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Crescer em número não basta: Portugal precisa de criar mais valor

O crescimento demográfico pode ser uma oportunidade relevante para Portugal. Mas só o será plenamente se vier acompanhado de empresas mais fortes, trabalho mais qualificado e maior valor criado.

Vasco de Mello
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A revisão dos dados demográficos pelo Instituto Nacional de Estatística, que passou a estimar em 11,4 milhões a população residente em Portugal, deve ser lida como mais do que uma correção estatística. O aumento de cerca de 8% entre 2021 e 2025 confirma a capacidade do país para atrair pessoas, mas expõe também, com maior nitidez, o nosso desafio estrutural: transformar crescimento populacional em prosperidade.

Uma população maior pode ampliar o mercado interno, reforçar a oferta de trabalho e ajudar a responder ao envelhecimento demográfico. Mas não garante, por si só, melhores salários, carreiras mais qualificadas ou maior capacidade de financiar a educação, a saúde e a coesão social. Para isso, é necessário que o valor criado cresça de forma sustentada e, sobretudo, que aumente a produtividade.

A produtividade não é uma abstração económica. Mede a capacidade de gerar mais valor com o trabalho realizado e traduz-se diretamente na vida das pessoas. Empresas mais produtivas investem mais, inovam mais, internacionalizam-se com maior solidez e têm melhores condições para remunerar e desenvolver o talento. Países mais produtivos dispõem também de maior margem para reforçar os serviços públicos e assegurar oportunidades entre gerações.

Portugal tem ativos relevantes: estabilidade, integração europeia, talento, capacidade empresarial e setores competitivos. Contudo, continua a crescer abaixo do seu potencial. Uma parte significativa do emprego criado nos últimos anos concentrou-se em atividades de menor valor acrescentado, baixa intensidade tecnológica e reduzida escala empresarial. Esse crescimento é importante, mas não basta para assegurar a convergência com as economias europeias mais prósperas.

A resposta exige mais investimento produtivo, maior incorporação de tecnologia e conhecimento, empresas com escala e capacidade de competir internacionalmente. Exige também condições públicas que favoreçam quem investe e cria emprego qualificado: licenciamentos mais rápidos, estabilidade regulatória, justiça económica eficaz e uma redução efetiva dos custos de contexto.

Há ainda uma dimensão humana que não podemos ignorar. Portugal formou uma geração altamente qualificada, mas continua a perder muitos jovens que encontram noutros países salários, carreiras e ambientes de maior ambição. Ao mesmo tempo, deve integrar com dignidade quem escolhe viver e trabalhar entre nós. Reter talento e integrar bem quem chega são duas faces da mesma responsabilidade.

O diagnóstico é conhecido e tem sido amplamente documentado, incluindo pelo trabalho “Comparar para Crescer”, da Associação Business Roundtable Portugal. O que falta não é identificar novamente os problemas, mas garantir continuidade, coordenação e capacidade de execução.

O crescimento demográfico pode ser uma oportunidade relevante para Portugal. Mas só o será plenamente se vier acompanhado de empresas mais fortes, trabalho mais qualificado e maior valor criado por hora trabalhada. Crescer em número é positivo. Crescer em prosperidade é indispensável.