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O problema não é o chico-esperto. É quando todos querem ser um

O problema do chico-esperto nunca foi apenas moral. É económico. É institucional. É político. É cultural.

Paulo Finuras
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Se já alguma vez chamou “chico-esperto” a alguém, talvez tenha feito mais pela sociedade do que imagina.

Porquê? Porque a expressão “chico-esperto” não descreve apenas um comportamento. Funciona também como um poderoso mecanismo de sanção social. E isso pode explicar muito sobre a forma como as sociedades conseguem – ou deixam de conseguir – cooperar.

Há poucas expressões tão portuguesas como “chico-esperto”.

A origem exata da expressão perdeu-se na história. Sabe-se apenas que “Chico”, diminutivo de Francisco, passou a representar um indivíduo qualquer, enquanto “esperto” é utilizado com evidente ironia. Mas o chico-esperto não é inteligente. É alguém que procura obter vantagens pessoais contornando regras, explorando lacunas do sistema ou fazendo recair sobre os outros os custos das suas escolhas.

Fura a fila. Estaciona onde não deve. Pede um favor para evitar um procedimento. Declara menos do que ganha. Conhece “alguém” que resolve. E, no final, sente um certo orgulho por ter “dado a volta ao sistema”.

A questão interessante não é que este comportamento exista. Esse comportamento existe em todas as sociedades. A verdadeira questão é outra: porque é que as sociedades criam uma expressão específica para condenar este comportamento? A resposta, curiosamente, encontra-se menos na linguística do que na biologia evolutiva.

O eterno problema dos oportunistas

A cooperação constitui uma das maiores invenções da evolução humana. Nenhuma outra espécie consegue cooperar de forma tão extensa com indivíduos que não pertencem ao seu círculo familiar.

Pagamos impostos porque esperamos que os outros também os paguem. Respeitamos filas porque esperamos que os restantes façam o mesmo. Cumprimos contratos porque confiamos que serão cumpridos do outro lado. Confiamos porque esperamos que os outros sejam merecedores dessa confiança.

Tudo isto depende de uma condição fundamental: a expectativa de reciprocidade.

Mas todos os sistemas cooperativos enfrentam o mesmo problema.

Se todos cooperarem e apenas um indivíduo não o fizer, esse indivíduo pode obter uma vantagem imediata. Beneficia dos bens públicos sem suportar os custos da cooperação. Na teoria dos jogos e na biologia evolutiva, estes indivíduos são conhecidos como free riders (oportunistas). Vivem à custa da cooperação dos outros. Se o seu número for reduzido, a sociedade consegue absorver o custo.

Se se multiplicarem, o sistema entra em colapso.

A inteligência das sociedades

Foi precisamente para evitar esse problema que as sociedades humanas desenvolveram mecanismos extraordinariamente sofisticados de controlo social.

A reputação.

A vergonha.

A censura.

O ridículo.

A exclusão.

Muito antes de existirem tribunais, havia reputação. Muito antes da polícia, existia a condenação social.

O ser humano evoluiu para valorizar profundamente aquilo que os outros pensam de si. Não é um acaso psicológico. É uma adaptação. Durante centenas de milhares de anos, perder reputação significava perder aliados, parceiros, proteção e oportunidades de reprodução.

É neste contexto que a expressão “chico-esperto” adquire um significado muito mais profundo.

A expressão “chico-esperto” não serve apenas para designar um comportamento. Funciona como uma sanção social: um instrumento cultural destinado a sinalizar que determinado comportamento viola as normas de cooperação.

Quando a sanção deixa de funcionar

O problema começa precisamente quando a expressão “chico-esperto” deixa de funcionar como uma sanção social.

Quando deixa de provocar vergonha.

Quando este comportamento passa a ser socialmente tolerado.

Quando se diz, com um sorriso, que alguém “sabe mexer-se”.

Quando cumprir as regras passa a ser sinónimo de ingenuidade.

Nesse momento ocorre uma inversão moral subtil, mas profundamente destrutiva.

A cooperação deixa de ser valorizada. O oportunismo passa a ser recompensado.

E a confiança começa lentamente a desaparecer.

Francis Fukuyama mostrou que a confiança constitui um dos recursos mais importantes das sociedades modernas. Quanto maior a confiança entre cidadãos, menores são os custos de transação, menos burocracia é necessária, mais eficiente se torna a economia e mais sólidas são as instituições.

O inverso também é verdadeiro.

Quanto maior o oportunismo, menor a confiança. Quanto menor a confiança, maior a necessidade de fiscalização, controlo, regulamentação e burocracia.

Acabamos todos por pagar a fatura do comportamento de alguns.

É esse o verdadeiro custo do chico-espertismo.

Por outras palavras, o problema do chico-esperto nunca foi apenas moral.

É económico. É institucional. É político. É cultural.

Cada pequena fraude aumenta a necessidade de controlo.

Cada exceção alimenta novas exceções.

Cada favor fragiliza um pouco mais a ideia de igualdade perante as regras.

É um ciclo cumulativo.

Quanto menos confiamos, mais regulamos.

Quanto mais regulamos, mais oportunidades surgem para contornar as regras.

E quanto mais isso acontece, menos confiança existe.

Uma expressão reveladora

Há, porém, um aspeto particularmente revelador.

O português criou uma expressão particularmente eficaz para ridicularizar este comportamento. Ao chamar alguém de “chico-esperto”, não estamos apenas a descrevê-lo. Estamos também a afirmar que o seu comportamento viola uma expectativa coletiva de reciprocidade e respeito pelas regras.

A própria existência da expressão mostra que o oportunismo não era visto como inteligência, mas como desvio à norma. O comportamento esperado era precisamente o oposto: cumprir regras, suportar a própria parte dos custos e não transferi-los para os outros.

Os chicos-espertos sempre existiram.

O problema começa quando deixam de ser vistos como chicos-espertos e passam simplesmente a ser vistos como espertos.

Uma sociedade consegue sobreviver a alguns oportunistas. O que dificilmente sobrevive é à normalização do oportunismo.

O chico-esperto pode ganhar uma vez. Mas uma sociedade cheia de chicos-espertos perde sempre.

A evolução deixou-nos uma das suas lições mais importantes: dentro dos grupos, o egoísmo pode vencer o altruísmo. Mas, entre grupos, as sociedades onde predominam a cooperação, a confiança e a reciprocidade acabam por superar aquelas onde o oportunismo se torna a norma.No fim, o problema nunca foi o chico-esperto.

O problema começa quando todos querem ser um.