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Gen-Z e a Revolta das Baratas

Os protestos Gen-Z souberam criar uma arma perfeita para derrubar governos. Mas, para construir o futuro que se segue, ainda está muito incompleta.

Manuel Castello Branco
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O Cockroach Janta Party (CJP) começou como uma sátira. Quando o presidente do Supremo indiano comparou em maio os jovens desempregados a baratas, a geração visada apropriou-se do insulto e transformou-o em bandeira: em poucos dias, milhares de jovens indianos manifestaram-se nas ruas, e o movimento, lançado por Abhijeet Dipke nas plataformas digitais, alcançou mais de 25 milhões de seguidores no Instagram. Sem se chegar a registar como partido, e sem a estrutura hierárquica da política tradicional, o CJP conseguiu a demissão de Dharmendra Pradhan, ministro da Educação, no passado dia 25. E foi esse desfecho que tornou difícil continuar a ler os protestos juvenis que hoje atravessam meio mundo como episódios isolados de descontentamento nacional. É que o que se passou em Deli parece apenas a manifestação mais recente de um padrão que já derrubou governos no Nepal, no Bangladesh e em Madagáscar, e que convém compreender a partir daquilo que verdadeiramente o anima.

A geração que protagoniza estes movimentos define-se mais pela adesão a causas concretas do que por uma filiação ideológica ou partidária clássica. O desencanto com o establishment afastou os jovens, não apenas dos partidos clássicos, mas das próprias grelhas ideológicas de tamanho único que durante décadas organizaram a política. Dizer isto não é dizer que as estruturas ideológicas e dialéticas do passado se tenham tornado absolutamente obsoletas. Bastaria olhar para as sondagens norte-americanas e para a subida sustentada do apoio ao socialismo entre os mais novos para concluir que o apoio a velhas ideologias está em crescendo nas gerações mais jovens. Mas, na verdade, o que estes números nos mostram é a procura da via mais próxima para fazer avançar uma causa sentida, estando o crescente apoio a partidos ou movimentos mais próximos da esquerda radical na Europa e nos Estados Unidos correlacionado com causas específicas como a guerra em Gaza. O apoio jovem parece então não se ancorar numa subscrição clara a um programa ideológico, tratando-se antes de uma espécie de recompensa dada aos partidos que são vistos como o veículo mais imediato de defesa de uma causa. Assim, mesmo onde os números aparentam engajamento ideológico, é a política de causas que continua latente.

E é esta política de causas que explica a forma como os chamados protestos Gen-Z se têm desenrolado por todo o mundo. Nascem quase sempre de um único acontecimento ou de um único vídeo que condensa, à maneira de um meme, o conjunto difuso de problemas contra os quais os jovens se insurgem: as fugas de informação nos exames de admissão na Índia, as imagens da opulência das famílias da classe política no Nepal, por exemplo, e propagam-se com uma velocidade que só as redes sociais permitem, escalando para uma mobilização de massas em meros dias.

Convém, porém, resistir à tentação de tratar todos estes movimentos como um bloco. Os jovens não são um monólito, e os seus protestos também não o são. Cada país inscreve nas suas ruas uma dinâmica nacional própria que o separa dos demais. É, por isso, importante manter em mente que, apesar de a cobertura mediática muitas vezes realçar o denominador comum, a idade, e esbater as especificidades de cada movimento, cada um destes protestos é distinto dos demais.

Ainda assim, é-nos possível realçar alguns pontos que parecem de certa forma transversais, sendo o mais frequente a questão da corrupção. Este é muitas vezes o ponto focal da maioria destes movimentos, não apenas porque é endémica em muitos dos países onde eles surgem (o Bangladesh consta dos lugares mais baixos do índice da Transparency International para a corrupção, e o Nepal e Madagáscar não ficam longe), mas porque uma elite corrupta e cleptocrática se torna particularmente insuportável para um sector demográfico que se sente economicamente excluído. O desemprego jovem é bastante elevado em quase todos estes países e mesmo os jovens que trabalham enfrentam a perspetiva sombria de não conseguirem manter o nível de vida dos pais ainda que ocupem os mesmos empregos ou mesmo que subam na hierarquia profissional. Perante um horizonte económico que se afigura devastador, o fator corrupção acaba por passar de mera notícia ou motivo de ultraje para prova, prova da perversão de uma classe dirigente que montou um sistema que está viciado contra os mais jovens e os exclui sistematicamente, tanto económica como politicamente.

