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Cartago: a cidade que quis conquistar o Mediterrâneo, mas que "fez de Roma um império"

O mais recente livro de Eve MacDonald destaca a importância da Península Ibérica na história de Cartago, na luta contra os romanos e no destino dos dois impérios. Falámos com a investigadora.

Rita Cipriano
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Entre os séculos IX e II a.C., Cartago floresceu no Norte de África, na zona da atual Tunísia, tornando-se numa das principais potências mediterrâneas e a principal opositora de Roma. Depois de crescer e expandir-se para lá do seu local de origem no Norte de África, para o sul da península itálica, a costa ocidental de África e a Península Ibérica, ao longo de seis séculos, atingiu o seu apogeu no século III a.C., quando se estima que vivessem 250 mil pessoas na cidade. Em 146 a.C., após dois períodos de guerra com Roma, conhecidos como Guerras Púnicas, Cartago foi finalmente derrotada e destruída, depois de uma incrível resistência levada a cabo por Aníbal Barca e os seus dois irmãos, Asdrúbal e Magão, em diferentes pontos do território cartaginês. O fim de Cartago significou a ascensão de um dos mais poderosos impérios da história.

No seu mais recente livro, a historiadora e arqueóloga canadiana Eve MacDonald, professora na Universidade de Cardiff, no País de Gales, recupera a história de Cartago, traçando a ascensão e queda do império cartaginês com base nas fontes clássicas e nas mais recentes descobertas arqueológicas. Fugindo a uma narrativa que privilegia a cidade e a campanha de Aníbal enquanto focos de resistência contra os romanos, a especialista em História Antiga procurou destacar em Cartago o papel da Península Ibérica no destino da cidade e dos irmãos de Aníbal, o famoso comandante que atravessou os Alpes com um exército de soldados e de elefantes para oferecer luta aos romanos, criados entre os ibéricos pelo pai, o comandante cartaginês Amílcar Barca.

Numa entrevista concedida ao Observador por email, Eve MacDonald, uma das principais especialistas na história de Cartago, admitiu que “a Península Ibérica é fundamental para perceber muito daquilo que Cartago foi” e que, por essa razão, estava muito contente com a publicação do livro pela Bertrand Editora em Portugal, uma região que terá também estado de alguma forma ligada aos cartagineses.

Cartago descreve a ascensão e queda do império cartaginês, um dos temas sobre os quais mais tem escrito ao longo da sua carreira académica. Como é que surgiu este seu interesse?
Descobri Cartago há quase 30 anos, quando trabalhei em escavações no local da antiga cidade e, desde essa primeira visita à Tunísia e à cidade dos cartagineses, que me tem fascinado — a sua localização, a sua cultura e, ainda mais, a sua memória e como ressoa ainda hoje. Uma das minhas motivações é sempre tentar perceber o outro lado do poder romano, porque Roma desempenhou um papel muitíssimo importante nas ideias de poder e de colonialismo ainda predominantes na Europa e na América do Norte. Cresci no Canadá, venho de um lugar que teve uma fundação colonial e que fica ao lado dos Estados Unidos da América. É como se tivesse crescido a observar o impacto do poder, mas do lado de fora.

No início do livro, refere que “Cartago foi sempre uma das culturas fundacionais do antigo Mediterrâneo ocidental” e que essa foi uma das razões pelas quais decidiu escrevê-lo. O que é que quis dizer com isso?
Se concordarmos que foi no Mediterrâneo que as antigas civilizações grego-romanas nasceram, e que isso está relacionado com a ligação que tinham com o mar, que permitiu o florescimento de muito daquilo que associamos aos gregos antigos e aos romanos, então, temos de admitir que Cartago e os fenícios, que fundaram a cidade, também desempenharam um papel nessa história, só que foram excluídos da narrativa. Uma das minhas motivações foi mostrar que as antigas civilizações mediterrâneas não incluíam apenas os gregos e os romanos.

Explica que queria contar uma história que ajudasse “a perceber melhor as pessoas reais”. Foi difícil reunir informação factual sobre aqueles que viveram em Cartago?
É muito difícil contar a história real dos cidadãos de Cartago porque os romanos destruíram a cidade no século II d.C. Tudo o que Cartago era foi absorvido pela perceção romana da cidade. Para conseguirmos “ver” os cartagineses reais, temos de ler nas entrelinhas, e olhar para o solo — ver o que deixaram para trás, como é que sepultavam os seus mortos, onde é que iam buscar o seu vinho (gostavam de vinho de Rodes, mas também fabricavam vinho muito bom, que era exportado), que roupas usavam, que deuses veneravam… Estas perguntas e respostas dão-nos uma ideia da sua população e de como pode ter mudado ao longo dos séculos.

