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"Masters of the Universe": 40 anos depois, ainda há lugar para He-Man e o seu tigre tímido?

De linha de brinquedos passou a série de animação com várias vidas e uma versão "live-action" de má memória. Depois de falhar nos cinemas, a nova adaptação está na Prime Video. Será que surpreende?

Susana Romana
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Há desenhos animados da nossa infância que são um gelado perna de pau e outros que são gemada com açúcar amarelo. Os primeiros resistiram à passagem do tempo, nunca saíram de moda, avançaram na corrida de estafetas intergeracional.  E os segundos foram algo circunstancial de um tempo e espaço específico, que não transbordaram para as infâncias que se seguiram. Neste caso: já ninguém come ovo cru  com açúcar como nos anos 80 e já ninguém vê episódios do He-Man.

A série animada original He‑Man and the Masters of the Universe estreou-se mundialmente em setembro de 1983 e foi transmitida até 21 de novembro de 1985, resultando em duas temporadas, num total de 130 episódios. Já em Portugal, com o título He-Man e os Donos do Universo, passou na RTP entre 1986 e 1987, sendo transmitida na versão original em inglês com legendas em português. E se agora se fala tanto em desenhos animados criados para venderem merchandising, Masters Of The Universe nasceu em sentido contrário: o nome e conceito vieram da linha de brinquedos da Mattel lançada em 1982, antecedendo os episódios animados.

Ora sendo eu nascida em 1981, He-Man desempenha um papel importante no meu imaginário infantil, especialmente numa altura pré-streaming em que um cachopo via o que estava a dar e pronto, nem interessava se gostava muito. Vi inúmeros episódios (será que até vi mesmo todos?) e sonhei com receber um Castelo de Greyskull no Natal, fantasia nunca concretizada por não ser considerado, tristemente, um brinquedo para meninas. Não me lembro de um único plot de um episódio, apenas de adorar o Skeletor (comprei um já em idade adulta) e o tigre verde que tanto era tímido como virava bad ass.

https://www.youtube.com/watch?v=X21JsHLHnY8

A verdade é que He-Man nasceu nos anos 80 e morreu nos anos 80, ficando para sempre na gaveta da nostalgia. Quando me ofereci ao meu editor, qual sacrifício no altar do tempo perdido, para ver a versão que 2026 fez chegar ao cinema (e agora à Prime Video), tinha a ideia lírica de que o meu filho de quase 9 anos me acompanhasse nesta demanda. Levei a nega mais rápida da História. A única coisa que o marcou (traumatizou?) foi quando expliquei que era baseado nuns desenhos animados da minha infância que já não existiam, o que levou ao choque: “mas os desenhos animados podem parar de existir?!”. Podem, querido — pelo menos até alguém nos estúdios Amazon MGM achar que pode estar ali uma pipa de massa. Spoiler alert: não estava. O filme arrecadou aproximadamente 113,7 milhões de dólares em todo o mundo, face a um orçamento de produção estimado entre 170 e 200 milhões de dólares. Foi um flop, que só um fenómeno de culto no streaming poderá salvar.

Anunciado inicialmente em 2009, a segunda versão cinematográfica de He-Man (a primeira é de 1987 e só vale a pena se tiverem uma veia masoquista saliente) esteve ligada a vários nomes. O realizador acabou por ser Travis Knight, mais ligado ao mundo da animação. O elenco conta com Nicholas Galitzine (galã de Red, White And Royal Blue) como Príncipe Adam/He-Man, Camila Mendes (Riverdale) como Teela, Idris Elba (Luther) como Duncan/Man-At-Arms e Jared Leto (Dallas Buyers Club) como Skeletor. Tem ainda participações de Alison Brie (Community) como Evil-Lyn e Kristen Wiig (Bridesmaids) na voz de Roboto. A escolha de Leto foi alvo de algo escrutínio, já que o actor e vocalista dos 30 Seconds To Mars ganhou em Hollywood a reputação de “veneno de bilheteira” após uma série de fracassos comerciais de grande visibilidade. Todos seus mais recentes blockbusters de alto orçamento tiveram dificuldades significativas em gerar lucro: Suicide Squad (2016); Morbius (2022); Haunted Mansion (2023); Tron: Ares (2025); Masters of the Universe (2026). Mas aqui, justiça seja feita, a cara nem aparece e a voz está irreconhecível. Podia ser o José Raposo com uma máscara.

Antes de vos arrastar comigo para o que se passa ao longo de duas horas e 24 minutos (sim, o filme é desnecessariamente longo, maleita da qual sofrem a maioria dos filmes de ação/aventura da última década e meia), começo logo por morder a língua: Masters Of The Universe é melhor do que eu pensava. Mais: é melhor do que muita coisa que a Marvel tem regurgitado recentemente. Não é uma obra-prima, calma. Mas Masters Of The Universe sabe que nenhum de nós vai levar este filme a sério e goza com isso. A maior fraqueza do filme é mesmo não levar ainda mais longe esta autoparódia. Devia ter seguido um rumo mais parecido com o lavrado por Barbie, também ele uma adaptação de um brinquedo da mítica Mattel.

