Estão acessíveis a consulta pública no site da Polícia Judiciária os meandros da Operação Pacoba. Pode ler-se: “… uma vasta operação policial de combate ao tráfico de estupefacientes em larga escala, que resultou na detenção de sete homens, na apreensão de cerca de 1.500 kg de cocaína e no desmantelamento do maior laboratório industrial de extração, transformação e empacotamento de cocaína detetado em Portugal e um dos maiores a nível europeu. No âmbito da investigação, foi ainda desmantelado um grupo criminoso altamente organizado que se dedicava à introdução de grandes quantidades de cocaína no continente europeu”.
Apesar da envergadura, seria – tudo apontava – mais uma ação operacional da instituição. Todavia, o desenrolar dos acontecimentos nos últimos dias provocou uma onda de reações políticas e jornalísticas. Então não é que um atrelado (galera) apreendido na dita operação foi parar às instalações da empresa de João Santos Carvalho, Construbarcelos, um amigo de Luís Neves, atual MAI e Diretor da PJ em 2024, ano da Pacoba, empresário e empresa adjudicados sucessivamente, entre 2020 e 2025, em contratos públicos, recebendo cerca de 1,9 milhões de euros? Acrescente-se que, alegadamente, esse construtor foi responsável por obras – não documentadas – numa habitação do ex-diretor.
À data, tudo isto é conhecimento público e publicado. Entre silêncios camuflados do PS e afirmações destemperadas do Chega, os partidos do governo lá vão tentando lidar com a situação. Claro que este insólito imbróglio ocorre quando o ministério de Fernando Alexandre está debaixo de fogo devido aos exames nacionais. A adensar a trama, sobre o Ministro das Infraestruturas e Habitação, Miguel Pinto Luz, começa a pesar uma suspeita relativamente a um hotel no tempo em que era vice em Cascais.
O Governo está numa catadupa! Está em dissolução rápida! A vozearia parece estar para durar. A caminho de eleições?, já se questionam os portugueses. A suspeição paira no ar e o arco do governo treme perante as insinuações mais ou menos veladas. Procuram-se – mortos ou vivos?! – os responsáveis. Num país demasiado habituado a ver os cabecilhas escaparem – não penso em ninguém em particular –, a dúvida coloca-se quase ao nível existencial. Ainda somos, afinal, do tempo do nacional-porreirismo.
O meu exercício, chamemos-lhe literário-crítico, consiste numa conjetura que para muitos não passará de fantasiosa, mas para outros consistirá – no mínimo – um remédio momentâneo para aparar as dores (psicossomáticas?). A minha solução: devemos procurar um rei do crime, um Kingpin à medida da Marvel, um chefe mafioso que tudo domina sem escrúpulos. Este homem – desculpem o sexismo, mas estou a pensar em termos de tradição e de marketing – é um polvo que domina totalmente o aparelho das malfeitorias cometidas em território nacional. Ministros e ex-ministros tremidos, o pequeno larápio e o alto magistrado, o ávido empresário, o vil comentador e o subornável árbitro de futebol, seriam simples joguetes e agentes de caos às suas ordens.
Senão, reparem: para quê ficarmos por simples casinhos, quedarmos pela rama, satisfazermo-nos com pequenos mistérios e perpetradores demasiado humanos, quando a alma é feita para o alto? Pensemos no Dono disto Tudo, alguém enigmático e obscuro, que se fica pela sombra manobrando os simples de espírito. O país merece mais – Portugal Great Again! Pensemos em grande.
Um país habituado a desconfiar de tudo e de todos já não se satisfaz com culpados comuns. Precisa de um génio do mal. Um Wilson Grant Fisk luso. Um homem suficientemente monstruoso para tapar todas as nossas desilusões.