Duckdive. Como no surf. Luís Neves e Luís Montenegro decidiram esperar que as maiores ondas passassem para, só depois, prestar os prometidos esclarecimentos ao país. A estratégia tem reconhecidos riscos — têm sido dias de enorme desgaste e a pressão política está a aumentar —, mas, para o primeiro-ministro, conhecido e elogiado internamente pela “paciência de Job” com que lida com os humores da comunicação social, é a única forma de sair vivo desta confusão e preservar a cabeça do seu terceiro ministro da Administração Interna. A ideia é esperar que as notícias se esgotem ou se tornem repetitivas e, então sim, pôr Neves a falar.
De resto, esta terça-feira, e quebrando o silêncio a que estava remetido, Luís Montenegro não só prometeu que tal deve acontecer nos “próximos dias”, como disse estar “muito confiante” (“confiantíssimo”) nas explicações que Luís Neves dará publicamente. E Montenegro não arriscaria o pescoço se não estivesse confortável com a versão dos factos que será apresentada por Neves. No Governo, acredita-se que o ministro da Administração Interna conseguirá reduzir o caso do atrelado e todas as muitas dúvidas que ainda subsistem a uma ideia: o único pecado que existiu, se é que existiu algum, foi o da informalidade.
A tese não andará muito longe disto: Neves habituou-se a ser, na expressão inglesa, um “doer”, um fazedor, alguém que resolve os problemas com um telefonema, e foi isso que fez, neste e noutros casos, atropelando algumas regras pelo caminho, é certo, mas sempre movido pela melhor das intenções. O ex-diretor da PJ haverá de reconhecer que não fez tudo bem (como já o fez na história sobre as obras do amigo empreiteiro no monte alentejano), mas sempre garantindo que fez o que fez para resolver um problema. E, aposta-se, tal será suficiente para convencer a opinião pública do absurdo que seria sacrificar um ministro por um assunto de lana caprina.
Nem de propósito, existe quem, no Governo, recupere os elogios públicos de Miguel Pinto Luz ao seu colega de Governo e os contextualize para reforçar este mito do fazedor que envolve o ex-diretor da PJ: apesar de ter sido recebido como se fosse uma elegia à morte política de Neves (“Ao meu colega de Governo, Luís Neves, o meu sincero obrigado”), o ministro das Infraestruturas quis mesmo sublinhar a capacidade operacional do ministro na redução das esperas no aeroporto de Lisboa — “Ele esteve mesmo no aeroporto a dar instruções aos polícias. Foi lá. É assim que ele está habituado a resolver as coisas. Infelizmente, em Portugal, quem tenta resolver enfrenta muitas vezes este tipo de problemas…”, desabafa fonte do Governo.
Aliás, a primeira grande peça do puzzle que Neves esteve a montar nos últimos dias já foi apresentada: de acordo com a CNN Portugal, terá sido Álvaro Pires, diretor financeiro e do património da PJ, com competência para a gestão dos bens apreendidos, a tomar a iniciativa de entregar de forma provisória a guarda do atrelado ao empreiteiro João Carvalho, com o único propósito de resolver o diferendo com a Marinha e, pelo caminho, poupar dinheiro ao Estado. Neves deu ‘apenas’ o aval. Sem mais. A confirmar-se, o caso mudará seguramente de figura e será aproveitado pelo Governo para atirar à credibilidade de todos os que atentaram contra Neves.
Acontece que o ministro da Administração Interna precisa que exista disponibilidade para dar esta e outras explicações — e enquanto os jornalistas estão concentrados em descobrir mais informações, produzindo sucessivas vagas de novos embaraços, Neves não conseguirá matar mediaticamente, como espera conseguir, o assunto. Além disso, e tal como aconteceu depois das três entrevistas consecutivas que deu num primeiro momento, falar cedo demais tem um enorme risco: explicações insuficientes e contraditórias geram mais dúvidas, dúvidas geram mais perguntas, perguntas geram mais notícias. Luís Neves quer falar apenas e só quando todos os dados estiverem em cima da mesa.
