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(A) :: A viagem nunca foi o problema

A viagem nunca foi o problema

Basta ver o que aconteceu nos últimos dias. As críticas rapidamente deixaram de incidir sobre o Governo israelita. Passaram para ataques dirigidos a qualquer pessoa que aceitasse visitar Israel.

Rute Sousa
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Quando um grupo de influenciadores portugueses aceitou um convite para visitar Israel, a polémica começou antes mesmo de o avião descolar. A sentença já estava escrita: tratava-se de propaganda, de uma operação de relações públicas ou, na expressão que rapidamente ganhou força nas redes sociais, de “turismo de guerra”. Curiosamente, quase ninguém quis saber como a viagem tinha sido organizada ou em que condições decorrera. A viagem e a estadia foram suportadas pela organização que promoveu a visita. Não houve qualquer pagamento para produzir conteúdos, não existiram guiões, não houve aprovação prévia de publicações nem orientações sobre aquilo que cada participante deveria dizer. Os factos são estes. O resto foi uma narrativa construída antes de existir qualquer realidade para a sustentar. É precisamente por isso que acredito que a viagem nunca foi o verdadeiro problema.

O que esta viagem revelou foi outra coisa: a facilidade com que o debate sobre Israel deixa de ser um debate político para se transformar num espaço onde tudo parece permitido. Vivemos um paradoxo curioso. Nunca foi tão fácil emitir opiniões definitivas sobre um conflito com mais de um século de história sem nunca ter visitado a região. Multiplicam-se análises, certezas absolutas e julgamentos morais produzidos a partir de vídeos de poucos segundos, publicações nas redes sociais ou debates televisivos. No entanto, quando alguém decide conhecer o terreno, falar com sobreviventes, visitar os locais onde ocorreram os ataques de 7 de Outubro ou entrar em Gaza para observar de perto uma realidade que normalmente conhece apenas através de ecrãs, essa decisão passa imediatamente a ser vista com suspeita. Como se procurar compreender o que se ouve, fosse, por si só, um ato condenável.

Durante dias assistimos a uma sucessão de insultos, campanhas de difamação, teorias da conspiração e ameaças dirigidas aos participantes desta delegação. No meu caso, recebi ameaças de morte, ameaças de violação e uma quantidade de ataques pessoais que rapidamente deixaram de ter qualquer relação com o conteúdo que publiquei. A discussão deixou de ser sobre ideias. Passou a ser sobre descredibilizar quem aceitou visitar Israel.

Foi nesse momento que percebi que esta viagem acabou por revelar muito mais sobre Portugal do que sobre o Médio Oriente.

Há muito que ouvimos dizer que o antissemitismo pertence ao passado europeu. Gostava sinceramente que assim fosse. Infelizmente, aquilo a que assistimos demonstra que o fenómeno não desapareceu; adaptou-se. Em muitos casos apresenta-se hoje sob a designação de antissionismo, um conceito frequentemente utilizado de forma tão ampla que acaba por misturar a crítica legítima às decisões de um governo com a rejeição da própria existência do Estado de Israel.

É precisamente aqui que o debate exige mais rigor intelectual.

O sionismo nasceu, no final do século XIX, como um movimento político que defendia o direito do povo judeu à autodeterminação nacional na sua terra ancestral. Pode discutir-se a forma como o Estado de Israel foi criado. Pode discutir-se cada governo, cada operação militar e cada decisão política. Aliás, isso acontece diariamente dentro da própria sociedade israelita. Aquilo que deixa de ser uma crítica política é negar legitimidade à existência do único Estado judeu do mundo, enquanto se aceita sem qualquer dificuldade a existência de dezenas de outros Estados nacionais construídos em torno de identidades religiosas, culturais ou étnicas.

Não afirmo que todo o antissionismo seja antissemita. Seria intelectualmente desonesto fazê-lo. Mas também seria intelectualmente desonesto ignorar que o antissemitismo contemporâneo encontra, muitas vezes, no discurso antissionista uma forma socialmente mais aceitável de se expressar. E basta observar aquilo que aconteceu nos últimos dias. As críticas rapidamente deixaram de incidir sobre políticas concretas do Governo israelita. Passaram para ataques dirigidos a qualquer pessoa que aceitasse visitar Israel, falar com israelitas ou recusar encaixar numa narrativa previamente definida.

Também me preocupa o papel desempenhado por alguns jornalistas, comentadores e órgãos de comunicação social. Num momento em que a responsabilidade do jornalismo deveria ser esclarecer, houve quem preferisse amplificar suspeitas antes de confirmar factos elementares. Quando a narrativa passa a valer mais do que a verificação, o debate público degrada-se e a confiança no jornalismo enfraquece.

Não escrevo estas linhas porque espero convencer quem já decidiu que qualquer pessoa que visite Israel é automaticamente cúmplice de todas as decisões do Governo israelita. Escrevo porque acredito que uma democracia saudável depende da capacidade de discutir temas difíceis sem transformar o outro num inimigo moral.

Regressei desta viagem com muitas respostas, mas também com muitas dúvidas. O conflito continua a ser complexo e seria intelectualmente desonesto fingir o contrário. No entanto, trouxe comigo uma certeza. A maior lição desta viagem talvez não tenha sido sobre Israel. Foi sobre Portugal.

Percebi que, para demasiadas pessoas, o verdadeiro problema nunca foi uma delegação de influenciadores visitar Israel. O verdadeiro problema foi alguém recusar contentar-se com slogans e decidir olhar para a realidade com os próprios olhos.

E enquanto isso continuar a ser suficiente para justificar campanhas de difamação, ameaças e desumanização, talvez devêssemos preocupar-nos menos com quem viaja até ao Médio Oriente e mais com a forma como estamos a empobrecer o debate público dentro das nossas próprias fronteiras.

Porque uma democracia não se mede apenas pela liberdade de falar. Mede-se também pela capacidade de ouvir quem viu uma realidade diferente da nossa sem sentir necessidade de o silenciar.