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“Homem-Aranha: Um Novo Dia”: um super-herói cada vez mais enredado na teia calculista de Hollywood

Realizado por Destin Daniel Cretton, o novo título não traz nada de novo ou de original à série de filmes sobre o super-herói criado nos anos 60. Eurico de Barros dá-lhe uma estrela.

Eurico de Barros
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Até o espectador com melhor memória se sentirá, perante Homem-Aranha: Um Novo Dia, de Destin Daniel Cretton, como MJ (Zendaya) e Ned Leeds (Jacob Batalon) se sentem neste filme, após os acontecimentos do título anterior da série, Homem-Aranha: Sem Volta a Casa (2021), em que, a pedido expresso do próprio super-herói, um feitiço lançado pelo Dr. Estranho apagou a memória de toda a gente quanto à identidade secreta do Homem-Aranha, Peter Parker (Tom Holland). Isto é, sem a menor recordação do que aconteceu naquela fita estreada há seis anos.

Este é um dos muitos problemas do cada vez mais sobre-explorado e fatigado Universo Cinematográfico Marvel (UCM), em que os filmes passaram a ser como que enormes episódios de séries infindáveis, separados por vários anos e espalhando-se por várias dimensões paralelas ou sobrepostas (que se estendem também à televisão e às plataformas de streaming, e já abrangem igualmente a animação), e precisamos de ir refrescar a memória antes de vermos o mais recente.

[Veja o “trailer” de “Homem-Aranha: Um Novo Dia”:]

https://www.youtube.com/watch?v=P3uI5sLosKU

Temos assim que, nesta fita de “recomeço”, Peter Parker sacrificou o seu romance com MJ e a amizade com Ned Leeds para os proteger. E como está sozinho e sem amigos nem vida social, transformou-se num super-herói workaholic. De tal forma, que o cansaço e o stress o estão a afetar não apenas física, emocional e psicologicamente, como também ao nível metabólico e hormonal, perturbando-lhe os superpoderes. Mas entre o combate intensivo ao crime e o suspirar por MJ e pelo amor perdido, ele vai ter ainda que enfrentar uma nova e inédita ameaça a Nova Iorque: um vilão invisível com poderes telepáticos, que pode saltar de pessoa para pessoa e controlá-la a seu bel-prazer.

[Veja uma entrevista com Tom Holland, Zendaya e Jacob Batalon:]

https://www.youtube.com/watch?v=A7AiP5_4MF4

Qualquer esperança de que mais este filme da prolífera e dispersa megafranquia em que se tornou Homem-Aranha apresentasse alguma novidade e originalidade é rapidamente gorada, no entanto. Do alto das suas quase duas horas e meia de duração e de um orçamento que terá andado entre os 275 e os 300 milhões de dólares, Homem-Aranha: Um Novo Dia preenche diligente e previsivelmente todos os quadradinhos do formulário de fabrico das produções do UCM, e tanto faz estar lá na ficha técnica o nome de Destin Daniel Cretton como o de um outro realizador qualquer. A coisa até podia ter sido feita por IA.

[Veja uma entrevista com Jon Bernthal:]

https://www.youtube.com/watch?v=LajnhcIwWRw

O filme é parte drama raso sobre Peter Parker, o dilema íntimo sobre a sua identidade (super-herói ou rapaz normal?) e o seu desgosto por ter perdido MJ, aquele com um travo à wellness na moda, vertente “o importante é sentirmo-nos bem connosco próprios”; parte buddy movie, pela presença ativa de Frank Castle/Punisher (Jon Bernthal) ao lado do super-herói; e parte espetáculo fatigante e mastodôntico, espalhafatoso e ribombante, alimentado a efeitos digitais (e maus, no que toca ao Hulk de Mark Ruffalo), em que uma vilã, pelos seus poderes, parece mais pertencer a um livro de Stephen King do que a uma fita de super-heróis (veio-me logo à cabeça O Poder do Fogo e o respetivo filme de 1984 com Drew Barrymore). E não falta um final a remeter para a próxima fita da franquia.

Homem-Aranha: Um Novo Dia enreda ainda mais o super-herói criado em 1962 por Steve Ditko e Stan Lee, numa teia esquemática, confusa e constrangedora, tecida por uma Hollywood em decadência criativa e perda de identidade acelerada, e vergada à tirania grosseira do universo dos super-heróis. E que tem cada vez menos a ver com espetáculo e entretenimento, e mais com monetização voraz e gestão de marca calculista.