"Graças à análise isotópica, sabemos que os soldados que lutaram nas guerras que opuseram cartagineses e gregos na Sicília e que foram sepultados num local chamado Hímera cresceram muito, muito longe dali — eram originários da estepe euro-asiática e do norte da Escandinávia. Isso diz-nos que o mundo estava muito mais ligado do que imaginávamos."

Grande parte daquilo que se sabe sobre a cidade e o seu império tem origem em fontes romanas, ou em autores gregos que escreviam para uma audiência romana. Quão fiáveis são essas fontes?
São fiáveis em certos aspetos, mas só nos mostram um lado da história. E hoje sabemos que lados diferentes de um conflito têm ideias muito diferentes sobre o que aconteceu, e que também existem diferentes perspetivas no mesmo lado. Portanto, Políbio [século II] é uma fonte fantástica. É a fonte temporalmente mais próxima de Cartago, estava ativo numa altura em que Cartago ainda existia e conheceu as pessoas que participaram nas guerras entre Cartago e Roma. Mas Políbio não era um observador neutro. Não era um jornalista, mas um historiador cujo patrono era um homem da família dos Cipiões que tinha sido responsável pela destruição de Cartago. Políbio era tutor dos filhos de Cipião Emiliano, e ele conta-nos a história da perspetiva de uma das famílias mais diretamente envolvidas nas Guerras Púnicas e na ascensão do Império Romano. Não era um historiador imparcial, mas alguém com uma visão formatada e profundamente romana.

Avanços científicos recentes, como a análise de ADN antigo, têm permitido aprofundar o conhecimento sobre as antigas civilizações e culturas. No caso de Cartago, o que é que foi possível descobrir usando as novas ferramentas de análise?
Tem sido possível descobrir muita coisa através da análise de ADN e de isótopos no Norte de África, e também na Sicília e nas Ilhas Baleares, locais com uma ligação muito estreita a Cartago e aos cartagineses. Sabemos que os indivíduos com ligações aos cemitérios do período cartaginês nas Baleares e noutros locais no Mediterrâneo ocidental vieram de toda a parte, do Egeu e do Mediterrâneo oriental, não apenas do Norte de África ou do Levante. Isso confirma o que suspeitávamos há muito: a cidadania e a ligação a uma cultura ou língua não são determinadas pelo ADN, mas pela escolha de pertencer a uma determinada cidade. Graças à análise isotópica, sabemos que os soldados que lutaram nas guerras que opuseram cartagineses e gregos na Sicília e que foram sepultados num local chamado Hímera cresceram muito, muito longe dali — eram originários da estepe euro-asiática e do norte da Escandinávia. Isso diz-nos que o mundo estava muito mais ligado do que imaginávamos e que, nos séculos V a III a.C., os jovens percorriam longas distâncias para servirem como soldados mercenários no Mediterrâneo.

A seguir a Aníbal, a rainha Dido é provavelmente a figura cartaginesa mais conhecida. Existe alguma certeza quanto à sua existência e ao papel que teve na fundação da cidade? Ou a sua história não passa de um mito?
Acredito que existiu, tal como acredito que existiram outras figuras mitológicas ou lendárias. Houve mesmo uma princesa [fenícia] de Tiro chamada Elishat, a quem os gregos chamavam Elissa, que se tornou na Dido da tradição latina. Era uma mulher poderosa, que guiou o povo de Tiro, no atual Líbano, em busca de uma nova cidade na costa de África. Em fenício, Qart Hadasht significa simplesmente “cidade nova”; Cartago é a versão grego-romana desse nome. Era irmã de um rei chamado Pigmaleão e os dois viveram em Tiro no século IX a.C., no mesmo período em que Cartago foi fundada. Portanto, as datas batem certo. Cartago e a sua população sempre se associaram a Tiro, e mantiveram-se sempre ligados à cidade. E, embora o conto que liga o herói troiano Eneias a Dido seja um mito romano posterior, a mulher por trás dele era real. Pensa-se que o seu nome latino, Dido, significa “viajante”, porque ela atravessou o Mediterrâneo [desde Tiro até Cartago]. Portanto, a história [contada por Vergílio na Eneida] pode ter um grão de verdade no seu interior.

