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(A) :: Christine, o Carro Assassino — Ligação Berlim

Christine, o Carro Assassino — Ligação Berlim

É já dos anos 80 a história de Stephen King sobre um carro com personalidade demoníaca, mas o filme continua em exibição nas cidades europeias, como sucedeu no passado sábado na capital da Alemanha.

Tiago Dores
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É inevitável, quando os níveis de bazófia estão um pouco mais baixos, ter dúvidas acerca da pertinência dos conteúdos que uma pessoa publica. É por isso difícil subestimar o alento que me invadiu quando, por mero acaso, me cruzei com esta publicação de João Maria Jonet no X:

“Hoje estive a falar com o Paulo Baldaia sobre a paixão que os jornalistas têm por Donald Trump e já agora Elon Musk. Um caso de estudo em relações abusivas. Link em baixo, por causa do supramencionado.”

(Sendo que aqui dispensarei o respectivo link, pois só vos desejo o melhor). Ah! Que bálsamo. Era mesmo disto que eu precisava. Agora que a fasquia da coerência está mais baixa do que a do salto em altura no concurso dos Jogos Paralímpicos para atletas em cadeira de rodas, posso avançar para a minha crónica com confiança.

Talvez, desde logo, com “a paixão que os jornalistas têm por Donald Trump e já agora Elon Musk”, que ficou tão bem demonstrada, por exemplo, na entrevista recente da NBC ao Presidente dos EUA ou, ainda mais recentemente, na entrevista da The Economist a Elon Musk. Detecto, realmente, o tal “abuso” mencionado por Jonet em ambas as circunstâncias: o costumeiro abuso dos órgãos de comunicação social tradicionais na demonstração do mais profundo desprezo por estes dois indivíduos, hoje em dia tão surpreendente como uma má exibição do Benfica.

Desprezo que quase só encontra paralelo no demonstrado pela clareza e objectividade quando se trata de noticiar os já clássicos casos de carros que matam pessoas ao lançarem-se sobre multidões incautas nas ruas. Atenção: não digo que seja impossível um veículo, de perfeita consciência, cometer tais atrocidades. Aliás, nos anos 80, fez furor a história de Stephen King sobre um carro com personalidade demoníaca, de seu nome, Christine, o Carro Assassino.

Sinceramente, não cheguei a perceber qual era o problema da Christine. Se estava aborrecida por não lhe mudarem o óleo há 30 mil quilómetros, se simplesmente se esqueceram de lhe pôr os filtros, ou se seria um problema de pastilhas. Uma coisa é certa: algo na vida da Christine lhe deu cabo da árvore de cames à cabeça.

A verdade é que, mais de 40 anos passados, continuam a fazer furor, por essas metrópoles europeias fora, versões da película de John Carpenter, em que, agora, Christine, o Carro Assassino, ganha a forma de Abdul, o Assassino num Carro — no caso de Berlim, no último sábado — e mais uma data de sequelas com Muhammads, Abdullahs e Husseins.

O que até pode ter uma explicação simples. Não comecem já com as vossas islamofobias. Porque se fala muito de choque civilizacional entre o ocidente e o islão, mas a verdade é que ninguém se deu ao trabalho de ir ver se na base destes choques de carros com peões envolvendo condutores muçulmanos não está, por exemplo, o facto de o Stevie Wonder ter um negócio de escolas de condução espalhadas por vários países islâmicos. Onde é que andam os jornalistas de investigação quando precisamos deles? Provavelmente a adorar o Trump e o Musk.

Ou a investigar o ministro da Administração Interna, Luís Neves. Que agora, ao que parece, terá alegadamente andado por aí com um potente carro de uma arguida num processo. Mas não atropelou ninguém, calma. A ter havido atropelo, poderá ter sido apenas (ainda que mais uma vez?) o da lei.

Verdadeira ou não, ainda mais caricata do que esta nova história em torno do antigo director nacional da Polícia Judiciária é a surpresa daqueles que esperavam uma intervenção do Presidente da República sobre este assunto. Sim, sim, o burocrata socialista Seguro vai mesmo contribuir para resolver questões envolvendo o ministro do governo social-democrata pelo qual o PS tem uma paixão maior do que a dos jornalistas por Donald Trump e já agora Elon Musk.

Meus caros, o trabalho de um burocrata é garantir que o trabalho nunca está acabado. Caso contrário, o burocrata fica sem trabalho. O trabalho de um burocrata é como se eu, para “forçar” o Observador a manter esta minha colaboração semanal, nunca realmente acabasse nenhuma destas…