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Três recusas e duas demissões depois, Mancini está de volta como selecionador italiano (e não é o único)

Começou em Gattuso e houve sondagem a Pep. Depois, Pirlo esteve próximo de assinar, mas uma discórdia de última hora originou duas demissões. Por fim, foi Mancini o escolhido, mas não chega sozinho.

Manuel Conceição Carvalho
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A história do anúncio de Roberto Mancini como novo selecionador italiano começou na Bósnia em março deste ano. A equipa transalpina, então comandada por Gennaro Gattuso, chegou às grandes penalidades com os bósnios, com quem discutia uma das últimas vagas no Mundial-2026. Ao sétimo penálti estava tudo resolvido: Donnarumma ainda adivinhou para onde Bajraktarevic ia apontar, mas não conseguiu adiar o que já parecia inadiável. Nova edição de um Campeonato do Mundo e nova ausência dos italianos, que não marcam presença em fases finais de Mundiais desde 2014, no Brasil – três ausências consecutivas de uma das seleções que mais vezes ganhou a prova (1934, 1938, 1982, 2006).

https://observador.pt/2026/04/03/gattuso-demite-se-do-comando-tecnico-da-selecao-italiana/

No entanto, a saída de Gennaro Gattuso dos azzurri não trazia, automaticamente, o nome que o viria a substituir no comando técnico da seleção. Primeiro, Giovanni Malagò, presidente da Federação Italiana de Futebol (FIGC), consultou Ancelotti, que, ao comando da seleção brasileira, recusou o convite. O técnico italiano disse, mais tarde, na conferência de imprensa, após a eliminação do Brasil diante da Noruega, que não ia deixar o escrete. Depois foi Pep Guardiola a ser sondado e recusou, igualmente, mesmo não estando a ocupar o cargo de treinador em nenhuma equipa, depois de se despedir da comitiva técnica do Manchester City, onde mantém funções, como embaixador do grupo económico que detém os citizens. 

Pouco depois da recusa de Guardiola – e já depois da saída de Buffon dos quadros administrativos da FIGC, após a derrota na Bósnia –, Paolo Maldini e Leonardo concentraram esforços na contratação de Andrea Pirlo. Ainda em julho, o acordo entre a FIGC e Pirlo parecia totalmente fechado e nada faria negar a ideia de que o antigo internacional italiano viria a ser o próximo selecionador dos azzurri. A 24 de julho, tudo apontava que a seleção italiana já tinha encontrado um novo líder no comando técnico. No entanto, durante a noite do último domingo, o cenário voltou ao panorama inicial e a FIGC, afinal, não tinha encontrado o seu novo homem forte. 

Na manhã desta segunda-feira, Andrea Pirlo publicou um comunicado sobre o volte-face nos destinos da seleção italiana e da sua carreira: “Nos últimos dias, presenciei com grande amargura o debate que se gerou em torno do meu nome e a possibilidade de assumir o cargo de selecionador de Itália. Por respeito às instituições, à Federação e a todos os envolvidos, optei por guardar silêncio até agora. No entanto, após saber ontem à noite que já não sou candidato ao cargo de selecionador, sinto que é meu dever esclarecer alguns pontos. Ao longo da minha carreira, primeiro como jogador e agora como treinador, sempre realizei as minhas atividades respeitando estritamente as leis dos países onde trabalhei e os contratos que assinei”, começou por dizer o técnico.

Andrea Pirlo é, desde outubro de 2025, embaixador de uma empresa russa que opera uma casa de apostas. Esta ligação teve origem na sua contratação como técnico do United FC Dubai, clube que é propriedade do empresário russo Sergey Lomakin. Lomakin é igualmente o principal acionista da referida casa de apostas, o que levantou questões sobre a viabilidade ética e política da nomeação de Pirlo perante a federação.

