Há dois meses, poucos saberiam dizer o nome do guarda-redes da seleção de Cabo Verde que iria estrear-se no Campeonato do Mundo. Na verdade, poucos poderiam dizer o nome de um único jogador da seleção de Cabo Verde que iria estrear-se no Campeonato do Mundo. Agora, Sidny Lopes Cabral marcou o melhor golo do Mundial 2026, Kevin Pina marcou o primeiro golo dos cabo-verdianos na competição, Pico Lopes é o dono da história da mensagem no LinkedIn. E Vozinha, claro, é a figura maior de um país inteiro.
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Aos 40 anos, o guarda-redes tornou-se um verdadeiro ícone do Mundial-2026. Tudo começou com as sete defesas contra Espanha que agarraram o nulo do empate, mas tudo continuou com a mãe que não podia entrar nos EUA devido ao visto, os milhões de seguidores que surgiram no Instagram a cada minuto que passava, a história de uma alcunha escolhida a dedo para alguém que foi criado pelos avós – e um histórico e brutal apuramento para os 16 avos de final, onde os cabo-verdianos caíram com a eventual finalista Argentina depois de forçarem o prolongamento.
Ao longo dos 40 dias do Campeonato do Mundo, Vozinha foi de ilustre desconhecido, alguém que só foi profissional aos 25 anos e que estava sem clube depois de duas épocas no Desp. Chaves, a um herói de Cabo Verde que já assinou o maior contrato da carreira com um histórico do Chile. Pelo meio, deu nome a um molusco encontrado perto de Cuba, leiloou uma camisola por mais de 10 mil euros e foi ainda o protagonista de um anúncio ao novo filme do Homem-Aranha que estreou nos últimos dias.

Um Josimar que podia ter sido Valdano e acabou Vozinha – e que esteve perto de falhar o Mundial
É uma ideia que, atualmente, até parece surreal – mas que esteve mesmo muito perto de acontecer. Vozinha, na verdade, poderia perfeitamente não ter ido ao Campeonato do Mundo. Apesar de ter estado em quatro edições da CAN e de ser o segundo jogador mais internacional por Cabo Verde, apenas atrás do capitão Ryan Mendes, o guarda-redes perdeu espaço nos últimos anos e falhou mesmo todas as convocatórias para o apuramento para a última Taça das Nações Africanas, que decorreu no final de 2026 e onde os cabo-verdianos não estiveram após falharem a qualificação.
Já perto dos 40 anos, sem ser convocado e sem perspetivas de que voltasse a ser, chegou a contemplar o fim da carreira internacional. “Foi uma altura muito difícil. Estava a pensar em deixar a seleção nacional. Mas todos os meus colegas falaram comigo, encorajaram-me a ficar por causa do Campeonato do Mundo. E eu fiquei por isso, porque era o meu sonho, o sonho de todos nós”, contou recentemente.
E ainda bem que ficou – por ele e por Cabo Verde. Bruno Varela, o guarda-redes ex-Benfica e V. Guimarães que renunciou a Portugal para representar os cabo-verdianos, começou a demonstrar alguma irregularidade na sequência da ida para o Al Hazm da Arábia Saudita, levando Bubista a convocar Vozinha para praticamente todos os jogos da qualificação para o Mundial-2026. Era Vozinha, aliás, quem estava na baliza no dia histórico para o país, 13 de outubro de 2025, quando a vitória contra Essuatíni no Estádio Nacional da Praia garantiu o inédito apuramento para o Campeonato do Mundo.
Já em fevereiro, qualquer indefinição ficou resolvida. Bruno Varela lesionou-se gravemente no joelho, tendo mesmo sido submetido a uma cirurgia da qual ainda está a recuperar, e Vozinha soube automaticamente que seria o eleito para a baliza de Cabo Verde no Campeonato do Mundo. A 18 de maio, a menos de um mês do início da competição, Bubista anunciou a convocatória com 26 nomes – e Vozinha, assim como Márcio Rosa dos búlgaros do Montana e CJ dos Santos dos norte-americanos do San Diego FC, era um dos três guarda-redes cabo-verdianos chamados para o primeiro Mundial da história do país.
Apesar de levar uma alcunha nas costas, Vozinha sabia que carregava uma história que é o espelho de um arquipélago. Com pais naturais de Santo Antão, foi no Mindelo de São Vicente que nasceu e cresceu, sendo criado pelos avós entre o serviço militar do pai e os necessários vários trabalhos da mãe. Jogava futebol na rua como tantos outros e tem contado que se tornou Vozinha porque, assim que um resultado não agradava ou era vítima de uma entrada mais dura, corria a chorar para o colo da avó.