Menciona outras mulheres cartaginesas, como Sofonisba e a mulher de Asdrúbal, último comandante de Cartago. Todas têm em comum o facto de terem tido um fim trágico, relacionado com um homem em particular e com o destino da própria cidade. Porque é que só chegaram até nós histórias trágicas de mulheres cartaginesas?
Uma das estratégias utilizadas pelos escritores, e também pelos políticos antigos, para denegrir a imagem dos seus inimigos era efeminá-los, ou seja, fazer com que parecesse que não eram capazes de controlar as suas respetivas mulheres, ou retratá-las como sendo mais corajosas do que eles. E, para dizer a verdade, esse tipo de retórica ainda perdura. Temos tendência para ler essas histórias sobre mulheres corajosas que foram apanhadas numa trama terrível de guerra e destruição com simpatia, mas, para as audiência da Antiguidade, eram um aviso — era porque Sofonisba tinha tanto controlo sobre o seu marido númida que Sífax era incapaz de governar ou de controlar o desejo que sentia pela sua bela e jovem mulher; e a mulher de Asdrúbal [cujo nome não é conhecido], ao preferir matar-se e aos seus filhos do que tornar-se escrava em Roma, fez com que as escolhas do marido parecessem menos masculinas aos olhos dos romanos. Não são retratos construídos para causar admiração, mas críticas aos olhos dos historiadores antigos que preservaram essas histórias.

"Ao longo do Algarve, e também mais para cima, em direção a Lisboa, existem locais onde foram encontrados vestígios que datam dos séculos VIII a III a.C. A primeira colónia foi, provavelmente, fundada no estuário do Tejo. Mais a sul, locais como Castro Marim, virado para o rio Guadiana, terão sido conquistados por motivos estratégicos."

Fala sobre um antigo texto conhecido por Périplo de Hanão, o único relato pessoal atribuído a um cartaginês. O que é que se sabe sobre a produção literária em Cartago? Conhece-se mais alguma obra literária cartaginesa?
Diz a história que, quando Cartago foi destruída e incendiada, as bibliotecas da cidade foram entregues ao rei númida, Masinissa, e dispersadas. Por esse motivo, sobrevivem muito poucos textos e exemplos escritos da língua dos cartagineses. Conhecemos uma obra famosa — um tratado sobre agricultura de um agrónomo chamado Mago, que foi traduzido para latim após a queda da cidade e que contém todos os segredos da agricultura cartaginesa, que era famosa por todo o Mediterrâneo — e a história de Hanão, que foi traduzida para grego e que era conhecida por toda a região. Mas sabe-se muito pouco [sobre a produção literária cartaginesa]. Se Roma tivesse sido destruída no século II a.C., também não teríamos quase nada da literatura latina. A maior parte dos textos antigos que se conhecem sobrevive em manuscritos muito mais tardios, produzidos a séculos de distância, ou foi descoberta por acaso, como é o caso dos papiros encontrados no deserto egípcio ou das salas soterradas de Pompeia, o que significa que ainda existe alguma hipótese de virmos a encontrar mais exemplos [da literatura cartaginesa].

O Périplo de Hanão descreve uma viagem de exploração cartaginesa, algo que era, de facto, feito pelos cartagineses. Tendo em conta a posição privilegiada de Cartago, na costa ocidental do Mediterrâneo, porque é que os cartagineses procuraram expandir os seus domínios?
Os cartagineses eram marinheiros afamados. Herdaram os conhecimentos de construção naval e navegação dos seus antepassados fenícios e, tal como os fenícios, que se dedicavam ao comércio, à descoberta de jazidas de minerais metálicos e à fundação de colónias, os cartagineses também se viraram naturalmente para o mar. Cartago, juntamente com outras cidades costeiras do Norte de África e da Península Ibérica [fundadas pelos fenícios], continuou com essa tradição. Transportou-a de uma ponta à outra do Mediterrâneo e, depois, ainda mais longe, ao longo da costa do Atlântico e mais para baixo, para a costa ocidental de África. É possível que tenham chegado aos Camarões [no Golfo da Guiné]. A viagem de Hanão foi uma dessas expedições, um empreendimento que tinha um objetivo colonial — a fundação de colónias — e a expansão da cidade para outras regiões através do crescimento populacional. Porém, nos séculos V e IV a.C., à medida que a competição pelo Mediterrâneo ocidental se intensificou entre gregos, cartagineses e romanos, começaram a surgir conflitos pela posse dos portos e dos recursos.

