Principal autoridade de saúde pública e celebridade omnipresente na comunicação social dos Estados Unidos da América (e não só) durante a pandemia de Covid-19, Anthony Fauci refletiu as diferentes facetas do seu estatuto no diário agora publicamente revelado e que expõe também de forma mais íntima a relação problemática com o Presidente norte-americano, Donald Trump.
“Conferência de imprensa muito cansativa, em que o Presidente dos EUA divagou sem parar. Ele desperdiçou a oportunidade de se concentrar apenas no pacote de ajuda e lançou-se numa diatribe contra as administrações anteriores”, escreveu Fauci, em 27 de março de 2020, na fase de escalada inicial dos casos de infeção por coronavírus.
Não seria caso isolado nas entradas sobre o líder da Casa Branca, como cita o Washington Post. Outro exemplo, agora a 15 de julho, quando os EUA batiam recordes de infeção: “Começou então a falar comigo sobre o quão más — ou não — estavam as coisas. Queria que eu fosse ‘positivo’. Aproveitei a oportunidade para dizer: ‘Senhor Presidente, com a sua permissão, posso ser absolutamente franco consigo? Temos um problema e temos de o assumir. Temos de admitir que a situação é grave, caso contrário, perderemos completamente a credibilidade’. (…) Ele não ficou totalmente satisfeito com isto, mas disse que compreendia o que eu estava a dizer. Foi uma conversa muito boa”.
As entradas de Fauci no seu diário são o espelho de uma montanha-russa de emoções do infecciologista e colaborador de diversas administrações norte-americanas nas décadas anteriores. Se na primeira entrada sobre Trump escreveu os elogios que o Presidente lhe fez sobre como era “mesmo um tipo famoso” e que ficou “surpreendido e muito satisfeito” com as questões colocadas por Trump, já a 8 de agosto de 2020 descrevia como o republicano estava a “agir de forma ainda mais errática”.
“Continua a insistir que o aumento do número de casos se deve apenas ao aumento dos testes, ignorando os aumentos na percentagem de resultados positivos, nas hospitalizações e nas mortes (>1000/dia)”, frisou, sem deixar também de desdramatizar no seu diário algum do antagonismo que a certa altura era colocado na comunicação social americana entre ele e Donald Trump.
As preocupações de Trump com Biden e a “loucura” nos EUA
Apesar de não procurar entrar em conflito com o Presidente, Anthony Fauci anotou a constante preocupação de Donald Trump com a perceção pública da sua imagem na pandemia e o desdém por aquele que viria a ser o seu rival nas eleições presidenciais de 2020: Joe Biden.
No dia 1 de novembro, a escassos dias da eleição, Trump ligou a Fauci desde o Air Force One e não poupou nas palavras. “Tony, gosto mesmo de ti, e tu sabes disso, mas que raio estás a fazer? Estás constantemente a lançar bombas sobre mim. Toda a gente quer que eu te despeça, mas não vou despedir-te. Tens uma carreira demasiado ilustre, mas tens de ser positivo”, referiu.
https://twitter.com/washingtonpost/status/2082398254113644767
E Trump prosseguiu então para o ataque ao então candidato do Partido Democrata, que viria a derrotá-lo nas eleições de 2020: “E aquele c… do Biden. Ele é tão estúpido. És dez vezes mais inteligente do que ele. Vou dar-lhe uma coça nesta eleição. Vou ganhar por uma maioria esmagadora. É só esperar para ver. (…) Tony, tens de ser positivo. Não quero manter-te fora da televisão, mas quando estiveres lá, tens de ser positivo”.
Depois de Biden sair vencedor do sufrágio e de Donald Trump contestar os resultados, com alegações de fraude eleitoral massiva — que mantém até hoje sem ter apresentado provas —, o principal rosto do combate à pandemia nos EUA expressou a sua preocupação pela difusão da negação dos resultados eleitorais.
“O Presidente dos EUA continua a insistir que o Partido Republicano ganhou as eleições. É um universo completamente paralelo. Os senadores republicanos (Graham, McConnell, Ted Cruz) estão todos a vender-se ao apoiar as alegações infundadas do Presidente dos EUA. Estamos a caminhar para uma crise constitucional”, escreveu no dia 10 de novembro.
O tom de alarme continuou na semana seguinte [16 de novembro, quando Biden ainda não tinha tomado posse] com o mesmo tema: “Aumento contínuo: 138.000 novas infeções ontem. O POTUS [Presidente dos Estados Unidos da América] não tem qualquer interesse na pandemia. Está concentrado em impedir que Biden se torne POTUS. Está a envergonhar os EUA. No entanto, 72.000.000 votaram nele. É difícil de compreender. A loucura tomou conta de parte do nosso país“.
Fama, estrelas de Hollywood e a audição no Capitólio
Com mais de 1.100 páginas e entradas escritas entre 2019 e 2022 a um ritmo praticamente diário, onde detalha, por exemplo, os seus encontros e as suas interações com estrelas de Hollywood — como Julia Roberts, Barbra Streisand ou Leonardo DiCaprio —, o cientista (então com 79 anos) não esconde também algum fascínio pela fama quase planetária adquirida de um dia para o outro.
Um desses exemplos surge no diário após receber o Prémio Leonardo Da Vinci, da Fundação Nacional Ítalo-Americana. “Houve uma série maravilhosa de homenagens dirigidas a mim por parte de um grupo incrível de pessoas: Robert De Niro, Al Pacino, Leonardo DiCaprio, Francis Ford Coppola…”, revela Fauci, citado pelo New York Times.
https://twitter.com/SenRandPaul/status/2082403562538111276
No diário conta também como Julia Roberts lhe mandou flores ou como Barbra Streisand lhe ligou para perguntar qual das vacinas contra a Covid seria melhor tomar — Pfizer ou Moderna —, além dos inúmeros prémios e distinções com os quais foi agraciado naquele período pela liderança na resposta à pandemia nos EUA.
A revelação pública do diário de Anthony Fauci ocorre no âmbito de uma investigação às origens da Covid-19, a decorrer na Comissão de Segurança Interna e Assuntos Governamentais do Senado e liderada pelo republicano Rand Paul, senador no Kentucky.
Rand Paul, descrito como um conhecido antagonista do epidemiologista de 85 anos (tal como o secretário da Saúde, Robert F. Kennedy Jr.) intimou Fauci para testemunhar no Capitólio esta quarta-feira.
[Os serviços secretos portugueses enfrentam uma crise de segurança sem precedentes: existe uma toupeira infiltrada no SIS. A suspeita é de que esteja a vender segredos da NATO à Rússia de Putin. E a confirmação final vai ser feita pelas secretas norte-americanas: a CIA traz o nome de um dos espiões mais antigos do serviço. Já estreou “A Vida Dupla do Espião Traidor”, o novo Podcast Plus do Observador. Pode ouvir o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]