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O fenómeno da Criança Influencer: quem protege a infância?  

Gostar de gravar não equivale a compreender o que significa transformar a própria  infância num conteúdo acessível a uma audiência indeterminada. 

Gabriela Fidalgo
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Temos assistido, em Portugal, a uma progressiva naturalização da figura da criança  influencer (não raras vezes, de crianças em idades extraordinariamente precoces). E sempre  que alguém manifesta preocupação relativamente a esta exposição, as respostas tendem a  reproduzir o mesmo repertório argumentativo: “Mas a criança gosta de gravar”, “Ela  diverte-se” ou “As pessoas adoram-na”, por isso importa esclarecer que a questão não se  centra em negar que uma criança até possa retirar prazer da gravação de vídeos, solicitar que  a filmem ou demonstrar entusiasmo perante a atenção que recebe. O problema reside na  falácia de equiparar esse prazer imediato à capacidade de compreender as implicações  profundas, duradouras e potencialmente irreversíveis de se tornar uma figura pública.  Gostar de gravar não equivale a compreender o que significa transformar a própria infância  num conteúdo acessível a uma audiência indeterminada. Tampouco constitui, por si só, um  critério suficiente para concluir que essa exposição é compatível com as necessidades de  proteção inerentes ao desenvolvimento infantil.

Do ponto de vista da psicologia do desenvolvimento, uma criança pequena não  dispõe ainda dos recursos cognitivos, emocionais e sociomorais necessários para antecipar  integralmente aquilo que representa ter a sua imagem, a sua voz, as suas expressões, os seus  comportamentos e episódios significativos da sua vida disponibilizados para milhares ou  milhões de desconhecidos. Não compreende, na sua verdadeira extensão, a permanência  digital desses conteúdos. Não consegue representar plenamente que um vídeo pode ser  guardado, reproduzido, manipulado, retirado do seu contexto original ou reutilizado por  terceiros durante anos. Ainda menos possui capacidade para avaliar como se poderá sentir  no futuro perante a constatação de que uma multidão de desconhecidos acompanhou o seu  crescimento, apropriou-se das suas frases, comentou o seu corpo, avaliou o seu  comportamento ou construiu uma perceção pública da sua identidade antes de ela própria ter  tido oportunidade de a definir.

Ouvir a criança é, evidentemente, indispensável. Contudo, respeitar a sua voz não  significa transferir para ela a responsabilidade por decisões cujas consequências não dispõe  ainda de maturidade desenvolvimental para compreender. A participação da criança não  suprime o dever de proteção do adulto (pelo contrário: quanto mais limitada é a sua  capacidade de antecipação, maior é a responsabilidade ética de quem decide em seu nome).

É precisamente neste ponto que se torna incontornável discutir o papel dos adultos.  Um dos argumentos mais frequentemente mobilizados para legitimar esta exposição é o de  que “as contas são geridas pelos pais”. Mas o que significa, concretamente, gerir uma conta  cuja relevância, crescimento e rentabilidade dependem da presença continuada de uma  criança? Quando a imagem infantil começa a produzir seguidores, notoriedade, convites,  parcerias comerciais, contratos ou rendimento, os pais deixam de estar apenas a administrar  uma brincadeira familiar. Passam a gerir um projeto mediático e económico cuja  continuidade depende, em maior ou menor grau, da disponibilidade, da imagem e da  performance daquela criança. A partir desse momento, instala-se uma inquietação ética  difícil de desconsiderar: quanto maior for o investimento emocional, financeiro e identitário  da família nesse projeto, mais complexa se torna a distinção entre as decisões que protegem  genuinamente a criança e aquelas que preservam o sucesso da conta. Existe, portanto, uma  assimetria fundamental entre o poder decisório dos adultos e a vulnerabilidade  desenvolvimental da criança. Os pais controlam as plataformas, selecionam os conteúdos,  estabelecem os ritmos de publicação, negoceiam contratos e interpretam as reações da  audiência. A criança, por sua vez, pode tornar-se simultaneamente protagonista, produto e  recurso económico de uma estrutura que não tem capacidade para compreender nem  abandonar de forma verdadeiramente autónoma.

Um estudo realizado com crianças influencers, entre os 7 e os 12 anos, e com os  respetivos pais demonstrou precisamente que estes perfis não correspondiam a uma  manifestação puramente espontânea ou autodeterminada da criança. A identidade pública  apresentada nas plataformas era construída através de uma negociação permanente entre  aquilo que a criança desejava fazer, aquilo que os pais decidiam mostrar, aquilo que  suscitava maior aprovação por parte dos seguidores e os interesses comerciais associados à  produção de conteúdo (Van den Abeele et al., 2025). Esta constatação força-nos a abandonar  a visão de que estamos apenas perante crianças que “brincam em frente a uma câmara”. O  que se constrói é uma identidade pública infantil submetida às lógicas da visibilidade, da  audiência, do desempenho e da rentabilização. A autenticidade torna-se, assim, paradoxal:  aquilo que é apresentado como espontâneo pode ser repetido, selecionado, encenado ou  ajustado em função da reação do público e das exigências comerciais.

A literatura científica tem vindo igualmente a assinalar riscos relacionados com a  privacidade, a segurança, a mercantilização da infância, a pressão para produzir conteúdos e  as possíveis repercussões na educação, nas relações sociais, na construção da autonomia, na  identidade e no bem-estar psicológico (Clark & Jno-Charles, 2025; Divon et al., 2026;  Shomai et al., 2024). Importa ainda sublinhar que a família não controla verdadeiramente o  percurso posterior desses conteúdos. Não controla quem os guarda, quem os descarrega,  quem os partilha, em que comunidades reaparecem, de que forma são editados nem que  utilizações futuras lhes poderão ser atribuídas. À medida que a audiência aumenta, diminui

proporcionalmente a capacidade de circunscrever o destino da imagem da criança. É, por  isso, profundamente insuficiente esperar que surjam manifestações explícitas de sofrimento  (como ansiedade, vergonha, bullying, exposição sexualizada, conflitos familiares ou  arrependimento) para então reconhecer que talvez a situação devesse ter sido questionada  mais cedo.

A proteção da infância não pode ser exclusivamente reativa, porque proteger uma  criança significa antecipar riscos que ela própria ainda não consegue antecipar sozinha,  estabelecer limites que ainda não consegue formular e preservar dimensões da sua  intimidade cujo valor apenas compreenderá inteiramente mais tarde.

Referências 
Clark, D. R., & Jno-Charles, A. B. (2025). The child labor in social media: Kidfluencers,  ethics of care, and exploitation. Journal of Business Ethics, 201(1), 35–62. https://doi.org/ 10.1007/s10551-025-05953-7
Divon, T., Annabell, T., & Goanta, C. (2026). Children as concealed commodities:  Ethnographic nuances and legal implications of kidfluencers’ monetisation on TikTok. New  Media & Society, 28(3), 1190–1218. https://doi.org/10.1177/14614448241304657
Shomai, S., Unwin, P., & Sealey, C. (2024). Kidfluencers’ lived experiences of influencer  culture: A time for regulation? International Journal of Sociology and Social Policy, 44(11– 12), 1109–1122. https://doi.org/10.1108/IJSSP-03-2024-0109
Van den Abeele, E., Hudders, L., & Vanwesenbeeck, I. (2025). Managing authenticity in a  kidfluencers’ world: A qualitative study with kidfluencers and their parents. New Media &  Society, 27(6), 3240–3263. https://doi.org/10.1177/14614448231222558
Texto de: Gabriela Fidalgo, Psicóloga de Crianças e Pais (Cédula Profissional nº 32627)