Temos assistido, em Portugal, a uma progressiva naturalização da figura da criança influencer (não raras vezes, de crianças em idades extraordinariamente precoces). E sempre que alguém manifesta preocupação relativamente a esta exposição, as respostas tendem a reproduzir o mesmo repertório argumentativo: “Mas a criança gosta de gravar”, “Ela diverte-se” ou “As pessoas adoram-na”, por isso importa esclarecer que a questão não se centra em negar que uma criança até possa retirar prazer da gravação de vídeos, solicitar que a filmem ou demonstrar entusiasmo perante a atenção que recebe. O problema reside na falácia de equiparar esse prazer imediato à capacidade de compreender as implicações profundas, duradouras e potencialmente irreversíveis de se tornar uma figura pública. Gostar de gravar não equivale a compreender o que significa transformar a própria infância num conteúdo acessível a uma audiência indeterminada. Tampouco constitui, por si só, um critério suficiente para concluir que essa exposição é compatível com as necessidades de proteção inerentes ao desenvolvimento infantil.
Do ponto de vista da psicologia do desenvolvimento, uma criança pequena não dispõe ainda dos recursos cognitivos, emocionais e sociomorais necessários para antecipar integralmente aquilo que representa ter a sua imagem, a sua voz, as suas expressões, os seus comportamentos e episódios significativos da sua vida disponibilizados para milhares ou milhões de desconhecidos. Não compreende, na sua verdadeira extensão, a permanência digital desses conteúdos. Não consegue representar plenamente que um vídeo pode ser guardado, reproduzido, manipulado, retirado do seu contexto original ou reutilizado por terceiros durante anos. Ainda menos possui capacidade para avaliar como se poderá sentir no futuro perante a constatação de que uma multidão de desconhecidos acompanhou o seu crescimento, apropriou-se das suas frases, comentou o seu corpo, avaliou o seu comportamento ou construiu uma perceção pública da sua identidade antes de ela própria ter tido oportunidade de a definir.
Ouvir a criança é, evidentemente, indispensável. Contudo, respeitar a sua voz não significa transferir para ela a responsabilidade por decisões cujas consequências não dispõe ainda de maturidade desenvolvimental para compreender. A participação da criança não suprime o dever de proteção do adulto (pelo contrário: quanto mais limitada é a sua capacidade de antecipação, maior é a responsabilidade ética de quem decide em seu nome).
É precisamente neste ponto que se torna incontornável discutir o papel dos adultos. Um dos argumentos mais frequentemente mobilizados para legitimar esta exposição é o de que “as contas são geridas pelos pais”. Mas o que significa, concretamente, gerir uma conta cuja relevância, crescimento e rentabilidade dependem da presença continuada de uma criança? Quando a imagem infantil começa a produzir seguidores, notoriedade, convites, parcerias comerciais, contratos ou rendimento, os pais deixam de estar apenas a administrar uma brincadeira familiar. Passam a gerir um projeto mediático e económico cuja continuidade depende, em maior ou menor grau, da disponibilidade, da imagem e da performance daquela criança. A partir desse momento, instala-se uma inquietação ética difícil de desconsiderar: quanto maior for o investimento emocional, financeiro e identitário da família nesse projeto, mais complexa se torna a distinção entre as decisões que protegem genuinamente a criança e aquelas que preservam o sucesso da conta. Existe, portanto, uma assimetria fundamental entre o poder decisório dos adultos e a vulnerabilidade desenvolvimental da criança. Os pais controlam as plataformas, selecionam os conteúdos, estabelecem os ritmos de publicação, negoceiam contratos e interpretam as reações da audiência. A criança, por sua vez, pode tornar-se simultaneamente protagonista, produto e recurso económico de uma estrutura que não tem capacidade para compreender nem abandonar de forma verdadeiramente autónoma.
Um estudo realizado com crianças influencers, entre os 7 e os 12 anos, e com os respetivos pais demonstrou precisamente que estes perfis não correspondiam a uma manifestação puramente espontânea ou autodeterminada da criança. A identidade pública apresentada nas plataformas era construída através de uma negociação permanente entre aquilo que a criança desejava fazer, aquilo que os pais decidiam mostrar, aquilo que suscitava maior aprovação por parte dos seguidores e os interesses comerciais associados à produção de conteúdo (Van den Abeele et al., 2025). Esta constatação força-nos a abandonar a visão de que estamos apenas perante crianças que “brincam em frente a uma câmara”. O que se constrói é uma identidade pública infantil submetida às lógicas da visibilidade, da audiência, do desempenho e da rentabilização. A autenticidade torna-se, assim, paradoxal: aquilo que é apresentado como espontâneo pode ser repetido, selecionado, encenado ou ajustado em função da reação do público e das exigências comerciais.
A literatura científica tem vindo igualmente a assinalar riscos relacionados com a privacidade, a segurança, a mercantilização da infância, a pressão para produzir conteúdos e as possíveis repercussões na educação, nas relações sociais, na construção da autonomia, na identidade e no bem-estar psicológico (Clark & Jno-Charles, 2025; Divon et al., 2026; Shomai et al., 2024). Importa ainda sublinhar que a família não controla verdadeiramente o percurso posterior desses conteúdos. Não controla quem os guarda, quem os descarrega, quem os partilha, em que comunidades reaparecem, de que forma são editados nem que utilizações futuras lhes poderão ser atribuídas. À medida que a audiência aumenta, diminui
proporcionalmente a capacidade de circunscrever o destino da imagem da criança. É, por isso, profundamente insuficiente esperar que surjam manifestações explícitas de sofrimento (como ansiedade, vergonha, bullying, exposição sexualizada, conflitos familiares ou arrependimento) para então reconhecer que talvez a situação devesse ter sido questionada mais cedo.
A proteção da infância não pode ser exclusivamente reativa, porque proteger uma criança significa antecipar riscos que ela própria ainda não consegue antecipar sozinha, estabelecer limites que ainda não consegue formular e preservar dimensões da sua intimidade cujo valor apenas compreenderá inteiramente mais tarde.