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Guerras da Ucrânia e no Irão estão a sobrepor-se? Ataque no Mar Cáspio "é exemplo mais óbvio de como estão conectadas"

Com a globalização, as guerras regionais têm sempre impactos mundiais. Incidente "acidental" no Mar Cáspio não deve levar a escalada entre Kiev e Teerão, mas expõe sobreposição das duas guerras.

Madalena Moreira
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A Catedral Nacional de Washington está cheia para o funeral do senador republicano Lindsey Graham. Para além da classe política norte-americana, alguns líderes internacionais também estão no local para a homenagem, entre eles Volodymyr Zelensky e Benjamin Netanyahu. No meio da multidão e rodeados por membros das respetivas administrações, os dois líderes trocam algumas palavras. Horas antes, as suas agendas já se tinham cruzado, na Casa Branca, para dois encontros muito discretos com Donald Trump.

Mas os caminhos da política ucraniana e israelita não se cruzam apenas na capital norte-americana. Pelo contrário, as guerras que tanto Kiev como Telavive protagonizam estão cada vez mais interconectadas ou sobrepostas. Desde fevereiro, quando Estados Unidos e Israel lançaram a ofensiva militar contra o Irão, que o Presidente ucraniano tem sublinhado como Trump tem dispensado menos atenção a Kiev. “Eu compreendo que os Estados Unidos estão mais focados no Médio Oriente e por causa disso, temos tido um grande desafio [em obter novos apoios]”, voltou a afirmar esta semana, em entrevista à Sky News.

Os Estados Unidos — e a sua ajuda quer à Ucrânia quer a Israel — não são o único elo de ligação entre os dois conflitos. Do lado oposto da barricada, também a Rússia e o Irão se têm apoiado mutuamente no esforço de guerra. E foi este apoio que, no passado domingo, resultou num ataque da Ucrânia a um navio iraniano no mar Cáspio, abrindo um novo capítulo na sobreposição das guerras. O ataque alimentou medos de um alargar dos dois conflitos a um palco de guerra comum, na região do Cáucaso, mas a comunicação diplomática entre Kiev e Teerão rapidamente pôs um ponto final a essa possibilidade.

Ainda assim, é possível fazer uma leitura mais complexa deste incidente — que tudo indica que tenha sido isolado — no contexto das duas guerras. A um nível ainda mais macro, o ataque coloca a nu uma realidade sobre a qual os especialistas se têm debruçado ao longo dos últimos anos: a forma como a globalização transformou as guerras regionais em problemas globais, que raramente se limitam aos países em confronto.

“Hostil e irracional”, mas “acidental”. O ataque de um drone ucraniano a um navio iraniano

No passado sábado, na sua comunicação diária ao país, Volodymyr Zelensky dava conta de “resultados muito bons nos ataques de longo alcance no Mar Cáspio — incluindo um navio utilizado em remessas de material envolvendo o Irão, assim como um navio militar”. No dia seguinte, o Irão denunciava um ataque “hostil”, “criminoso” e “irracional” com um drone ucraniano contra um navio comercial iraniano, que saíra do porto russo de Astrakhan com destino a Anzali, no Irão, com um carregamento de ferro. O ataque matou um trabalhador do barco, um civil, e deixou outros três feridos.

Em resposta, Teerão convocou o embaixador ucraniano. O regime iraniano terá ponderado ainda atacar um porto ucraniano no mar Negro com um míssil balístico, avançou o New York Times, que cita responsáveis iranianos e ocidentais. “O Irão ladra mais do que morde, no que diz respeito à Ucrânia”, afirmou Nate Swanson à RFL/RE. O antigo diretor para o Irão no Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca durante a administração de Joe Biden não excluía a possibilidade de um ataque “simbólico”, mas argumentou que Teerão não tem qualquer desejo de abrir uma nova frente de guerra.

