Dinorah Figuera cuidava de uma idosa com alzheimer na Comunidade Valenciana, onde vivia desde 2018. Era discreta, e poucos em Espanha conheciam o seu passado e envolvimento na política venezuelana. Nos últimos tempos, contudo, foi abordada por responsáveis do Departamento de Estado norte-americano. A antiga deputada manteve negociações com os Estados Unidos da América (EUA) em solo espanhol. Convenceram-na a voltar a 18 de junho ao seu país natal, onde esta médica cirurgiã se reuniu com alguém muito importante no regime venezuelano: Jorge Rodríguez, o atual presidente da Assembleia Nacional venezuelana e irmão da Presidente interina, Delcy Rodríguez. Foi o primeiro encontro entre chavistas e uma opositora desde a prisão de Nicolás Maduro.
Antiga deputada pouco conhecida — que sucedeu ao opositor Juan Guaidó à frente da Assembleia Nacional venezuelana eleita em 2015 —, passa agora a ser o rosto da oposição à mesa de negociações. Após pressão norte-americana, o regime chavista, que sobrevive após a captura de Nicolás Maduro, aceitou iniciar uma plataforma de diálogo com dissidentes a partir deste sábado, 1 de agosto, mas impôs algumas condições: os opositores teriam de ser os membros da Assembleia Nacional de 2015, na qual os partidos que se opunham a Nicolás Maduro foram declarados vencedores. O ex-Presidente, agora na cadeia, não aceitou os resultados eleitorais nessa altura e criou um novo órgão legislativo — obviamente controlado por aliados.
No dia 14 de julho, Jorge Rodríguez publicou um comunicado nas redes sociais. Falando em “unidade nacional” e no “fortalecimento da democracia”, o regime chavista anunciou a abertura de uma “rota de trabalho” com os membros da Assembleia Nacional de 2015. O responsável venezuelano justificou a iniciativa com os sismos que abalaram a Venezuela no final de junho: “Só em união poderemos avançar com a reconstrução e a manutenção de paz.”
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O pretexto são os sismos de junho, é certo. Contudo, os atuais rostos do regime estão a tentar permanecer no poder e sabem que qualquer diálogo com a oposição coloca em risco essa estratégia. Acima de tudo, Delcy Rodríguez e outros chavistas enfrentam um grande obstáculo: uma elevada rejeição popular. Ainda que tenham celebrado a captura de Nicolás Maduro, muitos venezuelanos ainda estão insatisfeitos com a atual situação política — e não escondem o desejo de ver a principal opositora e vencedora do Prémio Nobel da Paz, María Corina Machado, voltar à Venezuela, para que se realizem, finalmente, eleições presidenciais livres.
Do estrangeiro, María Corina Machado tem-se multiplicado em entrevistas e tem dado várias dores de cabeça ao regime, ao manter uma forte presença mediática e uma imagem de total legitimidade aos olhos dos venezuelanos. Por causa disso, os chavistas nunca esconderam a animosidade que sentem pela opositora. Ainda assim, não é o principal rosto da oposição que dá as ordens em Caracas. Nem sequer é o regime. O principal centro de poder está em Washington e no Departamento de Estado: é dali que o futuro da Venezuela é decidido. Quem está ao leme? Marco Rubio, o secretário de Estado, que até tem sido chamado “vice-rei” do país.
Desde 3 de janeiro, data em que Nicolás Maduro foi detido no forte militar onde dormia com a mulher, Cilia Flores, os Estados Unidos controlam todas as esferas da política venezuelana. É o Governo americano que decide os acordos comerciais que Caracas faz, as sanções que são levantadas, para onde vão os barris do petróleo venezuelano e que negócios são feitos nesse setor. É uma espécie de protetorado controlado a partir de Washington. Neste contexto, e com pouca autoridade, Delcy Rodríguez e os aliados chavistas têm-se mantido no poder porque têm cumprido diligentemente as ordens do Departamento de Estado. Mas isso está agora a mudar.