Depois de perderem os territórios na Sicília, os cartagineses voltaram-se para a Península Ibérica, palco de uma importante luta de resistência contra os romanos. Qual foi o papel da Península na ascensão e queda do império cartaginês?
A Península Ibérica é fundamental para perceber muito daquilo que Cartago foi, estou encantada que me tenha feito essa pergunta e que o meu livro tenha sido traduzido para português. Cartago e a Península Ibérica estavam profundamente ligadas, e alguns dos indícios mais importantes que temos sobre a sociedade cartaginesa vieram da Península. Foi uma relação longa, em termos linguísticos e culturais, que teve origem nos primeiros navegadores fenícios que viajaram pelo Mediterrâneo. Essa ligação expressava-se tanto através das práticas religiosas como da vida do dia a dia, de maneira que os ibéricos estiveram sempre presentes no mundo de Cartago. Uma das razões pelas quais essa relação era tão forte era a riqueza. A Península era rica em jazidas de minerais metálicos, que eram exploradas desde o início da Idade do Ferro, e os metais eram transportados para a região do Mediterrâneo ocidental. Com o comércio, veio a influência, e existem indícios de interação entre os ibéricos indígenas, os celtiberos e os lusitanos e a cultura de Cartago um pouco por todo o território espanhol e português. Os destinos das duas regiões estavam ligados de muitas formas. Roma conquistou ambas, mas as origens do mundo híbrido em que ibéricos, lusitanos e cartagineses sobreviveram estão incorporadas nessa conquista e na cultura que floresceu depois.

Refere várias colónias cartaginesas na Península Ibérica, como Carthago Nova e Cádis, mas nenhuma que ficasse localizada no atual território português. Existe alguma evidência da presença cartaginesa em Portugal?
O mais impressionante é que Cádis é mais antiga do que Cartago. Foi a primeira colónia fenícia no Mediterrâneo ocidental. A região era conhecida como Tartesso e a sua população negociou e interagiu com os fenícios, de maneira que os antigos povos em Portugal, das zonas costeiras e também do interior, onde viviam os lusitanos, também faziam parte desse mundo que estava conectado. Ao longo do Algarve, e também mais para cima, em direção a Lisboa, existem locais onde foram encontrados vestígios que datam dos séculos VIII a III a.C. A primeira colónia foi, provavelmente, fundada no estuário do Tejo. Mais a sul, locais como Castro Marim, virado para o rio Guadiana, terão sido conquistados por motivos estratégicos — existem ali depósitos desde o período fenício até ao cartaginês, ao século III a.C. e às Guerras Públicas. Em Tavira, no Algarve, existem também vestígios culturais fenícios — sepulturas, locais de culto e cerâmica —, que ligam a população local aos cartagineses. Os vestígios mais a norte de uma povoação com um tamanho significativo com ligações culturais a Cartago foram descobertos em Montes de Santa Olaia, na região de Coimbra. Os lusitanos eram guerreiros afamados. Lutaram do lado de Cartago contra Roma durante as Guerras Púnicas e continuaram a lutar contra os romanos mesmo depois de Cartago ter sido destruída. Eventualmente, os romanos venceram, como venciam sempre, mas a antiga população de Portugal tinha um espírito feroz de independência e resistiu à conquista até ao fim.

"A imagem mais icónica de Cartago é a travessia dos Alpes feita por Aníbal e os seus elefantes para levar a guerra a Roma. Seria sempre uma coisa audaz de se fazer, em qualquer período, mas, no século III a.C., levar um exército com elefantes e um corpo multicultural de soldados oriundos de todas as zonas do Mediterrâneo para Itália foi celebrado como um ato heróico e quase semidivino."