Isto porque o nome verdadeiro de quem vai passar à história com uma alcunha é Josimar José Évora Dias. O pai do guarda-redes, adepto fanático de futebol, quis chamar-lhe Valdano – claramente inspirado por Jorge Valdano, antigo internacional pela Argentina que conquistou o Campeonato do Mundo ao lado de Diego Armando Maradona precisamente no mês em que o cabo-verdiano nasceu, em 1986. As leis de Cabo Verde não permitiram a atribuição do nome, mas a ideia manteve-se e Josimar é Josimar devido a outro Josimar, lateral do Sevilha, do Botafogo e do Flamengo, que também tinha acabado de estar no Mundial a representar o Brasil.
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O início da carreira de Vozinha foi mais do que normal: Batuque, Mindelense e Progresso do Sambizanga, entre Cabo Verde e Angola, com o primeiro contrato profissional a aparecer quando já tinha 25 anos e à boleia da primeira viagem para a Europa para representar o Zimbru Chisinau da Moldávia. Seguiram-se Gil Vicente, AEL Limassol e Trencin, com a conquista de uma Taça do Chipre como principal feito, até à chegada ao Desp. Chaves. Fez 51 jogos nas últimas duas temporadas na Segunda Liga e foi convocado para o Campeonato do Mundo já a saber que não iria continuar nos flavienses. Ninguém, porém, poderia antecipar o que aconteceu a seguir.
Sete defesas contra Espanha, quase 30 milhões de seguidores, um ícone do Campeonato do Mundo. E tudo com a mãe a ver
Aquele dia 15 de junho parecia um dia como qualquer outro. O Mundial 2026 tinha começado na semana anterior, o Brasil já tinha empatado com Marrocos e os Países Baixos já tinham empatado com o Japão. Às 17h em Portugal continental, cinco horas a menos em Atlanta, o apito inicial soou para a estreia de Cabo Verde num Campeonato do Mundo e para o que acabaria por ser o primeiro passo no caminho de Espanha rumo à conquista do troféu.

Ao longo dos mais de 90 minutos, os cabo-verdianos não permitiram qualquer golo aos espanhóis e estrearam-se no Campeonato do Mundo com um empate, um ponto e um empurrão para o que acabaria por ser um histórico apuramento para os 16 avos de final. No meio de uma exibição coletivamente sólida da equipa de Bubista, apareceu uma inevitável individualidade: Vozinha, que fez sete defesas, incluindo duas intervenções particularmente impressionantes a remates de Ferran Torres e Laporte.
O guarda-redes de 40 anos terminou o jogo em lágrimas, sendo engolido por todos os colegas de equipa e saudado pelos adversários, com Joan García a cruzar grande parte do relvado para o cumprimentar. A partir desse momento, enquanto o nome de Vozinha ainda era entoado e repetido em cânticos tanto em Cabo Verde como nos países com as maiores comunidades cabo-verdianas, lançou-se o verdadeiro fenómeno do Mundial 2026.
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De segundo para segundo, o número de seguidores de Vozinha no Instagram ia subindo exponencialmente. Antes do jogo, a conta do guarda-redes na rede social não chegava aos 30 mil seguidores; pouco depois do jogo, já ultrapassava os dois milhões. O próprio jogador foi confrontado com isso mesmo numa entrevista na zona mista, ao canal brasileiro CazéTV, mostrando-se incrédulo com o que estava a acontecer um pouco por todo o mundo.
Nas horas que se seguiram e nos dias após o empate contra Espanha, o número só aumentou. Tornou-se o segundo jogador africano com mais seguidores no Instagram, apenas atrás de Mohamed Salah e à frente de Achraf Hakimi, o guarda-redes com mais seguidores no Instagram, à frente do já retirado Iker Casillas e também de Thibaut Courtois e Manuel Neuer, e está dentro do top 20 dos jogadores de futebol com mais seguidores no Instagram. Atualmente, mais de um mês depois do tal jogo com os espanhóis, Vozinha reúne 29,6 milhões de seguidores na rede social.
“Sinceramente, não percebo muito disto das redes sociais. Eu abria o telemóvel depois dos jogos e via milhões de notificações novas. Pensava que a aplicação estava com um erro ou com um vírus. Mas depois percebi o carinho de Cabo Verde, do Brasil, de tantos adeptos pelo mundo. É um orgulho levar o nome do meu país tão longe. O que está a acontecer comigo é realmente extraordinário, vai muito além do futebol. Acho que sou uma pessoa abençoada. Tudo o que sou é por tudo o que represento: a minha família, os meus amigos, os meus colegas que também representam Cabo Verde. Acho que Deus tinha isto guardado para mim”, disse o guarda-redes ainda durante o Campeonato do Mundo.