Não admira, então, que o crânio sobre o estandarte negro da série One Piece (uma das séries de anime mais bem-sucedidas de sempre), emblema da revolta contra o opressor, se tenha imposto como símbolo transversal a estes movimentos.

Numa era de política de causas, as redes sociais são simultaneamente um combustível e um rastilho. Os seus algoritmos, calibrados para a atenção e o engajamento imediatos, tornam infinitamente mais fácil mobilizar grandes grupos em torno de uma imagem concreta do que em torno de um conjunto de princípios ou de um partido, e é por isso que o vídeo, o rosto, o objeto palpável que tem uma força emocional muito forte, se converte no catalisador recorrente destes movimentos. Do seio dessas mesmas redes sociais resulta uma globalização dos protestos massiva, que arrasta para a mobilização quem, noutras latitudes, partilha o mesmo desencanto, adaptando-o depois às circunstâncias nacionais. Mas o mecanismo não se reduz à imitação ou ao chamado instinto de manada (“herd mentality”). Há nele algo que o modelo de limiar de Granovetter ilumina bem: ao verem os seus pares mobilizados noutros países, os jovens veem descer o próprio limiar mínimo de adesão, o que precipita mobilizações rápidas que por sua vez reforçam o modelo. Uma reivindicação, ao tornar-se visível, legitima e autoriza reivindicações análogas noutros pontos do globo.

Esta disseminação nas redes permite ainda aos protestos Gen-Z adquirirem uma estrutura descentralizada e de cariz bottom-up, capaz de reunir vastas multidões em pouco tempo, dispensando as hierarquias que caracterizam o protesto partidário clássico. Essa descentralização, até mais do que uma mera característica, é tida como uma virtude, porque encarna precisamente a oposição ao establishment de que estes movimentos se querem demarcar. Ela permite uma mobilização de base continuada que se revelou muito mais resiliente do que se supunha, persistindo por meses ou anos como na Sérvia, e antes dela em Hong Kong, em 2019. E torna-os mais difíceis de reprimir, porque uma estrutura acéfala não é vulnerável ao golpe de decapitação, como a detenção ou morte do líder do movimento, que os regimes autoritários dominam. Bastou esta última semana na Índia para ver a dificuldade que Modi e o BJP, que no passado nunca hesitaram em suprimir várias ondas de manifestantes pela força, tiveram para tentar conter o CJP, tendo mesmo acabado por ceder com a demissão de um ministro. A imagem de líder forte que Modi tem procurado cultivar ao longo destes anos, que assenta em larga medida na sua capacidade de se blindar contra o sentimento e protestos populares (como os protestos agrícolas de 2020 e 2021), foi posta em causa por um movimento satírico de jovens, demonstrando bem a ameaça que este tipo de mobilizações constitui até para regimes mais autoritários.

Alguns regimes, como no Nepal, tentaram impor controlos estritos sobre a internet na esperança de silenciar os protestos, mas a estratégia não só se mostrou ineficaz como acabou por atiçar ainda mais o fogo (literalmente, uma vez que, após o governo tentar restringir o acesso à internet, os manifestantes pegaram fogo ao parlamento). Se há coisa que os jovens de todo o mundo prezam é a conectividade, e o Estado, ao retirá-la, é visto como estando a invadir, novamente, de forma deliberada e ostensiva as suas liberdades, o que aumenta a mobilização em vez de a travar.

Mas o que serve estes movimentos numa primeira fase é também aquilo que os fragiliza numa segunda, revelando-se as redes sociais como uma espécie de faca de dois gumes. A descentralização e a lógica da flexibilização permitem a mobilização rápida e massiva capaz de forçar a saída de um ministro na Índia ou de derrubar governos inteiros no Nepal ou em Madagáscar, mas é essa mesma ausência de hierarquia que torna particularmente difícil a tradução destes protestos em reformas duradouras. O que estes movimentos ganham em flexibilidade acaba por perder na capacidade de construção de coligações e de coesão política, pelo que a falta de uma estrutura clara dificulta o diálogo com as elites políticas — diálogo que, por mais mal visto que seja, continua a ser condição sine qua non de qualquer mudança política efetiva.