Como o “vice-rei” Rubio controla a Venezuela
Entre todos os países, os Estados Unidos sempre ocuparam um lugar central na política venezuelana, mesmo antes de 3 de janeiro de 2026. O regime então liderado por Nicolás Maduro propagava a ideia de que a Venezuela estava na linha da frente da luta contra o imperialismo norte-americano, mantendo-se sob proteção diplomática de Pequim, Moscovo e Havana. Esta retórica, herdada do tempo de Hugo Chávez, posicionava Caracas como um espinho encravado na política externa de Washington — uma postura que o país ostentava com orgulho.
Com danças, canções e palavras duras, Maduro desafiava as administrações norte-americanas. Donald Trump sempre criticou duramente o ex-Presidente da Venezuela, acusando-o de narcotráfico. Neste segundo mandato do chefe de Estado norte-americano, o líder venezuelano encontrava-se, no entanto, mais débil internamente: as eleições presidenciais de 2024 foram um duro golpe para o regime. María Corina Machado juntou os cacos deixados por Juan Guaidó (após a tentativa de tomada de poder em 2019) e construiu um forte movimento de oposição venezuelana que fez frente ao chavismo. A opositora — e recente vencedora do Prémio Nobel da Paz — nunca desistiu da sua luta e enfrentou, com o seu estilo aguerrido, o regime venezuelano.
Nas eleições de 2024, a oposição conseguiu ter acesso às atas das mesas de voto. Esses documentos mostraram uma vitória inequívoca do candidato Edmundo González, apoiado por María Corina Machado. Porém, o Conselho Nacional Eleitoral venezuelano declarou a vitória de Nicolás Maduro. O desfecho desencadeou vagas de protestos em todo o país, que expuseram a fraude eleitoral. Esmagadas pela repressão do regime, as manifestações não conseguiram retirar o ex-Presidente do poder na altura, mas destruíram o pouco que restava da sua legitimidade interna e internacional.

Imbuído por um espírito intervencionista que não era tão notório no primeiro mandato, Donald Trump — apoiado por um secretário de Estado que defende que o Hemisfério Ocidental deve ser controlado pelos EUA — decidiu cercar militarmente a Venezuela. Nicolás Maduro mantinha a mesma retórica inflamada contra Washington. Contudo, em janeiro, as forças norte-americanas capturaram-no e levaram-no para os Estados Unidos, onde permanece preso, juntamente com a sua mulher, Cilia Flores, a aguardar julgamento.
Esperava-se que a Venezuela convocasse eleições e se democratizasse. A principal opositora ao regime estava, ainda assim, fora do país: em dezembro de 2025, com o apoio norte-americano, tinha ido a Oslo receber o Prémio Nobel da Paz e ainda não tinha regressado. Os Estados Unidos adotaram uma solução inovadora e pragmática: mantiveram a confiança no regime chavista interino e assumiram, na prática, o controlo do país — e, sobretudo, de algo que interessava particularmente ao Presidente norte-americano: as receitas e o setor petrolífero venezuelano.
Nestes últimos meses, o homem que tem definido o futuro da Venezuela é Marco Rubio, como apurou o New York Times. É o secretário de Estado — com ascendência cubana e que domina o espanhol — quem está em contacto constante com Delcy Rodríguez: trocam mensagens, piadas e até felicitações de parabéns por WhatsApp. Tanto que o responsável norte-americano é apelidado, por muitos na administração Trump, de “vice-rei” — uma referência aos homens fortes que, durante o Império Espanhol, governavam as províncias ultramarinas.

Certo é que Marco Rubio não tem legitimidade formal para exercer qualquer tipo de poder na Venezuela. A Casa Branca também não parece preocupada com o Direito Internacional, ainda que haja nuances na abordagem. Donald Trump espera especialmente obter os dividendos económicos. Já o secretário de Estado, bastante crítico de regimes socialistas, fruto da sua história familiar ligada a Cuba, move-se por uma missão mais ideológica e até pessoal: inspirado na Doutrina Monroe, quer converter a América Latina num espaço seguro e rodeado de aliados para os EUA.
Mesmo assim, há uma contradição evidente nas ações do secretário de Estado no que toca à Venezuela. Desde que María Corina Machado surgiu como o principal rosto da oposição, mesmo antes de Donald Trump ter assumido o seu segundo mandato, Marco Rubio elogiava-a publicamente, vendo-a como uma aliada ideológica e a futura líder do país. Ambos situam-se à direita e partilham um profundo ressentimento por regimes socialistas latino-americanos. Teria sentido que a líder da oposição ganhasse poder, mas não foi isso que aconteceu.
Por um lado, defende que devem ser os países latino-americanos a escolher o seu futuro. Por outro, protege um regime chavista que sempre detestou os EUA. Marco Rubio está numa encruzilhada ideológica. O New York Times aponta que o secretário de Estado tem ficado satisfeito com a forma como Delcy Rodríguez cumpre as ordens emanadas de Washington quase sem pestanejar, mesmo que isso implique que muitos dos lucros dos recursos naturais venezuelanos vão para os cofres norte-americanos. Em paralelo, o chefe da diplomacia sabe que esta solução não é de longo prazo.