O filme começa com a voz off de Adam a descrever como era a Eternia da sua infância e como é que esta caiu nas mãos de Skeletor. A banda sonora implica solos estridentes de guitarra, o que me transporta logo para a banda sonora que os Queen fizeram nos anos 80 para Highlander. Pergunto, entre risinhos, “Brian May, és tu?” — e uma googlada para descargo de consciência mostra que sim, até é. Composta por Daniel Pemberton (o mesmo de Projecto Hail Mary ou Steve Jobs), a banda sonora exuberante e maximalista conta com o lendário guitarrista dos Queen no tema de destaque Eternia, e até o clássico Princes Of The Universe há de se ouvir lá mais para a frente. Aliás, o filme tem uma lista de itens que sabe que vão ressoar, consciente ou inconscientemente, com crianças dos anos 80 — e não tem pudor de ir metendo um certinho à frente de cada item. O meu filho, de facto, não iria gostar deste filme. Não foi feito para uma actual criança de 9 anos; foi feito para a criança de 9 anos que eu fui algures.

Acabamos por perceber que esta descrição de Eternia está a ser feita por Adam a uma rapariga com a qual está num encontro amoroso, como modo de responder à pergunta cliché “então, és de onde?”. Adam abandonou as origens com dez anos e há quinze que está na Terra, mais concretamente em Oklahoma. Aluga um quarto num apartamento que tem dificuldade em pagar, conduz um minúsculo carro amarelo de baixa cilindrada e trabalha em Recursos Humanos num escritório. Aqui não há subtilezas — este filme é para quem está tão aborrecido com a vida como ele. E se dúvidas houvesse da tal lista a apontar à nostalgia de quarentões, a cena seguinte envolve o tema Boys Don’t Cry dos The Cure e um cameo de Dolph Lundgren — sim, o Ivan Drago de Rocky IV e o He-Man da adaptação cinematográfica de 1987 destes Masters.

O objetivo de Adam é reencontrar a Espada do Poder (outro brinquedo mítico da minha infância), que veio com ele para a Terra, mas está em parte incerta. Só esta arma branca com propriedades mágicas pode levá-lo de volta a um trono que é dele por direito. E onde é que a encontra? Perdida numa loja de bandas desenhas e action figures, daquelas bem geeks.

O regresso de Adam a Eternia mostra-lhe uma civilização destruída, com a Guarda Real a viver clandestinamente. Há uma sucessão de piadas com insinuações sexuais (o filme é para maiores de 13) e até uma tentativa de usar técnicas de team building aprendidas na carreira em RH. Só à marca de uma hora e dois minutos é que Adam, efetivamente, se transforma em He-Man.

Masters Of The Universe demorou tantos anos do seu anúncio à sua concretização que, quando finalmente estreou, esbarrou de frente com a fadiga generalizada com filmes de super-heróis. A pachorra de pessoas adultas para filmes do género foi de tal modo levada ao limite que já quase só convence fãs acérrimos — algo que, mais de 40 anos depois, He-Man não tem. Masters Of The Universe molha os pés no lado mais galhofeiro de olhar para o património que tem em mãos, mas não resiste em também ter cenas de pancada longas e tiradas inspiradoras. Como o filme tenta agradar nos dois sentidos, querendo ser simultaneamente auto‑satírico e uma aventura de fantasia galvanizadora, acaba por ficar aquém em ambas as vertentes. Talvez dispensássemos a segunda parte, mas estivéssemos aqui para abraçar o culto da primeira.

O nome He-Man, aliás, só é dito em voz alta praticamente na última cena do filme e é muito gozado por ser, admitamos, um nome péssimo. É também aqui que surge, pela primeira vez, a música da nossa infância. Masters Of The Universe é, parece-me, feito com carinho, mas também com a pressão de um estúdio que não quis ter oficialmente uma comédia em mãos quando podia ir tentar roubar um naco que fosse aos lucros da Marvel.

Existe uma cena a meio dos créditos que faz tease sobre a inclusão futura da personagem She-Raa (a irmã de He-Man), assim como uma cena pós-créditos a dar a entender o regresso de Skeletor. Ambos a piscar o olho a uma sequela que, muito provavelmente nunca chegará. Masters Of The Universe é competentemente realizado, tem bons atores e uma banda sonora eficaz (há Killers, 4 Non Blondes, The Cure e Queen, além dos temas originais), assim como um guião que não envergonha e que faz boas piscadelas de olho aos fãs. Se é perfeito? Muito longe disso. Mas mil vezes este praticante de crossfit com um penteado de Beatriz Costa do que mais uma xaropada com o Robert Downey Jr. a ganhar dinheiro para a sua vigésima vivenda.