O cabo-verdiano foi mesmo o jogador que mais cresceu em termos percentuais nas redes sociais à boleia do Mundial 2026, ficando apenas atrás de Erling Haaland em termos absolutos, já que o avançado norueguês recebeu mais 32 milhões de seguidores no Instagram ao longo da competição. Feitas as contas, Vozinha pode agora encaixar cerca de 68 mil dólares por publicação, tornando-se claramente um dos jogadores de futebol com maior presença no Instagram – que já vai sendo aproveitada, tendo anunciado uma parceria com a Uber nos últimos dias.
“Um Campeonato do Mundo pode transformar um perfil por completo. Pode ser um momento de coroação para um ícone, mas também o tempo de anunciar a chegada na next great thing. Estamos habituados a essas histórias há muito tempo, mas o caso do Vozinha mostra que alguns dos maiores ícones destes torneios nem sequer são os mais talentosos. Podem tornar-se um ícone por um momento particular ou pela história que representam. É a história do underdog, que também reflete a cultura desportiva da atualidade. Não é sobre ganhar, sobre a coisa incrível, agora pode ser só sobre a coisa mais interessante ou pouco usual”, explicou Owen Laverty, da agência criativa de desporto Ear to the Ground, ao The Athletic.
O caso de Vozinha, naturalmente, enquadra-se nesses padrões. Pelo momento particular, através da exibição contra Espanha, mas também pela história que representa – e que revelou logo após o apito final do jogo inaugural, para justificar o facto de ter chorado copiosamente ainda em campo. “Chorei porque cresci com os meus avós e eles já não estão cá. E chorei porque a minha mãe também não está cá, teve problemas com o visto e com o dinheiro que é preciso para pagar o visto. Não conseguimos resolver tudo a tempo”, detalhou.

O impacto da história foi tanto que, dias depois, os próprios EUA garantiram que a mãe do guarda-redes cabo-verdiano conseguiria entrar no país a tempo de assistir ao jogo seguinte, em Miami, contra o Uruguai. “O guarda-redes cabo-verdiano Vozinha e a sua mãe vão reencontrar-se em Miami a tempo do jogo de domingo. Agradecemos ao secretário Rubio, aos responsáveis do Departamento de Estado dos EUA, ao governo de Cabo Verde e à FIFA por terem colaborado para que isto fosse possível”, anunciou Hakeen Jeffries, líder do Partido Democrata na Câmara dos Representantes, que no dia anterior já tinha garantido que iria pedir a Marco Rubio que “fizesse de tudo” para que a mãe do jogador conseguisse entrar nos EUA.
E entrou. Ana Cândida Évora viajou para os EUA dias depois, saindo de Cabo Verde pela primeira vez na vida, e assistiu ao empate contra o Uruguai num camarote do Hard Rock Stadium de Miami. Com a camisola do filho vestida e a bandeira cabo-verdiana entre as mãos e os ombros, desdobrou-se em curtas entrevistas ainda no exterior do estádio, foi constantemente procurada pela transmissão televisiva durante o jogo e ainda conheceu Gianni Infantino, com quem tirou uma fotografia.
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A mãe de Vozinha ficou nos EUA para ainda assistir ao último jogo da fase de grupos, onde um novo empate de Cabo Verde em Houston, desta feita contra a Arábia Saudita, deixou o país historicamente apurado para os 16 avos de final. Aí, os cabo-verdianos defrontaram a Argentina de Lionel Messi e estiveram muito perto de causar a maior surpresa de todo o Mundial 2026, obrigando os argentinos ao prolongamento – com direito a um golo inacreditável de Sidny Lopes Cabral, antigo jogador do Estrela da Amadora e do Benfica, que foi mesmo considerado o melhor de toda a competição.
Cabo Verde, portanto, foi eliminado do Campeonato do Mundo a 4 de julho, o que significa que Vozinha precisou de menos de duas semanas nos EUA para se tornar um ícone absolutamente global. “Foi a maior experiência da minha vida em termos futebolísticos. Era um sonho para mim, para todos os cabo-verdianos e para todos os meus colegas. Hoje saímos daqui um pouco tristes, mas satisfeitos e de cabeça levantada. Fizemos tudo para ganhar o jogo. Não conseguimos, mas mostrámos que temos uma grande equipa, uma grande seleção e jogadores de classe muito alta. Espero que os mais jovens nos vejam como referência, que lutem pelos seus sonhos. Somos um país pequeno, mas temos um povo resiliente”, atirou depois da derrota com a Argentina, já depois de levantar todos os colegas que se atiraram para o chão na sequência do apito final.