No Partido Republicano e na própria administração Trump, nota-se um crescente desconforto com a situação na Venezuela. Trata-se de uma associação perigosa: os EUA estão a patrocinar um regime que, por mais pragmático e obediente que possa ser, tem uma matriz socialista — algo quase imperdoável para os republicanos de linha dura. A isso soma-se outro argumento de peso: Delcy Rodríguez é uma Presidente interina extremamente impopular e não dispõe de qualquer legitimidade democrática.
Marco Rubio tem acalmado os críticos, apresentando um plano de três fases cuja etapa final consiste em eleições presidenciais livres, nas quais todos os que assim desejem, incluindo María Corina Machado, poderão concorrer. Não há data, nem sequer uma estimativa oficial, para que isso aconteça, mas especula-se que possam ocorrer em 2027 ou mesmo no início de 2028 — um trunfo político que serviria também de trunfo na campanha eleitoral para o futuro candidato do Partido Republicano às presidenciais norte-americanas.
O plano de Rubio para a democratização
Estabilização, recuperação e transição. Estas são as três fases apresentadas por Marco Rubio logo após a captura de Nicolás Maduro. Apesar disso, este plano parecia nunca mais arrancar. Os sismos de 24 de junho — que causaram mais de 5.500 mortos — acabaram por adiar os objetivos do secretário de Estado. Contudo, desde 1 de agosto, este longo processo, que não tem fim à vista, dá finalmente os seus primeiros passos.

O regime chavista recuou e aceitou conversar com os membros da Assembleia Nacional de 2015, o último órgão legislativo reconhecido como legítimo pela comunidade internacional. Nas eleições desse ano, a plataforma da oposição conquistou uma maioria absoluta — motivo pelo qual estes deputados continuam a ser os interlocutores formalmente reconhecidos pelos Estados Unidos. Foi a partir deste órgão que, em 2019, Juan Guaidó tentou assumir a presidência interina, desafiando Nicolás Maduro. A tentativa não resultou.
Após o falhanço de Guaidó, que chegou a contar com o apoio de dezenas de países, a oposição venezuelana ficou sem rumo até ao surgimento de María Corina Machado. Já em 2023, a deputada Dinorah Figuera assumiu a liderança da Assembleia Nacional de 2015, a partir do seu exílio em Espanha, mas as suas funções tinham pouco peso político. Para esvaziar a legitimidade deste órgão, em 2017, Nicolás Maduro tinha criado uma Assembleia Nacional Constituinte paralela — totalmente controlada por membros do regime.
Foi esta Assembleia Nacional, eleita em 2015, a estrutura recuperada pelos EUA para negociar o futuro processo de democratização. O órgão legislativo paralelo criado pelos chavistas acabou por ser dissolvido em 2020, altura em que o regime de Nicolás Maduro voltou a convocar eleições para a Assembleia Nacional regular, em que conquistou confortáveis maiorias, após a oposição ter boicotado os atos eleitorais de 2020 e 2025. A comunidade internacional, porém, nunca reconheceu a legitimidade dos resultados dessas legislativas.