“A colaboração profissional que foi objeto da recente polémica surgiu no âmbito da minha carreira nos EAU e é exclusivamente de carácter comercial e desportivo. Atribuir um significado político a esta colaboração significa atribuir-me convicções que nunca expressei e que não são minhas. Quero agradecer a Maldini e a Leonardo pela estima e confiança que me demonstraram. Conheço a sua experiência, a sua seriedade e o amor que sempre dedicaram ao futebol italiano. Lamento que uma decisão desportiva se tenha tornado rapidamente num debate público que acabou por me atribuir significados e intenções que não me pertencem. O meu amor pela Itália não depende de um cargo. Faz parte da minha história, da minha identidade, e continuará a acompanhar-me sempre”, concluiu.

Depois de ser conhecida esta relação comercial de Pirlo, o nome do antigo médio na corrida ao cargo de selecionador saiu de cena, mas não foi o único nome a cair do universo da seleção italiana. Leonardo e Paolo Maldini apresentaram a demissão 16 dias depois de terem entrado na FIGC. De um lado estavam os dois, ainda a favor da contratação de Pirlo; do outro, Giovanni Malagò, que, unilateralmente, decidiu travar a contratação do ex-internacional italiano. A discórdia e posterior decisão de Malagò terá sido o motivo pelo qual o assessor e o diretor técnico, respetivamente, terão saído da FIGC.

Com a saída dos responsáveis técnicos, Malagò assumiu a condução direta do processo de seleção, tendo Antonio Conte e Roberto Mancini como as alternativas finais em cima da mesa. Antonio Conte contava com o apoio de clubes da Serie A e manifestou interesse num projeto de longa duração, com um contrato previsto até 2030, pretendendo concluir o ciclo que iniciou na seleção em 2014.

Por outro lado, Roberto Mancini, que orientou a equipa nacional entre 2018 e 2023 – período em que conseguiu vencer um Europeu com a seleção italiana, em 2021 –, admitiu publicamente em 2024 ter cometido um erro ao sair para assumir funções na Arábia Saudita e mostrou disponibilidade para regressar ao cargo. “Não, não tomaria a decisão de voltar a deixar o banco de Itália. A forte relação de confiança que tinha com a Federação tinha-se quebrado mutuamente. Se pudesse voltar atrás, abordaria tudo de forma diferente. Se [Gabriele] Gravina [então presidente da FIGC] e eu tivéssemos falado, explicado, esclarecido, provavelmente as coisas não teriam acontecido desta forma”, revelou Mancini ao Il Giornale.

https://twitter.com/Azzurri/status/2082094903425671490

A decisão final recaiu sobre Roberto Mancini e significa o regresso a uma seleção que conseguiu voltar a ganhar grandes competições de seleções (Euro-2020), 17 anos depois de os italianos terem conseguido vencer a última (Mundial-2006). Além das, agora, duas experiências na seleção italiana, o técnico conta com passagens como treinador por Fiorentina, Lazio, Inter, Manchester City, Galatasaray, Zenit, Arábia Saudita e no Al-Sadd. Além do Europeu, destacam-se as conquistas de três Serie A (todas pelo Inter) e de uma Premier League (pelo Manchester City).

“Acreditei que a melhor escolha para selecionador era Roberto Mancini, por toda uma série de considerações. É um treinador cuja trajetória fala por si. Tinha tudo para ser o selecionador, mas há quem continue a pensar de forma diferente da realidade atual, que não é a mesma de ‘ontem'”, afirmou Malagò esta terça-feira. Com a chegada de Mancini e a saída de Maldini na direção técnica da seleção italiana, a FIGC também anunciou, pouco depois, a entrada de Claudio Ranieri, para o mesmo cargo.

https://twitter.com/Azzurri/status/2082117902891647077

Quanto às perspetivas a curto e médio prazo, Malagò revela que os azzurri estão a atravessar um “processo de duas velocidades”. “No que diz respeito ao novo treinador, terá apenas dois treinos antes da Liga das Nações e, tanto quanto sei, desde a Bósnia até hoje, o Lamine, o Mbappé e o Kane não foram convocados. Por isso, temos de fazer o nosso melhor com o que temos. Depois, há um campo que tem de ser arado, semeado e do qual é preciso colher frutos, no menor tempo possível, começando aos 13/14 anos, com o objetivo de ter muitos jogadores convocáveis para a seleção italiana no Euro-2032, que se realizará em casa”, antecipou.