Aquilo que fortalece os movimentos Gen-Z no curto prazo pode, assim, revelar-se aquilo que os torna incapazes de introduzir reformas reais, sendo Madagáscar disso um claro exemplo. O problema remete-nos, mais uma vez, para a política de causas: um incidente ou causa partilhada é cola suficientemente poderosa para juntar multidões, mas raramente é robusta o suficiente para colmatar as divergências ideológicas que atravessam os manifestantes. Na Índia, a exasperação com as autoridades educativas é suficientemente transversal para desencadear os protestos, mas o mesmo não vale para os restantes alvos que os manifestantes tendem a visar. Assim que a mensagem se alarga, do leak dos exames para a estagnação económica, o desemprego ou o clima, as fraturas revelam-se de imediato, porque a causa que os une é apenas uma entre muitas reivindicações.

Sem estrutura centralizada, torna-se difícil que estes movimentos se convertam em verdadeiros atores políticos, e o faccionalismo tende a instalar-se, por vezes com ruturas e confrontos internos que drenam a vitalidade do movimento e que os governos não deixam de explorar para o desagregar.

Estes protestos, fascinantes em si mesmos, parecem, porém, refletir uma tendência política mais ampla. Costumam ser pintados como movimentos democráticos, não sem razão, e comparados com a Primavera Árabe, mas um olhar mais atento devolve um retrato mais complexo. A democracia está presente, e serve com frequência como grito de oposição ao autocrata que se enfrenta, mas encontra-se subordinada às reivindicações económicas que lhe dão origem. Por isso, e sem procurar desvalorizar os valores democráticos que subjazem a muitos destes movimentos, aquilo que verdadeiramente os move é o nepotismo, a corrupção, a exclusão económica e o desemprego, e não a democracia per se. Enquanto termo abstrato e idealizado, o mesmo que teve tanta força nas mobilizações juvenis de gerações anteriores, a democracia parece ter perdido peso perante reivindicações materiais concretas, e chega a afigurar-se dispensável na medida em que a segurança económica dos jovens esteja assegurada.

É um sentimento que ecoa mesmo no eleitorado ocidental. Nos Estados Unidos, o Partido Democrata tentou sem êxito mobilizar o eleitorado contra Donald Trump invocando valores gerais e ideais abstratos como a democracia, e a tentativa esbarrou num eleitorado que passou a ler nesses apelos meros exercícios de virtude política divorciados das suas dificuldades quotidianas. A estratégia, porém, começou recentemente a mudar, com as campanhas de Abigail Spanberger, na Virgínia, de Mikie Sherrill, em Nova Jérsia e de Zohran Mamdani, em Nova Iorque, a ilustrarem bem esta onda. Cobrindo um espectro que vai do moderado à esquerda, deslocaram o foco do discurso sobre a democracia para as questões do dia-a-dia dos americanos, e essa deslocação ressoou junto dos jovens, que foram às urnas com um entusiasmo, sobretudo por Mamdani, que a retórica dos valores nunca lhes tinha dado. Nenhum destes candidatos deixou de falar de democracia enquanto modelo desejável, mas fizeram-no sempre salientando a ligação direta entre os valores democráticos e as condições de vida dos eleitores. É a mesma via que Jon Ossoff, senador da Geórgia e nome que começa a circular entre os aspirantes democratas a Presidente em 2028, adotou com resultados semelhantes. Em vez de pedir aos americanos que defendam a democracia em abstrato, Ossoff denuncia uma realidade em que Donald Trump e o seu círculo enriquecem enquanto muitos americanos veem as suas condições de vida deteriorarem-se, apresentando essa disparidade como prova da necessidade de preservar instituições democráticas capazes de responsabilizar o poder. A estratégia parece estar a resultar, com Ossoff bem posicionado para disputar a reeleição num estado que Trump venceu em 2024.

Os protestos Gen-Z souberam criar uma arma perfeita para derrubar governos. Mas, para construir o futuro que se segue, ainda está muito incompleta. Reside aí a sua maior força e, simultaneamente, a sua maior fragilidade. O que já parece difícil de negar é que a geração tantas vezes acusada de desinteresse pela política poderá estar, afinal, a transformá-la mais profundamente do que qualquer outra nas últimas décadas.