"Desde o primeiro ano da guerra que o Irão deu drones Shahed [à Rússia]. Eles atacaram-nos? Eu penso que sim, penso que já o fizeram. Temos de ser cuidadosos para não abrir uma nova frente de guerra, mas temos de ser honestos e de estar prontos para tudo, sabendo que não podemos confiar nestas pessoas. Desde o princípio, sem qualquer escalada da nossa parte, o Irão já dava armas [à Rússia]."
Volodymyr Zelensky, em entrevista à Sky News

A ideia de um ataque, mesmo que “simbólico”, rapidamente foi riscada em detrimento de uma abordagem diplomática, que se traduziu num telefonema entre os ministros dos Negócios Estrangeiros dos dois países esta terça-feira. “O ministro ucraniano Andrii Sybiha assegurou que o ataque não foi intencional e que a Ucrânia não procura uma escalada”, escreveu Abbas Araghchi nas suas redes sociais depois dessa conversa. “Tem de haver uma restituição pelas perdas”, exigiu, ainda assim, Teerão.

“Reiterei que todas as ações da Ucrânia têm como único objetivo defender o nosso país da agressão russa e nunca tiveram como objetivo visar navios ou pessoas civis”, escreveu por sua vez Sybiha. As palavras do chefe da diplomacia não estão totalmente alinhadas com as de Zelensky sobre o ataque a um “navio utilizado em remessas de material envolvendo o Irão”. Em entrevista à Sky News, e sem mencionar diretamente este incidente, Zelensky insistiu, aliás, que a Ucrânia está apenas a responder ao envolvimento do Irão na guerra entre a Rússia e a Ucrânia.

“Desde o primeiro ano da guerra que o Irão deu drones Shahed [à Rússia]. Eles atacaram-nos? Eu penso que sim, penso que já o fizeram”, expôs Zelensky. “Temos de ser cuidadosos para não abrir uma nova frente de guerra, mas temos de ser honestos e de estar prontos para tudo, sabendo que não podemos confiar nestas pessoas. Desde o princípio, sem qualquer escalada da nossa parte, o Irão já dava armas [à Rússia]”, continuou.

Kiev interrompe abastecimento de Teerão a Moscovo e envia mensagens ao Irão e aos EUA

Estendendo-se ao longo de quase 4 mil quilómetros quadrados, o mar Cáspio é classificado como um lago, o maior do mundo. A massa de água funciona como um importante corredor comercial entre a Rússia e o Irão — foi precisamente por aqui que Teerão enviou para Moscovo as primeiras remessas de Shaheds no início da guerra contra a Ucrânia. Estas características fazem do mar Cáspio um alvo relevante para Kiev.

“O ataque surge no meio de uma extensão da campanha contra as redes que apoiam o esforço de guerra da Rússia”, escreve Olha Polishchuk, diretora do programa da Europa de Leste da ACLED, uma organização norte-americana de monitorização de conflitos. A especialista compara este ataque aos mais de 200 que foram feitos em junho contra navios com ligações à Rússia no mar de Azov ou no mar Negro. “É menos sobre abrir uma nova frente de guerra e mais sobre interromper as rotas de abastecimento entre o Irão e a Rússia”, sintetiza.

Polishchuk admite, ainda assim, que o ataque pode servir para Kiev também transmitir uma mensagem. “O timing importa. Com os EUA a intensificarem a sua campanha contra o Irão, o ataque surge num período de alinhamento entre Washington e Kiev (…) e também serve para demonstrar que Kiev e Washington têm cada vez mais um adversário comum em Teerão“, aponta. A questão do timing pode ser ainda mais específica, uma vez que o ataque decorreu apenas três dias antes de Zelensky se reunir com Trump na Casa Branca — uma oportunidade perfeita para vincar esta mensagem junto do seu principal aliado.

O ataque também transmite uma mensagem a Teerão: a Ucrânia tem capacidades para agir às portas do Irão e, se necessário, está disposta a fazê-lo. O regime iraniano encontra-se sob forte pressão dos EUA nos mares do sul, no Estreito de Ormuz e no mar da Arábia. O ataque ucraniano mostra que os mares a norte não são um refúgio seguro, mas antes um palco onde também atuam os interesses ocidentais.

