A divulgação mediática de resultados de investigação, sejam eles de que domínio científico forem, tem por vezes privilegiado narrativas fortes e muito assertivas em detrimento da prudência que, por norma, encontramos nas respetivas publicações em ambiente científico. No caso da arqueologia ou da paleogenética, isso aconteceu em diversas ocasiões nos últimos anos. Recorde-se, por exemplo, a ampla divulgação, em 2018, da ideia de que “há 4500 anos, toda a população masculina de Espanha foi dizimada por invasores hostis”. Neste caso concreto, os dados genéticos mostravam uma substituição quase completa das linhagens paternas naquela época. Porém, a interpretação histórica desse fenómeno sempre esteve dependente da articulação entre genética, arqueologia e antropologia. A genética, que é hoje uma ferramenta extraordinariamente poderosa para reconstruir a história biológica das populações humanas, identifica padrões demográficos; não reconstrói, por si só, os acontecimentos históricos que lhes estão por trás e lhes deram origem.
É nesta perspetiva que li com interesse o artigo de opinião de Rodrigo Tavares no jornal Expresso, no passado dia 9 de julho, sobre o estudo publicado no ano passado na revista Genome Biology, intitulado (em inglês) “A história genética de Portugal nos últimos 5000 anos”, do qual fui coautor e cujo original pode ser consultado no website da própria revista. Sempre considerei ser muito positivo ver resultados de investigação científica chegarem ao debate público. No entanto, parece-me igualmente importante distinguir muito bem entre aquilo que os estudos efetivamente demonstram e as interpretações — neste caso, de natureza política — que legitimamente deles podem ser retiradas.
O nosso trabalho reconstrói cinco mil anos de história genética das populações que habitaram o território hoje português a partir de ADN antigo recuperado de 67 indivíduos exumados em contexto de investigação arqueológica. Trata-se, de facto, da mais abrangente coleção de genomas antigos do nosso território publicada até hoje. No entanto, há que salientar desde já que continua a ser uma amostra relativamente reduzida para um período temporal tão vasto e com tantas, e por vezes tão radicais, transformações históricas. Como qualquer estudo científico, representa tão-somente mais um passo num processo cumulativo de conhecimento, e não uma palavra definitiva sobre a história biológica da população portuguesa. Por isso mesmo, o nosso artigo está repleto de expressões como “sugere”, “é provável”, “poderá ser”, “deve ser interpretado com cautela” ou “é necessária amostragem adicional”.
O estudo consegue demonstrar a existência de padrões de mobilidade a diversas escalas demográficas, continuidade genética, e mistura entre populações ao longo daquele tempo. Mas não responde — e, na minha opinião, não deveria nunca responder — a questões sobre identidade nacional, nacionalismo, imigração contemporânea ou legitimidade de qualquer posição política. Repito: de qualquer posição política. Essas questões pertencem ao domínio da filosofia política ou da ética, não da genética ou da história. É naturalmente legítimo, e até desejável, que qualquer pessoa utilize resultados científicos para refletir sobre a atualidade. O que importa, no entanto, é não confundir aquilo que “o estudo demonstra” com aquilo que “eu quero lá encontrar”.
Com efeito, o referido artigo de opinião enfatiza quase exclusivamente a migração e a miscigenação como traço transversal àqueles 5000 anos, quando uma das principais conclusões do nosso trabalho é precisamente a verificação da coexistência entre mobilidade e persistência, entre movimentos de pessoas e continuidade populacional. Logo no próprio resumo do artigo referimos explicitamente “padrões dinâmicos de migração”, mas também a “persistência das ancestralidades locais”. A história genética de Portugal é simultaneamente uma história de múltiplas chegadas e de persistentes permanências.
Nalguns momentos, o referido artigo de opinião simplifica também processos demográficos complexos. Ao contrário do que se poderá deduzir desse artigo, a miscigenação não foi o único nem o principal processo demográfico que pudemos documentar. Por exemplo, durante a Idade do Bronze (aprox. 2200-700 a.C.) observa-se uma transformação populacional associada à chegada ao nosso território de indivíduos portadores de ancestralidade genética de populações das estepes euroasiáticas, acompanhada por uma substituição quase completa das linhagens paternas até então existentes — o fenómeno a que fiz referência no início deste texto. Trata-se de uma transformação demográfica cuja interpretação exige a articulação entre dados genéticos, arqueológicos e antropológicos. Porém, este mesmo resultado (uma substituição da componente masculina destas populações) pode ser convocado para sustentar narrativas políticas muito diferentes entre si, como facilmente se imaginará. Esta plasticidade interpretativa constitui uma forte razão adicional para separar de forma muito cuidadosa aquilo que a genética demonstra daquilo que cada um nela pretende encontrar.
