O Avante, jornal do PCP, noticiou o discurso em que o Presidente da Nicarágua anunciou o fim das eleições, mas sem referir essa declaração, destacando antes os alertas de Daniel Ortega sobre quem atua “contra os interesses” do país.
Na edição de 23 de julho, o jornal escreveu na secção Internacional uma notícia, não assinada, sobre a intervenção de Ortega, chefe de Estado nicaraguense, nas comemorações do 47.º aniversário da Revolução Popular Sandinista, em Manágua, celebrado no dia 19 de julho, com o título “Aniversário da Revolução Popular Sandinista: “não se pode confiar no imperialismo, nem um pouco, de todo”, uma citação de Che Guevara utilizada pelo Presidente da Nicarágua.
O Avante, órgão central do Partido Comunista Português, situa o discurso no dia 20, embora, de acordo com a imprensa internacional, a cerimónia oficial tenha ocorrido no dia 19 de julho, data de aniversário da revolução de 1979.
Não existem indícios de que se tratem de discursos diferentes, uma vez que as citações reproduzidas pelo jornal constam da versão integral da mesma intervenção em que foi anunciado que o país não voltará a ter eleições.
Algumas dessas citações escolhidas pelo Avante dizem respeito às referências de Ortega a Cuba e à Venezuela, à evocação de Augusto César Sandino, revolucionário nicaraguense que liderou a rebelião contra a presença militar dos Estados Unidos no país, e ao aviso atribuído a Che Guevara que deu título à notícia.
De fora da notícia ficou a seguinte afirmação de Ortega amplamente difundida a nível internacional: “Aqui [na Nicarágua] não haverá mais eleições para que eles [a oposição] tentem, por essa via, tomar o Governo, tomar o poder”.
Nessa mesma intervenção, o chefe de Estado anunciou que irá trabalhar com o Parlamento, subordinado à Presidência, “e com as organizações competentes nas leis para que se erga uma barreira, um bloqueio, contra os golpistas e os traidores da pátria, e que, por mais dinheiro que os ianques [Estados Unidos] lhes deem, não o consigam fazer”.
Em contrapartida, o Avante escreveu que Ortega “afirmou que as potências hegemónicas procuram dominar os povos para apoderar-se das suas riquezas”, “evocou as lutas históricas da Nicarágua contra as intervenções estrangeiras”, “alertou para a existência de setores que considera atuarem contra os interesses nacionais” e expressou a sua solidariedade com a Venezuela e Cuba perante a “agressão dos Estados Unidos da América”.
Após o anúncio de Daniel Ortega sobre o fim das eleições na Nicarágua, o alto-comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Turk, já acusou as autoridades nicaraguenses de “reprimirem as liberdades civis e políticas do país” com ameaças que incluem a eliminação do processo eleitoral.
O Governo brasileiro afirmou que “recebeu com preocupação” essa declaração, enquanto os Estados Unidos acusaram o Presidente da Nicarágua de revelar a sua “verdadeira natureza autoritária”.
Daniel Ortega, antigo guerrilheiro sandinista de 80 anos, governa a Nicarágua desde 2007 e tem sido alvo de acusações de fraude eleitoral, repressão da oposição e eliminação de adversários políticos.
Desde 2017, partilha o poder com a mulher, Rosario Murillo, que foi nomeada copresidente em fevereiro de 2025, após uma reforma constitucional que reforçou os seus poderes e consolidou o controlo do casal sobre as instituições do Estado.