As contas públicas francesas continuaram a ser um dos principais pontos fracos da Zona Euro na primeira metade de 2026. Apesar de alguma melhoria face a 2025, o ritmo de consolidação orçamental tem sido insuficiente e o próprio governo francês já reconheceu que será muito difícil cumprir os objetivos inicialmente definidos. O défice orçamental em 2025 foi de 5,1% do PIB, um resultado ligeiramente melhor do que o esperado, e o objetivo para 2026 é reduzi-lo para 5%. Todavia, depois de um primeiro semestre economicamente fraco, o executivo gaulês reviu em baixa a previsão de crescimento para este ano, de 0,9% para 0,7%. Assim, as receitas fiscais esperadas dificilmente serão atingidas, aumentando a pressão sobre as contas públicas e, indiretamente, sobre a despesa pública, podendo culminar em mais medidas impopulares. Perante esta evolução, o ministro francês das Finanças já admitiu que alcançar um défice de 5% do PIB será muito difícil.
A situação da dívida pública é igualmente preocupante. A dívida francesa atingiu um novo máximo histórico no final do primeiro trimestre de 2026, próximo de 3,54 biliões de euros, correspondendo a aproximadamente 117,5% do PIB, um dos rácios mais elevados da Zona Euro. A deterioração das contas públicas é resultado de um fraco crescimento económico, do aumento dos encargos com os juros da dívida, da subida das despesas com defesa e energia, das derrapagens orçamentais das administrações locais e das dificuldades políticas em aprovar medidas eficazes e duradouras de contenção da despesa.
Para tentar limitar o agravamento do défice, o governo francês anunciou um corte adicional na despesa de 3 mil milhões de euros, que se soma aos 6 mil milhões de euros de poupanças anteriormente aprovados. Ainda assim, estas medidas poderão ser insuficientes perante a fraqueza da economia e a rigidez de uma parte significativa da despesa pública francesa. A preocupação com a trajetória orçamental de França é suficientemente séria para que o Fundo Monetário Internacional, o Banco de França e a OCDE tenham alertado que, sem reformas estruturais e um controlo permanente da despesa, a dívida pública continuará a aumentar nos próximos anos. Esta evolução poderá elevar o risco de novas descidas da notação financeira de França e ditar um aumento dos custos de financiamento do Estado, agravando ainda mais os encargos com juros e dificultando o processo de consolidação orçamental. A porta para um círculo vicioso pode abrir-se como uma caixa de Pandora.
A evolução do spread das obrigações do tesouro francês a 10 anos face à Alemanha revela uma deterioração crescente da perceção de risco por parte dos investidores. Depois de um período de compressão generalizada dos spreads ao longo de 2025 e no início de 2026, em linha com a descida das taxas de juro na Zona Euro, a França voltou a divergir dos restantes países nos últimos meses. O Orçamento do Estado para 2026, assente em metas de consolidação consideradas pouco credíveis, as sucessivas revisões das previsões orçamentais, a instabilidade política, as mudanças no Ministério das Finanças e a dificuldade em reunir maiorias parlamentares para aprovar medidas de consolidação fiscal alimentaram as dúvidas dos investidores sobre a capacidade de o país controlar o aumento da dívida pública e de travar o crescente défice. No Orçamento do Estado para 2026 ficou inscrito um rácio de dívida pública de 118,2%. A Comissão Europeia, na Previsão da Primavera, estimou 118,1% do PIB para 2026 e 120,2% em 2027. Assim, o prémio de risco francês voltou a aumentar, aproximou-se do italiano, algo pouco habitual há poucos anos, chegou mesmo a superá-lo em alguns momentos e voltou a fazê-lo no início de julho.
Itália continua a apresentar um nível de dívida mais elevado, mas beneficia atualmente de maior estabilidade política e de uma estratégia orçamental que os mercados consideram mais previsível. Em sentido inverso, Espanha conseguiu reduzir o seu spread graças a um crescimento económico superior ao da média da Zona Euro, à melhoria das contas públicas e à redução gradual do rácio da dívida pública de 120% em 2020 para 100% em 2025. Portugal mantém o menor spread do grupo, refletindo vários anos consecutivos de excedentes orçamentais, uma clara tendência descendente da dívida pública lusa, abaixo de 90% do PIB em 2025, reforçando a confiança dos investidores na sustentabilidade das finanças públicas portuguesas.
A França já foi despromovida de AA− para A+ pela S&P e pela Fitch, embora ambas mantenham uma perspetiva estável. A Moody’s mantém a classificação Aa3, mas com perspetiva negativa, sinalizando maior risco de nova descida caso o país não apresente uma consolidação orçamental credível, estabilize a dívida e reduza a instabilidade política. A descida de A+ para A pode ser uma realidade caso os défices elevados persistam próximos ou superiores a 5% do PIB, a dívida supere sustentadamente os 120% e haja incapacidade para aprovar cortes ou reformas. A Comissão Europeia já alertou para uma dívida pública acima dos 120% em 2027, antecipando um défice de 5,1% em 2026.
Em suma, apesar da dimensão e diversificação da economia francesa, a combinação entre défices elevados, dívida crescente, crescimento económico anémico e instabilidade política tem reduzido gradualmente a confiança dos investidores, refletindo-se no aumento do prémio de risco exigido para financiar o Estado francês.