Também não me parece avisado associar a maior ancestralidade africana observada no sul do nosso território com a geografia eleitoral contemporânea de qualquer partido político. A frase utilizada no artigo de opinião, “o Sul do país (um bastião do Chega) revela maior mistura com populações africanas”, produz exatamente o mesmo efeito como se há poucos anos se tivesse dito que “o Sul do país (um bastião do PCP) revela maior mistura com populações africanas”. Trata-se de uma associação sem qualquer fundamento científico e que nada acrescenta à interpretação dos dados e ao efetivo conhecimento da realidade. Tratar-se-ia, em ambos os casos, de uma associação puramente retórica, sem qualquer valor explicativo.
Há ainda uma questão conceptual mais profunda. O artigo de opinião parece sugerir uma oposição entre identidade coletiva e fenómenos migratórios, como se fossem noções ou possibilidades históricas inconciliáveis. Ora, toda a história, toda a arqueologia, nos mostra precisamente o contrário. As sociedades humanas sempre mantiveram identidades coletivas fortes ao mesmo tempo que estabeleciam contactos, trocas, casamentos exogâmicos e movimentos populacionais. A expansão do Neolítico na Europa, que eu próprio estudo há décadas, constitui um excelente exemplo dessa coexistência. Hoje a genética mostra-nos que aquela expansão assentou em processos essencialmente migratórios, com raízes (genéticas e culturais) na Anatólia, mas que resultaram na formação de entidades culturais múltiplas, originais, com e sem herança cultural e genética das populações europeias preexistentes. A mobilidade biológica e a identidade cultural não são conceitos incompatíveis.
Na verdade, o nosso estudo nunca utiliza conceitos genéticos para definir “nacionalidade”, “identidade” ou “pertença”, embora sejam temas fortes e estimulantes de investigação também em história e pré-história. Ao invés, fala de “ancestralidade genética”, “história populacional”, “fluxo genético” e “impacto demográfico”. Esta separação conceptual é deliberada. A genética permite reconstruir histórias biológicas das populações passadas e atuais; não determina porém identidades sociais, culturais ou políticas.
Finalmente, não posso deixar de recordar que todas as formas de conhecimento do passado humano foram, em diferentes momentos da história, instrumentalizadas para fins ideológicos. A documentação histórica e os dados arqueológicos legitimaram políticas imperialistas, foram apropriadas por nacionalismos e por regimes totalitários de todas as cores; hoje, a paleogenética junta-se à história e à arqueologia para, também ela, ser convocada para sustentar narrativas políticas contemporâneas. O problema nunca reside na disciplina científica, mas na utilização que dela se pode potencialmente fazer. A função da ciência não é (ou não deveria ser) legitimar posições políticas, mas produzir conhecimento sobre a realidade, mesmo quando essa realidade é mais complexa do que gostaríamos.
Em suma: o nosso estudo não demonstra que identidade cultural e miscigenação sejam polos opostos incompatíveis do comportamento humano. A demonstrar algo, demonstra no meu entender precisamente o contrário: que ao longo de cinco mil anos coexistiram no nosso território elementos de continuidade populacional, eventos migratórios de diferentes expressões demográficas, e sucessivas identidades sociais, culturais e políticas. É essa complexidade — e não uma leitura seletiva do passado ao serviço das disputas do presente — que a arqueologia, a história e a genética, quando dialogam entre si, nos ajudam a compreender, se quisermos.
Nota: O artigo “A história genética de Portugal nos últimos 5000 anos” foi elaborado por uma equipa multidisciplinar que integra especialistas em paleogenética, genética populacional, arqueologia, antropologia biológica, bioinformática e biologia evolutiva. Enquanto coautor, subscrevo integralmente os métodos, os resultados e as conclusões científicas apresentadas. O presente texto constitui, porém, uma posição exclusivamente pessoal sobre a utilização pública desses resultados, pelo que as opiniões aqui expressas me vinculam apenas a mim e não à restante equipa.