Salazar marcou todo um século de política nacional. Primeiro, pelo que fez quando no poder, depois porque quem veio depois dele quis fazer tudo ao contrário do que Salazar tinha feito; ou até do que, hipoteticamente, teria feito ou faria.
Hoje, mais de meio século depois do 25 de Abril, a sua sombra continua visível nos livros, filmes, debates ou escritos que vão saindo, quase sempre com a intenção de reduzir o quase meio século de Estado Novo à Pide, à Censura, ao Tarrafal.
Mas como a Pide, a Censura e o Tarrafal parecem já não chegar, por que não “desmontar” a reputação de austeridade e de honradez do ditador, reconhecida até por arqui-inimigos, como Mário Soares? É, de resto, imperioso mitigar o intolerável contraste da suposta “rectidão” salazarista com o laxismo dos pequenos e grandes escândalos que ensombram a classe política e a oligarquia desta nossa democracia – como a comédia de (maus) costumes que agora envolve o Ministro da Administração Interna, entre a defesa da oposição socialista, que declara os indícios inexistentes ou inconsequentes, e o silêncio do próprio e dos sociais-democratas do governo de que faz parte. Trata-se, dizem-nos, de mais uma “cabala da extrema-direita” para denegrir o bom-nome do Ministro e a integridade do sistema e das instituições. A mesma extrema-direita que venera a “rectidão” do antigo Presidente do Conselho.
Talvez venha daí a tese da delapidação do erário público em proveito próprio de Salazar, recentemente avançada com surpreendentes novas sobre grandes negociatas, conseguidas por intermédio de coagidos funcionários do Estado a quem o ditador pedia que lhe tratassem dos “papéis”. Pois é, parece que Salazar era, afinal, um político dado a gastos sumptuários e de olho na especulação imobiliária, em tudo igual aos outros excepto no apreço, ou na falta dele, pela Democracia. É ver a transformação em resort bilionário do seu casebre natal de Santa Comba Dão – onde, de resto, o pai, cavalgando a movida de Santa Comba, já abrira um boutique hotel (vulgo, pensão), contrariando a tese de que António era pobre, filho de pobres, nado e criado em meio rural.
Urge, assim, a bem de Portugal e da Democracia, transformar rapidamente em fake news (ainda que com fake news) qualquer suposta probidade ou austeridade que, directamente de um passado iliberal, possa alimentar mais ainda o proverbial “discurso de ódio da extrema-direita”, a sua violência, as suas cabalas.
Rubio sobre a “inexistente” violência da extrema-esquerda
Há dias, em Washington, perante uma assembleia de responsáveis internacionais pela segurança de cerca de 60 países, Marco Rubio discorreu sobre a luta anti-terrorista pós-11 de Setembro, e deu em falar numa inexistência: a “violência extremista da esquerda política” ou o “terrorismo da extrema-esquerda” – que, como todos sabemos, só existem “nos sonhos febris da extrema-direita” e nas suas cabalas.
Mas Rubio insistiu na existência da inexistência, culpando a dualidade de critérios da cultura dominante e da sua base doutrinária e interpretativa, segundo a qual “uma bomba posta por um grupo neonazi” era “um acto nefasto, assassino e maléfico”, enquanto “uma bomba posta por um revolucionário marxista” não passava “de um trágico excesso de idealismo”.
Assim, para o Secretário de Estado norte-americano e ao contrário do que nos querem fazer crer, a violência da direita radical está bem longe de ser a única ameaça violenta à Democracia.
E como que para provar a existência dessa suposta inexistência, Rubio enumerou uma série de recentes actos terroristas da extrema-esquerda e fez o seu histórico, lembrando o terrorismo de esquerda nas Américas – dos maoístas peruanos do Sendero Luminoso, aos Tupamaros uruguaios e aos Montoneros argentinos – e a consequente instauração reactiva de regimes militares. Também na Europa, na segunda metade do século passado, as Brigadas Vermelhas italianas e os Baader-Meinhof alemães ou o 17 de Novembro, na Grécia (bandos de “iluminados, talvez excessivos, mas bem-intencionados”) tinham preenchido a sua quota de bombas, assassinatos, raptos e roubos de bancos, sob o olhar compreensivo e quase carinhoso de muitos intelectuais e da generalidade dos media.
Voltando ao presente, Rubio acentuou que, no último ano, a violência terrorista da extrema-esquerda cresceu 40% na Alemanha, e que, na Grécia, 80% dos casos de terrorismo vieram da extrema-esquerda. E, na América, referiu, evidentemente, as tentativas de assassinato de Trump. Falou também do assassino que atacou uma escola católica e que tinha gravado “where is your God now?” na arma do crime. Ou de Charlie Kirk, “o maior activista conservador da sua geração”, vítima de um assassino também “idealista” e requintado (tanto que se dera ao trabalho de inscrever na bala “hey fascist! CATCH!”).
A acabar, Rubio descreveu a rede de cumplicidades internacionais e de financiamento às comunicações, movimentação e recrutamento destes “activistas idealistas” e a luta da Administração Trump contra o terrorismo da esquerda radical, essa inexistência.
Perigo de escalada?
Há razões para temer que a “inexistência” vá crescendo. À medida que os partidos da direita nacional e popular progridem eleitoralmente e que progride a sua diabolização é natural que se multipliquem os voluntários para parar a “extrema-direita” ou o “fascismo”, instigados pela febre de “legitimidade revolucionária”.
Até por cá já houve um “português tranquilo” que atirou um cocktail Molotov contra uma manifestação de defensores da vida, para ele um perigoso bando de fascistas que era necessário incendiar para salvar a Democracia.
Mas convém que nos recordemos que, também por cá, nem tudo foram cocktails frustrados, e que a Esquerda, quando foi preciso matar, matou (por puro idealismo, claro, sem maldade): matou D. Carlos e D. Luís Filipe em Fevereiro de 1908, para se livrar de João Franco; matou Sidónio, em Dezembro de 1918, e tentou por várias vezes matar Salazar – o que seria o fim dos negócios milionários com que andava a lesar o Estado Português.
P.S. Boas Férias e boas leituras. Volto em Setembro.