Conta-se que um rei chamado Xariar viveu há muitas centenas de anos na Pérsia. Tal como Mojtaba Khamenei, o homem que hoje talvez governe a mesma terra persa com outro nome, a existência de Xariar é esmaecida e nebulosa. Na verdade, partilham a mesma realidade das cidades que em dias de calor intenso se vêem ao fundo do deserto de Lute, sempre mais ao fundo, sem que ninguém seja capaz de as alcançar. Era esse Xariar um rei lúbrico e ciumento. Praticou inaceitáveis actos de violência doméstica e abusou de centenas de virgens. Até se cruzar com Xerazade. Durante 1001 noites Xerazade seduziu-o com as suas histórias, permitiu-lhe o coito e teve dele filhos excelentes, tornou-se sua esposa e viveu com ele feliz até aos dias de hoje.
Mojtaba Khamenei não tinha os defeitos de Xariar, tinha outros. Se o homem existir, algures escondido e poderoso, ainda tem. O moderno Irão não é a luminosa Pérsia dos haréns, das fontes escorrendo para um leito de areia e jóias, das cimitarras e da seda. Khamenei e a Guarda Revolucionária que patrulha as ruas dominam hoje um país de negro, sem brilho e sem água, indistinto da aridez. Mas também Mojtaba teve o seu encontro memorável quando se cruzou com Donald Trump. Este, é igualmente pródigo em histórias, é dono de uma inventiva sempre acesa, é cheio de argumentos e ostenta uma cabeleira esplendorosa como seria a de Xerazade. Donald, tal como Xerazade tem uma irmã, realmente um irmão, que não se chama Duniazade como a irmã de Xerazade mas Netanyahu, Benjamin Netanyahu.
Hoje, quando esta história se escreve, Trump ainda vai na 15.ª noite. Xerazade cumpriu o seu destino ao fim de 1001 noites. É assustador pensar que Trump venha a precisar de tantas para submeter o seu Xariar.
A guerra é a pior das actividades a que os homens se podem dedicar. As guerras têm muito de inevitável e, ao mesmo tempo, de contingente – as duas particularidades que fizeram delas um fascinante objecto de estudo mas também o mais literário modo de morrer. Os especialistas da guerra são formados para atenderem à inevitabilidade e formulam planos para cada cenário; os melhores de entre eles conhecem todos os cenários e todos os planos mas fiam-se pouco nas suas matemáticas, são eles que improvisam quando a realidade os surpreende. Os Estados Unidos abundam em especialistas de uma coisa e outra. Os primeiros tendem a confundir-se com os académicos columbiformes que antecipam os movimentos inimigos consultando os analistas do The Guardian e da Reuters, os segundos confundem-se amiúde com os falcões. Uns e outros tendem a errar por viés de carácter e têm sido sempre recentrados por Trump, que não entende de planos nem de oportunidades, mas é quem manda. E agora mandou que todas as noites algumas bombas americanas caiam sobre o Irão. O princípio assemelha-se ao que inspira as melgas, que supõem desse modo obrigar as suas vítimas a mudar de cama.
Portugal tem uma quantidade invulgar de especialistas em geo-estratégia. Alguns são vulgaríssimos militares de aspecto rugoso e empedernido, quem os ouve e lê fica com a ideia de que a guerra não tem piada nenhuma. E há também uma extensa legião de conhecedores que trazem ao tema o sopro da sua juventude, que se revezam vertiginosamente na televisão, que vertem a certeza consoladora de que, com eles, a guerra nunca terá segredos. Será sempre dos especialistas a opinião mais oportuna sobre assuntos bélicos, em particular dos últimos a quem nunca a chata experiência corrompeu.
Assim, para os não especialistas restarão as guerras passadas – a autópsia em vez da cirurgia, a semiótica em vez do poema.
Entre 5 e 10 de Junho de 1967, na Guerra dos 6 dias, Israel despachou por alguns anos uma série de casos arrastados com os seus vizinhos árabes. Em 6 dias, com um mínimo de perdas humanas da sua parte e da outra parte, Israel aniquilou o dispositivo militar da coalizão árabe que se propunha, como ainda hoje se propõe, a extinção do Estado de Israel.