Apesar de não ter grande peso na Venezuela e de ter sido ofuscada pelo movimento liderado por María Corina Machado, a Assembleia Nacional de 2015 nunca deixou de reclamar a sua legitimidade. Controlada pela oposição ao chavismo, manteve-se como uma força de pressão sobre o regime, preservando uma presença ativa nas redes sociais ao longo dos últimos anos.
Foi inclusivamente no X que os membros da Assembleia Nacional anunciaram que voltariam à mesa das negociações e deram mais detalhes do que o regime chavista — que se tem mantido opaco sobre o assunto. Num comunicado, indicaram que se daria início a uma “agenda de trabalho conjunta” a partir de 1 de agosto para “promover a estabilidade, a democracia e a recuperação nacional”, abrindo caminho a uma “nova etapa” para uma “Venezuela de progressos e liberdades”.
“Esta agenda terá como prioridade o fortalecimento das instituições democráticas, do sistema eleitoral e restabelecimento das garantias para a participação política”, refere o comunicado, que deixa antever, nas entrelinhas, que a convocação de eleições presidenciais é o grande objetivo. A Assembleia Nacional de 2015 agradeceu ainda aos Estados Unidos o trabalho de “consolidação da estabilidade e o fortalecimento da institucionalidade democrática da Venezuela”.
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Não há grandes detalhes de como se desenrolará este processo. Há uma reunião marcada entre Jorge Rodríguez e Dinorah Figuera, se bem que não seja claro se haverá avanços. Em qualquer caso, Marco Rubio veio saudar a “boa notícia” de que se tenha acordado “não só estabelecer um formato e um fórum para conversações de reconciliação”, assim como se tenha começado um “processo de transição, que é o que necessita o povo da Venezuela”.
O secretário de Estado deixou ainda um aviso: os norte-americanos vão estar “muito envolvidos” neste processo. Por outras palavras, Marco Rubio quis deixar uma garantia: o futuro da Venezuela vai continuar a passar pela Casa Branca. Mesmo que haja uma plataforma para os venezuelanos conversarem entre si, os EUA serão os árbitros e mediadores, sendo que o resultado dessas negociações terá de agradar a Washington.
Corina Machado põe-se de fora — e quer desvincular-se destas negociações
Nem María Corina Machado, nem Edmundo González foram eleitos deputados na Assembleia Nacional de 2015. Os dois principais rostos da oposição venezuelana, que ganharam peso e projeção desde as presidenciais de 2024, não teriam um lugar à mesa das negociações. Algo que se tornou bastante claro com os moldes em que os norte-americanos aceitaram negociações.

À primeira vista, a líder da oposição venezuelana teria sido marginalizada novamente do processo negocial que vai definir o futuro da Venezuela. María Corina Machado criou, efetivamente, vários anticorpos na Casa Branca com a insistência em voltar ao país após os sismos. A opositora foi impedida de voar para Caracas, tendo ficado no Panamá. O voo foi cancelado e os pilotos foram ameaçados pelas autoridades aeroportuárias venezuelanas. A pressão resultou.
Terão sido os EUA a não permitir que María Corina Machado viajasse para a Venezuela ou foi o regime chavista que a impediu e que pressionou a Casa Branca para que a rival de Delcy Rodríguez não entrasse no país? As dúvidas persistem. No entanto, o episódio demonstra que a presença da líder da oposição em Caracas continua a ser um enorme incómodo para o regime venezuelano. Isso justifica que não tenha sido incluída nesta plataforma para a democratização da Venezuela: os chavistas querem-na longe e continuam a tentar minar o seu caminho rumo a eventuais eleições.
Sabendo disso, a Prémio Nobel da Paz de 2025 desvinculou-se deste processo. Numa longa nota nas redes sociais, María Corina Machado lamentou que faça falta um “Governo novo com autoridade moral e capacidade de gestão” e anunciou que não vai participar no mecanismo para a democratização da Venezuela. “Não participamos. Quem está a contribuir é que deve informar o país sobre os seus objetivos, o seu método e cronograma”, declarou.
Mesmo assim, a líder da oposição esclareceu que não será um “obstáculo” a “nenhuma iniciativa que produza avanços reais”, prometendo estar atenta e avaliá-las “com base em objetivos concretos e verificáveis”. Para María Corina Machado, é fundamental que os presos políticos sejam libertados e que existam “garantias” para que “todos os atores” possam participar nas futuras eleições, apelando à criação de um “cronograma eleitoral presidencial”.
Uma posição intermédia que clarifica o dilema desta fação da oposição. Recusa estar associada ao regime chavista — este foi, aliás, o mote de toda a carreira política de María Corina Machado, que chegou a dizer a Hugo Chávez que “expropriar era roubar” —, ao mesmo tempo que não se opõe totalmente, porque sabe que, ao fazê-lo, podia ficar totalmente fora da competição que vai definir qual será o rumo da Venezuela nas próximas décadas.
Em declarações ao Observador, Orlando Pérez, professor de História & Ciência Política na Universidade do Texas do Norte em Dallas, explica que a oposição “está a recusar liderar um processo que não estabeleceu, deixando também claro que não vão obstruir o processo”. “Eles querem ter uma escapatória plausível, caso o processo fracasse ou se prolonge”, afirma o especialista, lembrando que isso “preserva o histórico de Corina Machado em nunca ter negociado diretamente com o regime”.
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“Eles posicionam-se como auditores e não como participantes”, destrinça Orlando Pérez, explicando: “Ao manter-se afastada das negociações de 1 de agosto, Corina Machado evita qualquer envolvimento direto com a autoridade eleitoral, as regras institucionais, sendo que o calendário [eleitoral] será negociado por outros.” Mas há um “risco”, avisa o professor universitário: “Corina Machado pode acabar como uma mera espectadora das condições que vão definir se as eleições nas quais ela tem prometido participar serão, de facto, possíveis.”
O que Dinorah Figuera vier a definir pode incluir ou excluir María Corina Machado de uma eventual corrida eleitoral. Ainda assim, chegaram boas notícias para o Prémio Nobel da Paz. A 28 de julho de 2026 — dois anos após as eleições presidenciais que a oposição garantiu terem sido vencidas por Edmundo González —, a médica que vivia em Espanha veio declarar o seu apoio ao resultado apurado pelos opositores. E também já reconheceu que María Corina Machado será “muito importante neste processo”.
“A 28 de julho, os venezuelanos no exílio assumiram com responsabilidade o compromisso de contribuir para o processo democrático que fez de Edmundo González Presidente da Venezuela”, assinalou Dinorah Figuera, criticando o facto de o regime de Nicolás Maduro ter “negado o direito constitucional” à diáspora para votar. A atual representante da oposição nas negociações com os chavistas confirma, assim, o aliado de María Corina Machado como o vencedor legítimo das eleições de 2024, providenciando-lhe um importante capital político. Um bom ponto de partida, mas sem garantias de que venha a produzir efeitos práticos ao sentar-se à mesa com o regime.

