Há uma frase que todos ouvimos desde crianças, quase como um mantra: “os Estados Unidos são o país das oportunidades”. Depois de ter acabado de voltar de Nova Iorque em trabalho, e de ter vivido a cidade não totalmente como turista, mas como quem lá tem de acordar, trabalhar, comer e voltar a casa todos os dias, percebi uma coisa que me deixou incomodada: nós, portugueses, temos grande parte daquilo que a América vende como sonho. Só que não sabemos que o temos, e, pior, muitas vezes nem lhe damos valor.
A frase de choque é esta: o sonho americano existe porque os americanos não têm o que nós temos todos os dias. E, ainda assim, continuamos a olhar para o outro lado do Atlântico como se lá estivesse tudo o que se pudesse concretizar.
Mas esta não seria uma comparação honesta se não começasse por reconhecer o que os Estados Unidos fazem de forma exemplar. A ambição está em todo o lado. Ninguém tem vergonha de querer crescer, de mudar de emprego, de recomeçar, de admitir que quer ser bem-sucedido. Essa cultura de “start again” é revigorante e, muitas vezes, falta-nos em Portugal, onde o medo do fracasso ainda pesa demasiado nas decisões individuais.
Depois há o orgulho nacional, que é avassalador. As bandeiras dos Estados Unidos estão em todo o lado, em pontes, em edifícios públicos, em jardins, em varandas de apartamentos. Não é um patriotismo de ocasião, é uma presença constante, quase religiosa, do símbolo do país. Isso diz muito sobre a forma como se ensina, desde cedo, a amar aquilo que é seu. É uma lição que podíamos aprender sem complexos, sem que isso significasse nacionalismo cego, mas apenas orgulho saudável pelo que somos.
E por último, a eficiência de certos serviços, a rapidez com que se resolvem problemas administrativos, a cultura de atendimento ao cliente e a facilidade com que se criam negócios também são pontos que os americanos têm bem trabalhados e que, sinceramente, nos fariam falta cá.
De longe, de repente, dentro de autocarros turísticos ou nas subidas a grandes arranha-céus, tudo parece mágico. Mas quando vamos ficando, quando vamos sentindo e quando vamos aumentando a nossa atenção, começam a aparecer as fissuras.
Os horários dos restaurantes são limitados: no máximo, duas horas. Come-se cedo, come-se depressa, e a cozinha fecha sem grandes cerimónias. Aquele hábito tão português de esticar o jantar, de conversar à mesa sem pressa, de comer como um ritual social e não como uma tarefa a cumprir.
Em plena rua movimentada, no meio de multidões, grupos a rezar em direção a Meca como se da estrada se tratasse a sua igreja e os que os rodeiam não tivessem outra alternativa que não fosse desviar e continuar os seus caminhos.
A quantidade de pessoas a mendigar, muitas visivelmente a consumir droga ou a injetar-se em plena via pública, é chocante para quem vem de um país onde este tipo de cena, embora exista, não é tão exposta nem tão naturalizada. Ali, o problema não está longe; está ali, ao lado do café, do escritório, do hotel de luxo.
O lixo deixado pelos milhões de turistas que passam pela cidade, mas também pelo grande comércio de rua, que funciona com pouquíssima fiscalização, para não dizer nula, é desconcertante. Por um lado, essa falta de controlo permite que qualquer pessoa monte o seu negócio com rapidez e sem grande burocracia, principalmente para aqueles que têm rendimentos mais baixos, o que é um ponto positivo para quem quer empreender e ganhar a vida a trabalhar. Por outro lado, transforma a gestão da cidade num caos: camiões parados no meio da rua a vender comida, montras improvisadas em cada esquina, sacos de lixo empilhados que ninguém recolhe a tempo. E onde há lixo acumulado, há ratos, e Nova Iorque tem quantidades que qualquer autarquia portuguesa consideraria uma crise de saúde pública.
Por fim, um pequeno pormenor que se torna gigante especialmente para os mediterrâneos: o sal. Para quê tanto? A comida americana tem um teor salino que, para quem vem de Portugal, é quase insuportável. Tentam encontrar o sabor da forma errada e, por isso, ficam tão surpreendidos quando provam a nossa cozinha.
No final das contas, fica a ideia que dá título a este texto: o sonho é tão português que, quando podem, são os próprios americanos que vêm para Portugal. Vêm para viver, para reformar-se, para abrandar, para comer bem, para sentir segurança, para ter tempo para a família e para a mesa. Vêm buscar aquilo que nós, às vezes, não sabemos que temos.
Não se trata de dizer que a América não tem nada a ensinar-nos, tem, e muito, sobretudo em ambição, orgulho nacional e eficiência. Mas também não se trata de continuar a idealizar um “sonho americano” sem perceber que grande parte dele já o vivemos, todos os dias, em Portugal, sem lhe chamarmos sonho. Chamamos-lhe apenas vida.
Somos poucos os que não acreditamos no “sonho americano”, e parece-me que a principal razão é não percebermos que podemos ter o “sonho português”.
Portugal é o país dos detalhes, na ineficiência por si só, mas não deixa de lado a nossa alma. Não devemos querer que Portugal perca a sua essência, o seu ritmo, a sua cor. Mas queremos encontrar um ponto de equilíbrio que nos torne o país onde o café é tomado com calma, onde a calçada ainda é feita como antigamente, onde os finais do dia são com os amigos e onde a presença na família é a regra, e não a exceção.
O sonho está aqui, nas nossas mãos. Só temos de passar do Sonhar ao Concretizar.