Em Outubro de 1973, quando o Egipto e a Síria tentaram alguma reversão de perdas, tudo foi mais infeliz. A Guerra do Yom Kippur, sob iniciativa e organização árabes, arrastou-se por mais tempo. Acabou por ser a capacidade de adaptação e a competência operacional israelita a obviarem à trapalhice instalada e acabar com aquilo em três semanas.
Não foi assim em 2023, quando o Hamas desencadeou uma nova guerra com Israel, aquela que ainda hoje se mantém em Gaza e que desde então reacendeu inúmeros focos regionais. Um deles, agora o mais activo, é o que envolve directamente o Irão e os Estados Unidos. A capacidade israelita de prever os acontecimentos falhou em 7 de Outubro de 2023 e o mundo ficou entregue à inépcia milenarista do xiismo. Após as primeiras semanas, o Hamas recuou para os seus túneis, submergiu-se nas caves das escolas, enfiou-se nos hospitais e agachou-se atrás das suas crianças. Desde então tem sido uma tragédia sem nome, com milhares de mortos e enorme destruição.
A história recente das guerras no médio-oriente ilustra de modo sobejo a diferença entre a competência e o despreparo, entre a responsabilidade e a barbárie. Em todas as operações de sua iniciativa, a competência de planeamento permitiu que Israel atingisse os objectivos propostos com baixíssimo custo. A Guerra dos 6 dias foi uma operação exemplar da preferência do Estado de Israel por operações minuciosamente preparadas, fulgurantes, precisas nos objectivos e extremamente económicas em perda de vidas. Os mesmos príncípios viriam a ser adoptados em Entebbe ou na Roaring Lion, as mais complexas, tal como em todas as inúmeras acções com que Israel mantém minadas todas as ameaças que o cercam.
Não é assim quando é apenas possível gerir o caos. E foi o caos que o Hamas, o Hezbollah e os Hutis trouxeram ao mundo – sob o patrocínio do Irão. Quando os Estado Unidos intervêm é com o peso do seu monstruoso arsenal de bombas e voluntarismo. Ajudaram ao caos e à morte, tudo o que o xiismo opera melhor – porque não vê neles o fim mas o encorajamento e a redenção. A Operação Fúria Épica de Fevereiro de 2026 incluiu tudo o que os Estados Unidos escolhem para ocasiões semelhantes: um nome espectacular, precipitação, toneladas de fogo e aço, excessiva prosápia e uma deficiente avaliação das consequências.
As experiências traumáticas do Vietname, do Afeganistão ou do Iraque, não aportaram suficiente aviso aos Estados Unidos. Os desentendimentos com Israel sobre a condução da guerra contra o xiismo relevam de uma diferença essencial. Os Estados Unidos são um país com enormes recursos materiais e humanos, desbaratam riqueza e vidas como um novo-rico impulsivo. Israel é um país pequeníssimo que sobrevive à custa de inteligência e cautelas, a quem qualquer vida faz falta e para o qual todos os homens, mesmo mortos, são para trazer para casa.
Não é necessário recuar à Guerra dos 100 anos, de espantoso nome e o mais adequado para confrontar com a Guerra dos 6 dias. A Guerra dos 100 anos é um capítulo da História. Não foi realmente uma guerra mas um estado de tensão permanente suscitado por um vazio dinástico em França que interessou a Inglaterra, foi uma desinteligência de dezenas de anos ponteados por conflitos armados esporádicos e envenenados por pretensões dinásticas, territoriais e económicas. Não sendo uma guerra em sentido estrito, foi uma baliza exemplar na história dos conflitos humanos, a ilustração de como é possível sustentar por tanto tempo a depreciação da vida em paz e viver desse modo.
Antes e depois, inúmeras guerras envolveram povos e países em todos os lugares do mundo. Se é possível identificar algo de animador na ignominiosa lista das guerras é algum esforço para lhes dar uma solução rápida. As refregas aos repelões evoluíram para as grandes batalhas que se pretendiam decisivas, a guerra de trincheiras evoluiu para a Blitzkrieg, Iwo Jima inspirou a solução de Hiroshima.
