Em 1988 fiz os exames de Biologia, Matemática e Química para ingressar no Ensino Superior. . Quando saíram os resultados, obtive 17 valores em Biologia e 13 valores em Matemática e Química. Pedi a reapreciação do exame de Biologia, acreditando que esse pedido implicaria transparência e acesso ao que tinha sido feito. E foi o que aconteceu. Nao subiu a nota mas eu vi que tinha realizado.
No ensino superior público fui confrontada com uma afirmação que ainda hoje considero absurda: “Não pode ver o exame.” Disseram-me que esse direito simplesmente não existia. Durante cinco anos na Universidade do Porto foi-me negado o acesso aos testes, aos exames e às respetivas correções. Fui muitas vezes olhada de lado, como se pedir para ver o meu próprio trabalho fosse uma afronta à instituição. Não sei como é hoje, mas sei que durante anos a cultura académica foi construída para que o aluno não questionasse.
Mais tarde, na minha segunda licenciatura, no ensino superior privado, iniciada já nos anos 2000, encontrei uma realidade completamente diferente. Podia ver os testes, e compreender exatamente o que tinha sido avaliado. Quando um aluno ia ao exame, havia oral obrigatória, e era prática corrente pagar para ver o exame. Podemos discutir o modelo, mas pelo menos havia um direito assegurado: o aluno via o que tinha escrito. Nunca pedi reapreciação, mas ver os exames foi uma ferramenta essencial para me preparar para as orais obrigatórias ao longo de cinco anos. A transparência não era um favor: era parte do processo.
Este contraste revela algo mais profundo do que uma diferença entre instituições. Ao longo de toda a escolaridade, o aluno é habituado a um processo claro: o professor atribui uma cotação, apresenta critérios de correção, explica ponto por ponto e responde às dúvidas. Há diálogo, há escrutínio, há confronto saudável. O aluno sabe porque errou, onde errou e como pode melhorar. Mas quando chega o momento dos exames nacionais, esta cultura desaparece por completo. Subitamente, instala-se uma confiança automática, não porque exista confiança real, mas porque o sistema foi construído para que o aluno não questione. A confiança não é confiança: é ausência de participação.
É por isso que não me surpreende o aumento de 44% nos pedidos para ver provas. O que me surpreende é que esta percentagem seja tão baixa.
Eu questiono: Só 9 000 alunos pediram reapreciação? No ano passado foram 6.300 alunos.
Os restantes continuam a aceitar cegamente uma classificação que pode determinar o futuro académico dos filhos. Isto não revela confiança no sistema; revela desleixo, desconhecimento ou receio de confronto por parte dos encarregados de educação. Revela também uma cultura escolar profundamente enraizada: não se pede, não se vê, não se questiona. E, ao contrário do que muitos pensam, esta postura não nasce de confiança, nasce de uma certeza errada de que “o exame é para aceitar”.
O paradoxo é evidente: a escola ensina a escrutinar, mas os exames ensinam a calar. Durante anos, os alunos são educados numa lógica de transparência, mas no momento mais decisivo são empurrados para uma lógica de aceitação automática. Existe uma confiança cega em quem corrige os exames e uma desconfiança exponencial em quem ensina e aplica avaliação contínua. Isto não é natural; é cultural. E tem consequências sérias: reduz a literacia avaliativa dos alunos, impede que os encarregados de educação acompanhem o processo, perpetua a ideia de que o exame é uma entidade intocável e desresponsabiliza o sistema.
Os exames nacionais são instrumentos de seleção. E tudo o que seleciona deve ser questionado e escrutinado, não é desconfiança são processos de melhoria. A confiança só existe quando há transparência; a transparência só existe quando há participação; e a participação só existe quando alunos e encarregados de educação exercem o direito de ver provas, discutir critérios e compreender classificações. Enquanto a maioria continuar a aceitar resultados sem ver provas, o sistema continuará a funcionar sem o olhar crítico que o poderia tornar mais justo.
A escola ensina a questionar, os exames não podem continuar a promover o “ comer e calar”.