Regime senta-se à mesa de negociações. Porquê agora?
A 11 de julho, Jorge Rodríguez sinalizou que seria impossível haver eleições para o Tribunal Supremo de Justiça venezuelano ou para o Conselho Nacional Eleitoral. Argumentou que não havia “cabeça” e que seria até uma “falta de respeito” realizar conversas desse género, tendo em conta que o país estava a recuperar dos violentos sismos. No entanto, três dias depois, o discurso do irmão de Delcy Rodríguez mudou radicalmente, abrindo a porta a negociações com a oposição.
O que levou a uma mudança de opinião tão repentina? Não é claro, mas suspeita-se que tenha sido influência norte-americana. “Jorge Rodríguez descartou qualquer mudança institucional a 11 de julho, mas recuou três dias depois, quando se tornaram claras as preferências de Washington”, diz Orlando Pérez. O secretário de Estado norte-americano percebeu que teria de fazer alguma coisa para garantir uma nova solução governativa para a Venezuela.
Para os EUA, a questão não se prende apenas com o facto de estarem a salvaguardar os resquícios do chavismo — algo que muitos republicanos continuam sem compreender. Mais do que isso, a administração Trump pretende alavancar os investimentos norte-americanos na Venezuela para intensificar a exploração de petróleo, mas, como noticia o Wall Street Journal, isso não está a acontecer. Os investidores mantêm-se muito cautelosos: o facto de o país ainda ser liderado por aqueles que deram início à vaga de nacionalizações no final da década de 90 e que estiveram ao lado de Hugo Chávez continua a pesar na tomada de decisão das grandes petrolíferas.