Esta evolução no sentido da economia de meios e de vidas parecia ser consistente – a partir de 1945 assistida pelo progresso económico do post-guerra, por uma opinião pública pacifista e pelos equilíbrios bem sucedidos da guerra fria. Não era. Os Estados Unidos, vitoriosos e donos de uma indústria de guerra que se desenvolvera para além de todos os limites, assumiram o papel de grande polícia planetário e desmultiplicaram-se em decisões militares intempestivas. A Doutrina Truman tinha estabelecido as regras de actuação dos EU em ambiente de guerra fria e, tão cedo quanto 1947, os americanos foram à Grécia defender a monarquia grega contra o Partido Comunista da Grécia. Não está em causa a bondade dos motivos, é questionável o método. Mas não foi questionado e desde então, periodicamente, os Estados Unidos atiram-se como leões às selvas e aos desertos, quando calha por lá morrem e acabam a sair de fininho e mal feridos.
O vício americano de assentar os dois braços e a barriga quando lhe pedem uma ajuda de mão e, com Trump, as consecutivas derivas e decisões erráticas, têm tornado os acordos de colaboração com Israel menos decisivos do que poderiam ter sido. Depois de 2 anos e tal a enfrentar o Hamas em Gaza, Israel obtém dos EU mais do que o habitual apoio logístico – e, não menos importante, obtém do meio-mundo decente o reconhecimento de que o seu inimigo e a maior ameaça ao ocidente é o Irão mais a sua política de posicionamento de proxis. Em Fevereiro 2026, os EU intervêm directamente no Irão pela primeira vez. – arrasam uma parte indeterminada do poderio militar iraniano e eliminam altos dirigentes políticos e militares, entre eles Ali Khamenei Agora, alguns meses depois, escolheram fustigar o Irão noite após noite e preparam o que Trump anuncia ser um ataque brutal e devastador. É neste ponto que Israel promete voltar a discordar.
Israel e o povo judeu são seguramente os mais interessados no destino do médio-oriente. O reino de Israel é deste mundo, custou-lhes um incomensurável sofrimento. O povo judeu não cultiva o martírio, apesar de o conhecer melhor do que qualquer outro povo. Precisa de lutar todos dias para ter o pão e o vinho que não nascem da Tora e, ciclicamente, para sovar os seus inimigos e afastá-los das suas fronteiras. Os EU estão ao seu lado por razões geoestratégicas e, com mais premência desde a ameaça sobre os estreitos, comerciais. O entendimento entre os dois estados tem obedecido a um padrão de relacionamento entre dois parceiros desiguais e desigualmente interessados – um deles grande, rico e bronco, o outro pequeno, engenhoso e esperto. Os Estados Unidos não lutam pela vida, lutam por uma ideia de democracia aparentada com o seu modo de vida.
O mundo livre espera que Israel vença o Irão e os seus braços armados. Não existe qualquer entusiasmo israelita pelo plano Xerazade nem por uma reposição da Fúria Épica. As tentativas de Duniazade/ Netanyahu para condicionar Xerazade/ Trump – aparentemente para a concretização de um assalto decisivo ao coração do poder militar iraniano – não constituem a etapa final do alegado plano sionista para transformar os EU no seu sicário. Essa argumentação, que já entrou em algum discurso republicano, ignora o real propósito israelita de corrigir o frenesi americano, de introduzir na guerra uma estratégia que Trump nunca teve e assegurar mais alguns anos de paz nas suas cidades e campos. Israel está no terreno do Irão mais profundamente que os Estados Unidos, entende melhor o fundamentalismo xiita e há anos que a sua inteligência permeia as estruturas iranianas. Sabe o que todos sabem menos Trump, que a resiliência de um crente alimenta um pântano mais profundo a cada ano de uma guerra de atrito. Israel não tem recursos inesgotáveis nem quer desperdiçar uma única vida em operações à Rambo. Sabe que só uma intervenção concertada em múltiplas frentes, minuciosamente planeada e fulminante, poderá evitar o morticínio de 1001 e infinitas noites e dias. E, ao fim, quando Trump já estiver dedicado só aos seus negócios imobiliários, deixar tudo pior do que estava – um país fisicamente devastado, um povo com um ressentimento renovado contra o ocidente, ódio e, assim alimentada, uma oligarquia religiosa mais poderosa e mais radicalizada.