um acidente estatístico. Estamos perante o resultado acumulado de muitos anos de opções educativas que privilegiaram a redução da dificuldade, a menor exigência, a cultura da aprovação e a ideia de que proteger os alunos era, muitas vezes, exigir-lhes menos.
O problema é que a matemática não se deixa convencer por discursos políticos.
Ou sabemos.
Ou não sabemos.
Há dias vivi um episódio tão simples quanto revelador.
Num café, a conta era de 3,85 euros. A minha mulher entregou uma nota de 5 euros. A jovem que estava ao balcão olhou para o ecrã, hesitou por alguns segundos e pegou na máquina de calcular para descobrir quanto deveria devolver de troco.
Não a julgo.
Julgo o sistema que a colocou naquela posição.
Se uma operação aritmética elementar exige uma calculadora, que capacidade teremos para resolver problemas complexos? Para analisar informação? Para compreender estatísticas? Para inovar? Para criar empresas? Para desenvolver tecnologia? Para tomar decisões?
A matemática nunca foi apenas uma disciplina.
É uma forma de organizar o pensamento.
Ensina lógica, abstração, decomposição de problemas, análise crítica e capacidade de construir soluções. São exatamente o tipo de competências que uma economia baseada em conhecimento mais necessita.
Quando falhamos em matemática, normalmente não estamos apenas a falhar nos números.
Estamos a falhar na capacidade de pensar.
E isso tem consequências profundas para o país.
Vivemos numa época em que se fala permanentemente de Inteligência Artificial, inovação, produtividade, semicondutores, cibersegurança e transformação digital. Queremos empresas tecnológicas, centros de investigação e uma economia do conhecimento.
Mas quem irá construir tudo isso?
Uma população que chega ao final do ensino básico com enormes dificuldades no raciocínio matemático dificilmente desenvolverá, mais tarde, competências avançadas em engenharia, ciência de dados, economia, programação ou investigação.
Podemos distribuir milhares de computadores.
Podemos digitalizar escolas.
Podemos implementar Inteligência Artificial em todas as salas de aula.
Mas nenhuma tecnologia substitui uma capacidade cognitiva que nunca chegou a ser desenvolvida.
O maior risco não é formar uma população pouco qualificada.
É formar uma população altamente diplomada, mas pobre em conhecimento.
Pessoas capazes de acumular certificados, mas com dificuldade crescente em estabelecer relações entre ideias, analisar criticamente problemas ou construir raciocínios complexos.
No fundo, uma sociedade onde existe literacia administrativa… mas há analfabetismo cognitivo.
É evidente que exigir mais não significa voltar a modelos de ensino autoritários nem transformar a escola numa fábrica de exames.
Mas também não podemos continuar a confundir inclusão com redução da exigência.
Os países que mais inovam não o fazem porque facilitaram a aprendizagem.
Fazem-no porque conseguiram combinar exigência, apoio e cultura de mérito.
Portugal precisa exatamente dessa combinação.
Talvez esteja na altura de deixarmos de medir o sucesso da educação apenas pelo número de diplomas atribuídos e de começarmos novamente a medi-lo pela capacidade dos nossos jovens de pensar, resolver problemas e criar valor.
Porque um país não cresce apenas com paixão pela educação.
Cresce quando essa paixão é acompanhada de conhecimento, exigência e coragem para reconhecer que, durante demasiado tempo, confundimos sucesso escolar com sucesso educativo.
E os números da Matemática mostram-nos, de forma cruel, que são coisas muito diferentes.