O regime também ambiciona investimentos massivos: é dinheiro rápido a entrar nos cofres do Estado e a garantia de que os rostos do chavismo vão continuar a lucrar. No entanto, ao Wall Street Journal, Schreiner Parker, diretor da consultora Rystad Energy, frisa que muitos dos projetos petrolíferos no país “exigem muito capital, planeamento a longo prazo e a capacidade de manter a estabilidade por algum tempo”. O facto de o Governo interino não ser reconhecido pela maioria da população venezuelana e não ser visto nos EUA como uma solução duradoura representa um grande obstáculo para os investidores.
Dito isto, é imprescindível que haja uma “transição de poder” e que o país “estabilize” após a detenção de Nicolás Maduro. O Governo chefiado por Delcy Rodríguez percebeu que, ao dar luz verde a negociações com a oposição, podia projetar a imagem de que está empenhado nesse processo de democratização. “Tem as suas próprias razões para querer uma negociação limitada e controlada. Ganha apoio internacional e pode apresentar isso como prova da sua abertura, mas sem ceder o poder”, enfatiza Orlando Pérez.
Estas negociações estão a ser uma das vias para o Governo interino tentar manter-se no poder. O regime chavista até pode dividir algum poder com a oposição, desde que continue a controlar as decisões mais importantes. Em simultâneo, Delcy Rodríguez consegue sacudir alguma da pressão dos Estados Unidos para abrir o país à oposição — não àquela liderada pela rival, María Corina Machado, mas, sim, a uma Assembleia Nacional eleita há onze anos, de que muitos venezuelanos já nem se lembram.
Embora esta manobra possa dar frutos, não é Delcy Rodríguez quem decide o futuro da Venezuela: esse papel continua reservado a Marco Rubio. É o secretário de Estado quem continua a ter a palavra final sobre o país. Contudo, a líder interina sabe que tem de manter a estratégia de parecer obediente, esperando que o chefe da diplomacia norte-americana não perceba que a sua verdadeira prioridade é anular a força do movimento de María Corina Machado.
Porque é que a médica que vivia em Espanha foi escolhida para liderar as negociações?
Em 2018, Dinorah Figuera viu-se forçada a fugir da Venezuela. O regime perseguia-a, e a sua segurança estava em risco devido às ameaças das forças de segurança. Membro do partido de centro-direita Primero Justicia, a opositora exilou-se em Espanha. Segundo o jornal ABC, tentou exercer medicina no país, mas não obteve a homologação do diploma. Assim, acabou por trabalhar como cuidadora de uma idosa com alzheimer, mantendo discretamente alguns contactos políticos com os opositores venezuelanos.
O Departamento de Estado viu nesta mulher de 65 anos a solução para liderar as negociações. A médica, que sempre se opôs ao regime chavista, foi a escolhida pelo facto de ser a líder da Assembleia Nacional de 2015. Mas não foi o único fator. Como nota o jornalista David Smilde, num artigo publicado no think tank Responsible Statecraft, existe um “perigo claro de que Figuera esteja totalmente dependente da administração norte-americana, que continua a priorizar estabilidade em detrimento da democracia”.

O alvo foi cirúrgico, como aponta David Smilde: “Não é uma líder carismática e não é bem conhecida entre os venezuelanos. Isso vai limitar a sua capacidade de se desviar das exigências de Washington”. Com Dinorah Figuera, os Estados Unidos vão lidar com alguém praticamente sem força política própria e que sabe que foi colocada na mesa de negociações precisamente pela mão de Washington.
Para os chavistas, esta mulher também é uma boa escolha, mesmo que até não tenham tido intervenção na escolha — desconhece-se se houve qualquer articulação com Marco Rubio. Com efeito, a sua falta de mobilização popular e ausência de força política fazem-na mais vulnerável. Num artigo escrito pelos especialistas Geoff Ramsey e Jason Marczak, no Atlantic Council, explica-se que “Figuera e Corina Machado vêm de diferentes alas da oposição venezuelana”.
“Figuera vem da ala mais moderada, que tem apoiado repetidamente processos de negociação, enquanto Corina Machado ganhou popularidade como uma figura que se opõe ao regime”, referem os especialistas. Dito doutro modo, os chavistas no poder sabem que, com a Nobel da Paz, haveria um corte e seriam afastados totalmente da cena política. Com a médica, existe a possibilidade de permanecer nos mesmos cargos e cederem sem nunca entregarem o poder.
Há outro objetivo: o regime chavista consegue dividir a oposição entre um bloco mais moderado (com o qual nem se importam de negociar) e a fação mais radical de María Corina Machado, que continua a querer manter afastada da Venezuela. Ainda que, numa entrevista à revista Time, Delcy Rodríguez nunca tenha garantido que a principal rival política regresse ao país, mas também não tenha descartado essa possibilidade: “Haverá um momento político em que a coexistência pacífica será possível.”
Uma sondagem recente revelou que, se os venezuelanos tivessem de escolher num duelo direto entre María Corina Machado e Delcy Rodríguez, a líder opositora alcançaria uns impressionantes 82,6% das intenções de voto. Em contrapartida, apenas 4,5% dos inquiridos apoiariam a atual Presidente interina. O resultado não deixa margem para dúvidas: mesmo com todas as tentativas para o minar, o capital político da dissidente continua intacto — e é precisamente esse apoio que o regime chavista mais teme.

Nas negociações que agora começam, Dinorah Figuera vai ser a figura encarregada de enfrentar uma máquina bem oleada pelo regime chavista, que deseja, acima de tudo, manter-se a todo o custo no poder. Seja como for, continuarão a ser os Estados Unidos — em particular o “vice-rei” Marco Rubio — a ditar o futuro do país, tentando entender quais opções trarão maiores dividendos geopolíticos e económicos para os cofres norte-americanos.