Em junho de 2026, o Estado português convocou uma professora falecida para corrigir exames de Física-Química. Não é uma metáfora. Aconteceu. E, no entanto, é a metáfora perfeita: um sistema que nem sabe quem está vivo nos seus próprios quadros propôs-se digitalizar, distribuir e classificar eletronicamente mais de 300 mil provas nacionais. O resultado foi o que se viu: provas mal digitalizadas, com respostas cortadas a meio, exames que desapareciam da plataforma, professores sem acesso aos itens que deviam classificar, notas adiadas de 14 para 17 de julho, alunos com um lacónico “suspenso” na pauta e uma segunda fase empurrada para 20 de julho porque o sistema de classificação eletrónica não estava pronto. Tudo isto num verão em que milhares de famílias jogavam o acesso ao ensino superior.
O reflexo nacional perante este espetáculo é conhecido: culpar a tecnologia. “O digital falhou.” Não falhou nada. Digitalizar papel e distribuir ficheiros por uma rede de classificadores é tecnologia banal, resolvida há duas décadas, praticada todos os dias por bancos, seguradoras, operadoras e por meia dúzia de startups de Braga a Faro. Nenhum destes problemas — uma base de dados desatualizada, um upload que corta metade de uma resposta, uma convocatória enviada a quem já não existe — é um problema tecnológico difícil. É chocante que, em 2026, o Estado português continue a tropeçar em obstáculos que qualquer empresa média ultrapassa sem fazer conferência de imprensa. O que falhou não foi a tecnologia. Foi a gestão da mudança. E a gestão da mudança falha sempre pelo mesmo sítio: por cima.
Comecemos pelo princípio: o recrutamento. O Estado português nunca recruta, para o público, o que o privado tem de melhor. Não recruta porque não pode: porque tem grelhas salariais rígidas, carreiras congeladas, concursos desenhados para premiar a antiguidade, e não a competência. E não recruta porque não quer. Um diretor de tecnologia capaz de liderar a migração digital de 300 mil provas custa, no mercado, duas ou três vezes (até quatro, talvez) o que a tabela remuneratória única permite pagar. A consequência é previsível: os melhores ficam de fora, o Estado recorre a outsourcing mal contratualizado e mal fiscalizado, e, quando o projeto rebenta, ninguém dentro da máquina sequer tinha a competência para perceber que ia rebentar. Um antigo presidente do Júri Nacional de Exames lamentou publicamente que a correção digital tenha sido generalizada sem se fazer o balanço do piloto do ano anterior. Piloto no qual, note-se, já se tinham detetado erros. Nenhuma organização séria escala um sistema cujo teste falhou sem avaliar por quê. O Estado português escalou.
E aqui chegamos ao coração do problema, que não é técnico nem sequer orçamental: é humano e é de incentivos. As lideranças de topo dos organismos públicos não querem mudança e, pior, não a permitem. A mudança verdadeira exige duas coisas que essas lideranças recusam liminarmente: dedicação e reskilling. Exige que o dirigente aprenda ele próprio a trabalhar de outra forma, e exige que admita que as pessoas que foi acumulando à sua volta ao longo de anos, nomeadas, transitadas, acomodadas, precisam de aprender também, ou de sair. Ora, transformar uma organização é confessar que a organização anterior, a que se construiu e da qual se vive, estava errada. Nenhum dirigente intermédio faz essa confissão de livre vontade. Por isso a “transformação digital” do Estado português é quase sempre isto: comprar uma plataforma, manter os mesmos processos, as mesmas pessoas, as mesmas chefias, e esperar que o software ou o “sistema” faça o milagre que a estrutura recusa. O EduQA não foi um projeto de transformação, foi um verniz digital passado por cima de uma máquina que ninguém quis mexer.
A Iniciativa Liberal, quase sozinha, colocou o dedo na ferida certa. Mariana Leitão resumiu o processo em duas palavras: teimosia e incompetência. E tem razão nas duas: teimosia de quem avançou sem avaliar o piloto, incompetência de quem não soube executar o básico. No Parlamento, o grupo parlamentar fez a pergunta que o Ministério nunca respondeu de forma convincente: porque não se optou por uma implementação faseada, sugerindo que a pressa teve menos que ver com pedagogia e mais com os prazos das verbas do PRR. Se for verdade, e tudo indica que sim, é a síntese trágica do Estado português: a mudança não se faz quando a organização está pronta, faz-se quando o financiamento europeu obriga. Muda-se por calendário de Bruxelas, não por convicção de Lisboa.
Entretanto, o ministro Fernando Alexandre repetia que nenhum aluno seria prejudicado e que os erros “fazem parte do processo”. Não fazem. Erros de piloto fazem parte do processo; erros em produção, sobre o futuro de 300 mil provas, fazem parte da negligência. No privado, um responsável que entregasse este resultado (prazos falhados duas vezes, clientes em pânico, produto a desaparecer da plataforma) estaria a atualizar o LinkedIn. No público, dá audições parlamentares e segue para a segunda fase.
E depois há o retrato final, quase caricatural, deste atraso: as pautas. Em 2026, no país que se gaba do Cartão de Cidadão eletrónico e da Chave Móvel Digital, as classificações dos exames nacionais continuam a ser afixadas em folhas de papel coladas às portas das escolas. Alunos e famílias deslocam-se fisicamente para consultar uma nota, ou fotografam a pauta e partilham-na em grupos de WhatsApp, com os nomes e resultados de todos os colegas pelo meio. Um portal de consulta individual e autenticado, em que cada aluno acede apenas à sua classificação, é tecnologia trivial que qualquer junta de freguesia conseguiria contratar. Mas o ridículo não é só estético: é jurídico. As classificações são dados pessoais, e a sua exposição pública, associada ao nome completo de menores e jovens adultos, numa parede acessível a qualquer transeunte, é uma prática que o RGPD dificilmente tolera e pela qual qualquer empresa privada seria prontamente multada. O Estado, que fiscaliza com zelo o tratamento de dados alheios, dispensa-se com naturalidade das regras que impõe aos outros. E note-se a ironia cruel deste verão: o mesmo sistema que não garantiu a confidencialidade devida a cada aluno também não lhe garantiu a nota: houve quem fosse à pauta pública para encontrar, à frente do seu nome, a palavra “suspenso”.
A lição liberal deste verão não é que o Estado deva desistir do digital. É exatamente a contrária: o Estado deve levar a mudança a sério, o que significa pagar o que o talento custa, abrir as lideranças a quem vem de fora, avaliar antes de escalar, e, sobretudo, aceitar que transformar uma organização começa por transformar quem a dirige. Enquanto a administração pública for um sistema desenhado para proteger quem lá está, e não para servir quem está lá fora, cada modernização será isto: uma plataforma nova a correr sobre um Estado velho. E o Estado velho ganha sempre, nem que seja por atraso.
Um país onde o sistema convoca os mortos para corrigir os vivos não tem um problema de software. Tem um problema de quem manda.