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As Famílias do Antigamente

Talvez baste, um domingo destes, desligar o telemóvel, pôr a mesa maior do que o costume, e deixar que a conversa dure mais do que a refeição.

Joana da Costa Taborda
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Houve um tempo em que a mesa era o centro do mundo.

Não era uma mesa qualquer, era a mesa de domingo. Era aquela que se estendia com a melhor toalha, guardada religiosamente para servir a família nos almoços de domingo, e que reunia avós, pais, tios, primos… Não havia convite formal. Sabia-se, simplesmente, que ao domingo se ia almoçar a casa da avó ou do avô, ou que era lá que todos apareciam. Era um momento sagrado e construído com amor, um costume que ninguém questionava, apenas apreciava.

As conversas eram longas e sem pressa. Discutia-se futebol e política à mesa, ria-se alto, contava-se a mesma história pela centésima vez e todos fingiam ouvi-la pela primeira vez. Os mais novos ouviam os mais velhos, aprendiam sem perceber que estavam a aprender. Não havia telemóveis a interromper, simplesmente porque não existiam, e por isso ninguém estava “presente fisicamente e ausente de coração”. Estava-se ali, por inteiro. A vida era vivida tão intensamente que era, só por si, adorável.

Então e as tardes de jogos, bicicletas e futebol de rua?

Essas esticavam-se até ao anoitecer, sem ninguém a olhar para um ecrã a contar o tempo.

Mau mesmo era quando a mãe gritava pelo nosso nome infinitas vezes para irmos tomar banho e jantar.

Mau mesmo era entrar em casa sujos e empoeirados, com os joelhos e os calções esfolados, e levar o raspanete do costume. Saudades desse tempo.

As memórias faziam-se ali, ao vivo, sem filtros, sem legendas, sem posts.

E é isso que hoje, algures pelo caminho, se perdeu. Trocámos os almoços de domingo por agendas incompatíveis. Trocámos as conversas longas por mensagens curtas, cheias de emojis sem significado. Trocámos guardar as memórias no coração por as guardar num feed que se desliza com o polegar e se esquece na semana seguinte. Já não se conta a história ao vivo, simplesmente publica-se a fotografia da história e espera-se pelos gostos.

Não é nostalgia vazia dizer isto. É reconhecer que alguma coisa se perdeu no meio do progresso: o tempo lento, a presença sem pressa, o gesto simples de estar à mesa só para estar, sem outro propósito que não fosse estarmos juntos!

Talvez não seja tarde para recuperar um bocadinho disso. Talvez baste, um domingo destes, desligar o telemóvel, pôr a mesa maior do que o costume, e deixar que a conversa dure mais do que a refeição.

As memórias que ficam são essas, as que doem ao escrever este texto, e as que, inexplicavelmente, fazem sentir saudades de um tempo que já não volta, mas que está sempre presente onde cada um de nós quiser que esteja.