Há uma pergunta que a Europa evita fazer a si mesma, porque a resposta é humilhante. Quando uma fábrica escolhe onde se instalar, quando um data center decide onde vai pensar, porque é que cada vez menos escolhem a Europa? A resposta cabe numa palavra, energia, e no preço a que ela custa deste lado do mundo.
Comecemos pelos números, que é onde começa a verdade. A electricidade para a indústria europeia custa, segundo o BusinessEurope e o próprio Relatório Draghi, duas a três vezes mais do que nos Estados Unidos e na China. Não é uma pequena desvantagem competitiva, é um abismo. Nos preços residenciais, a Europa é o continente mais caro do planeta, cerca de 0,254 dólares por kWh, contra 0,088 na Ásia. E não é conjuntura passageira, é estrutura. A própria União Europeia reconhece, em documento do seu Conselho de Outubro de 2025, que a crise energética tornou vulneráveis as indústrias que mais energia consomem.
Quando a energia custa o triplo, a fábrica não fecha por falta de procura. Muda de sítio.
A primeira fuga, a indústria de sempre
A Turquia, às portas da Europa, oferece custos de produção que a indústria europeia já não consegue praticar, e tornou-se destino natural de quem precisa de produzir mais barato sem se afastar demasiado do mercado europeu. Não é exílio, é uma mudança de rua para onde a conta da luz é suportável. A União percebeu o problema e a sua resposta diz tudo, em vez de baixar o preço da energia, aprovou orientações para que os Estados-membros compensem até 80% dos custos indirectos da electricidade às empresas mais expostas. Ou seja, o Estado encarece a energia com uma mão e devolve subsídio com a outra, e ao contribuinte cabe financiar as duas pontas da mesma contradição.
A segunda fuga, a indústria do futuro
Mas o exemplo mais revelador não vem da velha indústria pesada. Vem da mais nova de todas, a inteligência artificial, e vem de um sítio que quase ninguém em Portugal associa a alta tecnologia, o Paraguai.
O Paraguai tem um excedente colossal de energia limpa e barata, gerada pela barragem de Itaipu, que partilha com o Brasil. Durante décadas vendeu esse excedente ao vizinho a preço de saldo. Agora descobriu que pode fazer melhor, atrair para dentro de portas as indústrias que devoram energia. E as que mais energia devoram, neste momento, são os data centers de inteligência artificial. Em Março deste ano, o ministro paraguaio da Indústria foi a Silicon Valley reunir-se com a OpenAI, a Nvidia, a Crusoe e a Lambda. Uma única empresa assinou um entendimento para usar até quinhentos megawatts, o equivalente a uma turbina inteira de Itaipu, só para alimentar um complexo de inteligência artificial.
E aqui convém parar para traduzir este número numa imagem que se perceba. Quinhentos megawatts a funcionar sem parar, como funciona um data center, que nunca dorme, consomem ao longo de um ano perto de quatro mil e quatrocentos gigawatts-hora de electricidade. É tanta electricidade quanta consome a Área Metropolitana do Porto inteira. Não uma aldeia, não um bairro, uma metrópole com a sua população, o seu comércio e a sua indústria, entregue ao cérebro de silício de uma única companhia. E entregue no Paraguai, não na Europa, porque no Paraguai essa quantidade descomunal de energia é, ao mesmo tempo, limpa e barata.
O preço que atrai estes gigantes? A electricidade industrial no Paraguai chegou a custar cerca de 0,033 dólares por kWh. Compare-se com os 0,25 europeus e percebe-se tudo. E há aqui uma ironia que merece ser saboreada devagar, algumas empresas europeias já lá estão, uma delas investiu cerca de quarenta milhões de euros para operar no Paraguai. O capital europeu não espera pela Europa, procura a tomada mais barata, e essa fica do lado de cá do Atlântico.
Perder o passado e o futuro ao mesmo tempo
Detenhamo-nos no que isto significa, porque é mais profundo do que parece. A Europa está a perder duas corridas ao mesmo tempo. Perde a indústria do passado, o aço, a cerâmica, a química, que migra para onde a energia é acessível. E perde a indústria do futuro, os data centers que vão treinar a inteligência artificial que definirá as próximas décadas. Uma economia que afugenta ao mesmo tempo o seu passado produtivo e o seu futuro tecnológico não está a fazer uma transição, está a fazer as malas.
E o detalhe que fecha o argumento, aquele que devia calar de vez o discurso oficial. O Paraguai atrai estas empresas com energia cem por cento renovável, hídrica, mais limpa do que a média europeia. Ou seja, não estamos perante o velho dilema entre ambiente e economia, entre a fábrica suja e barata lá fora e a fábrica limpa e cara cá dentro. O Paraguai oferece as duas coisas, energia limpa e energia barata, e a Europa não oferece nenhuma. Chegámos ao ponto de perder investimento limpo para fora por sermos simultaneamente mais caros e não mais verdes no resultado.
A Europa gosta de se ver como o cérebro do mundo, o continente das ideias, da regulação inteligente, do pensamento sofisticado. Mas há uma humilhação silenciosa em curso, até as máquinas que foram construídas para pensar estão a escolher pensar noutro sítio. Não por falta de talento europeu, que existe e é grande, mas porque ligar um cérebro artificial à corrente, na Europa, custa três vezes mais do que devia.
No fim, o mercado é implacável e não ouve discursos. Ouve a factura da electricidade. E a factura, hoje, diz a quem quer produzir, inovar ou pensar em grande, que o faça longe da Europa. Construiu-se um continente tão preocupado em regular o futuro que se esqueceu de o tornar comportável. E agora vê-o partir, megawatt a megawatt, para onde a luz é mais barata.