No Governo, concede-se que esta não é a estratégia de comunicação perfeita, mas é, neste momento, a estratégia possível. Num primeiro momento, Luís Neves decidiu desvalorizar um caso que começou com uma inconfidência do amigo empreiteiro porque nunca pensou que ganharia esta proporção. A seguir, quando decidiu dar aquelas três entrevistas consecutivas, não teve o cuidado de envolver as pessoas que pensam a comunicação do Governo e correu em pista própria. Resultado prático: o ministro, que tinha garantido a Luís Montenegro que seria capaz de esvaziar o caso, meteu água. “Quem vem de fora da política, acha que isto tudo é muito fácil e que basta ir à televisão dizer umas coisas. Não é. Como se viu”, ironiza um elemento do Governo. Agora, resta aguentar o embate e procurar sobreviver com a graciosidade e autoridade possíveis.
Foi isso que, de alguma forma, sugeriu Hugo Soares, líder parlamentar e número dois de facto do PSD. No programa “Princípio da Incerteza”, da CNN Portugal, o braço direito de Luís Montenegro alegou que o “tempo mediático não é o mesmo que o tempo político” e argumentou que “a velocidade a que vão saindo notícias” impede que alguém que “queira explicar de A a Z uma determinada situação o faça com eficácia e nas melhores condições”. Numa ideia: mais vale ser grelhado durante um par de semanas e depois sair por cima, do que andar sempre a correr atrás do prejuízo.
Ultrapassado o calvário, e a menos que algo de muito radical venha a acontecer, o lugar de Neves não está, sabe o Observador, em risco. “Não podemos perder um bom ministro”, diz um destacado responsável. A expectativa que existe é de que, feitos os esclarecimentos que se exigem, vai continuar a existir ruído mediático, sim, mas a pressão da opinião pública vai diminuir — e já ninguém ligará muito às faturas das obras, aos hectares do monte e ao tanque-piscina do ministro. É essa, no fundo, a grande lição que o Governo retirou da crise da Spinumviva: a verdadeira influência da bolha político-mediática é hoje muito menor do que políticos, jornalistas e comentadores julgam ser. É preciso sangue frio — e Luís Montenegro tem-no de sobra.
Além disso, e seguindo mais uma vez as lições da Spinumviva, os homens do primeiro-ministro vão apostando num outro efeito: a multiplicação de espaços noticiosos e de comentário sobre os grandes e pequenos pormenores do caso que envolve Neves provoca cansaço e, em último caso, indiferença — ou até alguma empatia para com o alvo de todos os ‘ataques’. “Até a casa já filmaram com drones. Mas algum português acha isto normal? Ultrapassaram-se todas as linhas. E já tinham feito o mesmo com a casa do primeiro-ministro”, insurge-se um elemento do Governo.
No Governo, ninguém esconde que o caso foi e é desgastante. Mas há de ser ultrapassado. A tentativa de vitimização, já ensaiada por Luís Neves (“Colocaram em causa a minha honra e a minha dignidade”, disse há dias), desempenhará também o seu papel. Assim o ministro da Administração Interna o saiba fazer. A partir do Governo, vai-se repetindo o mantra: a comunicação social vive desligada dos reais interesses dos portugueses e não consegue perceber a realidade. Nem de propósito, no mesmo “Princípio da Incerteza”, José Pacheco Pereira e Alexandra Leitão fizeram referências à Spinumviva. Hugo Soares, que resumiu tudo a “pequenos casos”, respondeu com a absolvição conseguida nas urnas.
Além da arte e do engenho de Neves para arrumar o assunto, o fator sorte também terá o seu peso nesta equação. Se o ministro da Administração Interna conseguir ter um verão relativamente tranquilo em matéria de incêndios, em contraste com tudo o que está a acontecer nas vizinhas Espanha e França, arrisca-se a receber o carimbo da competência — com ou sem máculas no currículo, é mais difícil pedir a cabeça de um ministro da Administração Interna que supera o teste do fogo. Ora, o contrário também é verdade: Neves está tão fragilizado que um tropeção nestes incêndios pode bastar. E não é risco único: ainda falta ouvir o que o Ministério Público tem para dizer — um ministro da Administração Interna que tutela as polícias a braços com a Justiça não seria politicamente brilhante.