As férias em São Vicente e o convite para a final que incluiu um jogo com Cafu e John Terry
Depois do Campeonato do Mundo e até de ser escolhido pelos adeptos para o Onze Ideal da competição, Vozinha foi de férias – e foi de férias para São Vicente, a ilha de Cabo Verde onde cresceu, partilhando vídeos e fotografias na praia, a andar de mota de água, a fazer mergulho e a ser muito saudado por praticamente todos aqueles com quem se cruzou na rua. A ideia de que os internacionais cabo-verdianos já são autênticos heróis no país ficou clara na apoteótica receção à equipa no Aeroporto Internacional Nelson Mandela, na Praia, mas repetiu-se sempre que o guarda-redes marcou presença em eventos ou momentos de homenagem, com António José Seguro a receber até a camisola do número 1 cabo-verdiano das mãos de Bubista durante a visita oficial da semana passada do Presidente da República ao país africano.
Com o passar dos dias e das semanas, instalou-se a dúvida sobre se Vozinha iria manter o estatuto de celebridade para lá de Cabo Verde depois do fim do Campeonato do Mundo. “Tudo isto é viral. Sobe muito depressa e cai igualmente depressa. Existe aqui uma janela de atenção. Ninguém sabia quem ele era e não sei se vão saber quem ele é depois de o Mundial acabar. O Messi, o Ronaldo, o Neymar, o Mbappé, todos vão continuar a fazer dinheiro depois de acabarem as carreiras. Ele tem este grande momento para capitalizar”, explicou Mike Serazio, especialista em comunicação social, à BBC.
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E Vozinha capitalizou – mesmo que nem tenha precisado de fazer grande coisa. Primeiro, chegou a consequência mais estranha. Jesús Ortea, um investigador espanhol, decidiu dar o nome do guarda-redes a um molusco marinho de quatro milímetros que entrou perto de Havana, em Cuba. A Aldisa vozinhai, que traduzido à letra significa lesma do mar de Vozinha, serviu como uma maneira de homenagear o “papel destacado” do cabo-verdiano no Mundial 2026, com a cor vermelha da espécie a lembrar as camisolas de Espanha que este travou.
Depois, apareceu a consequência mais habitual. A camisola que Vozinha usou contra a Arábia Saudita, no terceiro e último jogo da fase de grupos, foi leiloada por 11.116 euros na plataforma MatchWornShirt, estabelecendo um novo recorde para camisolas de guarda-redes no site e ultrapassando a marca de Alisson, cuja camisola de um jogo de 2025 entre o Liverpool e o Tottenham tinha sido leiloada por pouco mais de 10 mil euros. A camisola, que estava autografada pelo cabo-verdiano, foi comprada por um norte-americano e acabou por ter 59 ofertas de 16 países diferentes.

Por fim, apareceu a consequência mais ilustre. Depois das tais semanas de férias em Cabo Verde, Vozinha regressou aos EUA a convite da FIFA para assistir à final entre Espanha e Argentina, participando ainda num “jogo de lendas” ao lado de Cafu e John Terry. Conheceu Gianni Infantino, foi visto a ter uma longa conversa com o brasileiro Ronaldo e tirou fotografias com Gerard Piqué, David Villa, Carles Puyol ou Sergio Ramos. Pelo meio, ainda teve tempo para aparecer nos estúdios da CBS e ser um dos convidados do conhecido “CBS Mornings” – onde, à boa maneira norte-americana, confirmou que está solteiro.
https://twitter.com/MenInBlazers/status/2077772674319757721
Com Brasil, Portugal e Arábia Saudita a chamar, o avião vai rumar ao Chile
Pelo meio, o futebol propriamente dito continuava em stand by. Apesar de já ter entrado no Mundial 2026 com a certeza de que não tinha futuro no Desp. Chaves, ou seja, com a certeza de que não tinha clube, Vozinha sempre garantiu que não pensava terminar a carreira depois de concretizado o sonho do Campeonato do Mundo e que queria continuar a jogar.
“Quero jogar mais ou um dois anos, talvez três”, disse o guarda-redes na tal entrevista à CBS. “Vou ver como o meu corpo reage, mas sou um jogador livre e estou à procura de um bom projeto. Espero encontrar uma boa equipa em breve, uma equipa que me queira realmente pelo que posso contribuir como jogador, não apenas por razões de ‘marketing’. Essa é a primeira coisa que quero resolver, porque amo o futebol. Estar aqui aos 40 anos… É porque realmente sinto essa paixão”, acrescentou.