Até que ponto é que as Guerras Púnicas, que opuseram Cartago e Roma, foram responsáveis pela fama duradoura dos cartagineses? E em relação ao Império Romano?
De certa maneira, essas guerras tornaram Cartago famosa para a eternidade. Roma e Cartago eram forças equivalentes até começarem a lutar uma contra a outra no século III a.C. Antes disso, eram aliadas. Eram-no desde o século VI a.C. e eram ambas cidades poderosas no Mediterrâneo ocidental. Depois, em 264 a.C., começou a Primeira Guerra Púnica, na Sicília, pelo controlo do mar e do comércio, e da riqueza que o controlo do mar trazia consigo. Depois, a guerra espalhou-se, até que consumiu todo o Mediterrâneo ocidental. E sim, as vitórias romanas tornaram Roma no império que se tornou. As Guerras Púnicas foram um duro teste para ambos os lados, e o vencedor que emergiu delas passou a controlar todo o Mediterrâneo ocidental, a sua riqueza, recursos e mão de obra. Portanto, sim, Cartago fez de Roma um império.

Aníbal é o cartaginês mais famoso por causa do papel que desempenhou durante a Segunda Guerra Púnica. Porém, não foi o único comandante cartaginês que se opôs a Roma. Porque é que sabemos mais sobre ele do que sobre todos os outros?
A imagem mais icónica de Cartago é a travessia dos Alpes feita por Aníbal e os seus elefantes para levar a guerra a Roma. Seria sempre uma coisa audaz de se fazer, em qualquer período, mas, no século III a.C., levar um exército com elefantes e um corpo multicultural de soldados oriundos de todas as zonas do Mediterrâneo para Itália foi celebrado como um ato heróico e quase semidivino. Era um período em que os comandantes militares eram como celebridades. As suas conquistas eram uma espécie de entretenimento. É por isso que ainda falamos de Alexandre, o Grande e de Aníbal como figuras quase lendárias. Mas a principal razão pela qual Aníbal se tornou lendário foi porque desafiou os romanos e venceu-os, batalha após batalha, nos primeiros anos da Segunda Guerra Púnica. As suas vitórias assustaram-nos. Tiveram de se esforçar tanto para recuperarem do desastre de Canas, em 216 a.C., que Aníbal foi integrado nos seus mitos fundacionais como o maior inimigo que alguém alguma vez teve de enfrentar. E isso faz algum sentido — se o nosso inimigo é imenso, então derrotá-lo torna-nos maiores.

A maioria dos relatos sobre a Segunda Guerra Púnica foca-se em Aníbal, mas os seus irmãos também desempenharam um papel importante na luta contra Roma, como revela no seu livro. Porque é que tendem a ser excluídos da narrativa?
O teatro mais importante da Segunda Guerra Púnica não foi Itália, mas a Península Ibérica, onde os irmãos de Aníbal, Asdrúbal e Magão Barca, mantiveram os romanos afastados durante 12 anos. Aníbal só invadiu Itália porque os romanos pretendiam invadir a Península Ibérica e África, e ele queria mantê-los afastados desse plano. Os irmãos Barca que ficaram para trás e que lutaram contra a invasão romana são lendários por direito próprio, embora a narrativa romana prefira que pensemos apenas em Aníbal, nos seus elefantes e no vilão em que o transformaram. Asdrúbal e Magão eram também comandantes extraordinários e, tal como Aníbal, foram criados pelo pai [o comandante cartaginês Amílcar Barca] na Península Ibérica. A educação que receberam tornou-os naquilo que foram. As suas mulheres eram filhas de chefes locais e os seus filhos eram ibéricos. A Península Ibérica era a sua casa, e talvez o seu ADN ainda exista. Portanto, a luta pelas antigas regiões de Espanha e Portugal era, de muitas maneiras, existencial para os outros irmãos Barca. Assim que foi conquistada, a riqueza da Península Ibérica tornou-se instrumental na construção e na perpetuação do Império Romano

Embora a história de Cartago tenha sido marcada por conflitos constantes, a cidade encontrou sempre uma forma de perdurar. Como é que é possível explicar a incrível longevidade do império cartaginês?
Resiliência. Cartago e os cartagineses eram incrivelmente resilientes. Os cartagineses viveram numa terra próspera em termos agrícolas e com uma localização perfeita para fazer comércio com todo o Mediterrâneo; souberam interagir e adaptar-se às culturas que os rodeavam; eram multiculturais e o seu governo e sociedade floresceram num mundo profundamente conectado; falavam várias línguas e veneravam vários deuses, e eram tecnologicamente avançados. Tudo isso fazia com que fossem capazes de recuperar, mesmo quando sofriam derrotas pesadas. Roma era exatamente igual. E era essa resiliência partilhada, mais do que qualquer outra coisa, que decidia o sucesso neste período.