A futura ponte rodoviária que vai ligar a Rússia à Coreia do Norte está perto de estar concluída. No entanto, uma investigação da organização ucraniana de direitos humanos Truth Hounds, partilhada com o The Guardian, levanta preocupações sobre a sua possível utilização como um “corredor militar logístico discreto”, numa altura em que Pyongyang tem ajudado Moscovo na guerra contra a Ucrânia.
“A investigação conclui que a travessia é melhor compreendida como infraestrutura estratégica: um corredor para a movimentação de tropas norte-coreanas, brigadas de construção e oficiais militares para a Rússia, e para a circulação de tecnologia e recursos russos na direção oposta”, afirma o The Guardian.
A ponte tem cerca de um quilómetro de extensão e sete metros de largura e liga a cidade russa de Kharsan, no extremo oriente do país, a Tumangang, na Coreia do Norte, atravessando o rio Tumen em paralelo com a ponte ferroviária da Amizade. Começou a ser construída em 2024, após a assinatura de um pacto de parceria estratégica assinado entre os dois países, que resultou no aumento da ajuda militar de Pyongyang a Moscovo, refere o Kyiv Post.
O lado norte-coreano foi concluído antes do prazo previsto, marcado para 19 de junho, mas não há data de conclusão para o lado russo. No entanto, estão a ser construídas infraestruturas de apoio em Kharsan, como um heliponto.
“Uma razão-chave por detrás da conclusão [da ponte] foi o facto de que é mais fácil de enganar o sistema de monitorização por satélite — um método de vigilância usado pelo Ocidente para entender as atividades da Rússia e da Coreia do Norte — ao usar estradas em vez de uma rede ferroviária“, explicou Nazar Myhun, líder de pesquisa de código aberto da organização ucraniana, ao mesmo jornal.
O ativista refere outros aspetos como a extensão da ponte, que dificulta a monitorização completa, o “carregamento e descarregamento” de mercadorias — mais lento através de comboios —, a flexibilização do abastecimento através de camiões — que pode acontecer em qualquer lado — e a dificuldade em identificar o material transportado.
“O tipo de vagão ferroviário visível numa imagem revela muito sobre a carga, e certas categorias de mercadorias são transportadas em vagões abertos, o que permite a sua identificação. Os camiões, por outro lado, têm quase sempre a mesma aparência nas imagens de satélite”, sublinha.
Tanto a Rússia como a Coreia do Norte apresentam o projeto como uma oportunidade para fomentar o comércio entre ambos os países, segundo o The Guardian e o Kyiv Post, mas a Truth Hounds garante que a justificação económica é “frágil”.
A ponte poderá ter custado mais de 100 milhões de dólares (87,8 milhões de euros), enquanto o comércio bilateral entre os dois países é de 34 milhões (29,8 milhões de euros). Além disso, o turismo russo para a Coreia do Norte é controlado: cerca de dez mil russos visitaram o país em 2025, sendo que a capital norte-coreana, Pyongyang, fica a mais de 500 quilómetros da ponte.
Desde, pelo menos, 2023 que a Coreia do Norte tem ajudado a Rússia na guerra contra a Ucrânia, através do envio de soldados e de armamento.
Estima-se que cerca de 15 mil soldados norte-coreanos tenham sido enviados para combater na Ucrânia, segundo o Instituto para o Estudo da Guerra, tendo dois mil deles sido mortos em combate, de acordo com a Coreia do Sul. A ajuda militar foi enviada originalmente em 2024 para combater as forças de Kiev em Kursk.
Entre meados de 2023 e março de 2026, foram identificados cerca de 30 mil contentores enviados para a Rússia, carregados de armas e de munições, referem os dados da organização independente Open Source Center. No sábado, Volodymyr Zelensky afirmou no X que a Coreia do Norte se preparava para enviar mais 30 mil soldados para combater na Ucrânia.