Os rumores não demoraram a aparecer. Falou-se no Inter Miami de David Beckham, o que colocaria Vozinha no mesmo plantel que Lionel Messi, Luis Suárez, Rodrigo de Paul e Casemiro, mas a notícia nunca avançou. Falou-se no Al Diriyah da Arábia Saudita, cujo treinador é Bruno Lage, mas nada se confirmou. E falou-se no Ceará e no Corinthians, até porque o guarda-redes pareceu abrir a porta ao futebol brasileiro numa entrevista, mas tudo ficou na mesma.
Com propostas do Brasil, de Portugal e da Arábia Saudita, o último rumor acabou por ser o único a revelar-se verdadeiro. Nas últimas semanas, Vozinha foi constantemente associado ao Colo-Colo, histórico clube do Chile que procurava um guarda-redes e tinha o cabo-verdiano numa lista muito restrita que também incluía Santiago Mele, uruguaio do Monterrey. No fim, entre uma declaração do presidente e uma publicação só com os caracóis do cabelo do cabo-verdiano, o negócio foi mesmo confirmado.
“Vozinha vai ser jogador do Colo-Colo. Temos um acordo, estão a ser afinados os últimos detalhes. Mas já temos a confirmação do seu entorno e do seu representante. Chegámos a um acordo com base numa proposta que apresentámos. Vai viajar para o Chile nos próximos dias, vai passar por exames e depois será apresentado aqui no Estádio Monumental”, começou por dizer Aníbal Mosa, garantindo que a contratação não era apenas um golpe de marketing, tal como o guarda-redes tinha exigido.
“Acho que reúne as duas condições. Desportivamente vimos o desempenho que ele teve no Mundial, é um guarda-redes que reúne as condições necessárias para estar aqui no Colo-Colo. É óbvio que não é apenas ‘marketing’. Está apto desportivamente, está em condições, por isso é que o trazemos. É um jogador que tem uma conotação mundial muito grande e isso também nos interessa, porque faz com que o nosso clube também esteja em evidência”, acrescentou.
https://twitter.com/ColoColo/status/2080808448715825290
De acordo com a comunicação social chilena, Vozinha assinou um contrato válido por 18 meses e vai ganhar cerca de 44 mil euros por mês, 528 mil euros por ano, valores que fazem com que este seja desde já o maior contrato da carreira do cabo-verdiano. Ainda assim, está longe de ser o mais bem pago do plantel: Arturo Vidal, ícone chileno que passou por Juventus, Bayern, Barcelona e Inter, ganha mais do dobro por mês, cerca de 107 mil euros.
Sem que tenha sido apresentado oficialmente em Santiago, a capital do Chile, o guarda-redes já está a protagonizar pedidos de exceção no futebol do país. Isto porque o regulamento da Asociación Nacional de Fútbol Profesional, o organismo que gere o Campeonato, não permite que os jogadores atuem com alcunhas na camisola, autorizando apenas o primeiro nome ou os apelidos que estão legalmente nos documentos de identificação. Ou seja, Vozinha não poderia jogar com Vozinha nas costas – somente com Évora ou Dias. O Colo-Colo, porém, está a tentar contornar a situação e já fez um pedido formal para que seja concedida uma exceção ao cabo-verdiano.
https://twitter.com/SonyPicturesMX/status/2082873861922607362
Entretanto, num novo capítulo da ascensão meteórica de Vozinha, o guarda-redes foi escolhido pela Sony Pictures para ser o protagonista de um dos anúncios a “Homem-Aranha: Um Novo Dia”, o novo filme do super-herói que estreou nos últimos dias. Filmado em São Vicente, no Campo do Bitim, o curto vídeo mostra o cabo-verdiano no centro do relvado com uma camisola com motivos do Homem-Aranha, lembrando que “ser um herói não é sobre ter superpoderes, é sobre proteger alguém mais importante do que nós”.
Certo é que, com Vozinha, Évora ou Dias nas costas, o guarda-redes vai mesmo mudar-se para o Chile e assinar um contrato que pode resolver uma vida que explodiu aos 40 anos. Pelo meio, concretiza os sonhos de quando tinha 18. “Trabalhei a vida toda para momentos destes. Tenho 40 anos, só fui profissional aos 25. É uma recompensa por toda essa jornada. Se pudesse, dizia ao Vozinha de 18 anos que pode estar muito orgulhoso dele próprio. Trabalhou muito. Honestamente, nem sequer sonhava com coisas destas quando era miúdo. Mas depois de tudo isto posso mesmo dizer ao meu eu adolescente que tudo valeu a pena”, explicou ainda durante o Campeonato do Mundo.