Mesmo não sendo essa a intenção primária do ataque, Kiev posiciona-se com este ataque de forma clara do lado dos Estados Unidos e de Israel no tabuleiro da ordem internacional, contra a Rússia e o Irão e reafirma as regras do jogo: o Irão apoia a Rússia, a Rússia ataca a Ucrânia, a Ucrânia ataca o Irão, ao mesmo tempo que os Estados Unidos apoiam a Ucrânia, atacam o Irão e dialogam com a Rússia.

Os CRINKs, guerras em vários continentes e novas tecnologias. A globalização das guerras

No final de 2023, diplomatas, responsáveis políticos e militares reuniram-se em Halifax para o Fórum Internacional de Segurança. Foi aí que se banalizou a utilização de um novo termo: CRINKs. À semelhança dos BRICS, o acrónimo refere-se a um grupo específico de países, neste caso, China, Rússia, Irão e Coreia do Norte. O grupo é tratado, entre analistas e políticos ocidentais, por muitos outros nomes: eixo dos adversários, dos inimigos, dos agitadores ou do mal. Não se trata de uma aliança formal, mas de países, com fortes relações económicas e militares entre si e que partilham, ideologicamente, a oposição à hegemonia norte-americana.

A existência de um bloco de parceiros, com uma oposição clara a uma potência, é classificada pelo jornalista do Financial Times, Gideon Rachman, como um critério para a existência de uma “guerra mundial”. O outro é a existência de confrontos em vários pontos do globo — somam-se já confrontos na Europa e na Ásia, com atores (indiretos) partilhados. Mesmo que a guerra no Irão ou na Ucrânia esteja longe de ser comparáveis à I ou à II Guerra Mundial, a sua “mundialização” é visível noutras dimensões além da militar.

Por exemplo, politicamente, a guerra na Ucrânia fez o continente europeu repensar o seu desenho de segurança comunitário e investir de forma inédita na área da Defesa e Segurança. Economicamente, a guerra no Irão provocou o aumento a pique dos preços dos combustíveis, devido ao bloqueio do Estreito de Ormuz, e, consequentemente, o aumento do custo de vida.

"O Cáspio é provavelmente o exemplo mais óbvio de como [as duas guerras] estão conectadas porque é um corredor tanto para o que o Irão recebe como para o que fornece à Rússia. Para os ucranianos, isto sempre esteve ligado."
Nicole Grajewski, especialista nas relações entre a Rússia e a Ucrânia na universidade Sciences Po

No século XXI, esta globalização das guerras regionais parece, portanto, inevitável. Muhittin Ataman, diretor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade de Ancara, aponta, num artigo de análise, dois motivos concretos: de forma mais óbvia, o próprio processo de globalização, que cria uma ligação — económica, política, social — entre os vários problemas, nos vários países, incluindo as guerras. Por outro lado, destaca a utilização de novas tecnologias (como armas de longo alcance, drones ou formas de guerra híbrida) que permitem a um país travar uma guerra do outro lado do mundo e que fizeram emergir “um novo ambiente de segurança” e provocaram um “fracasso das estratégias de dissuasão”. Olhando para os países do CRINK que já foram atacados pelos EUA, é possível ver, ainda assim, que as armas nucleares continuam a ser uma exceção a esse fracasso.

O incidente entre a Ucrânia e o Irão traduziu claramente este contexto internacional mais amplo. “O Cáspio é provavelmente o exemplo mais óbvio de como [as duas guerras] estão conectadas porque é um corredor tanto para o que o Irão recebe como para o que fornece à Rússia”, sintetizou Nicole Grajewski, especialista nas relações entre a Rússia e a Ucrânia na universidade Sciences Po, ao Iran International. “Para os ucranianos, isto sempre esteve ligado”, rematou.

[Os serviços secretos portugueses enfrentam uma crise de segurança sem precedentes: existe uma toupeira infiltrada no SIS. A suspeita é de que esteja a vender segredos da NATO à Rússia de Putin. E a confirmação final vai ser feita pelas secretas norte-americanas: a CIA traz o nome de um dos espiões mais antigos do serviço. Já estreou “A Vida Dupla do Espião Traidor”, o novo Podcast Plus do Observador. Pode ouvir o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]