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(A) :: Sem compreender a Galiza, não é possível compreender Portugal

Sem compreender a Galiza, não é possível compreender Portugal

A Galiza medieval deu origem à matriz de Portugal. Mas o que acontece quando essa matriz ganha vida novamente em 2026?

Manuel Peres Alonso
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Uma experiência pessoal que suscitou uma questão histórica

Há cerca de quinze anos, participei em missões de engenharia da Universidade de Lisboa no Instituto de Física da Universidade de São Paulo, no Brasil. Nos fins de semana, explorava a cidade a pé. Numa capela neoclássica na Alameda Rio Claro, a Capela de Santa Luzia, encontrei uma placa dedicada aos jesuítas que deram a vida para evangelizar aquelas terras.

O que mais me impressionou não foi a citação exata, já desvanecida pelo tempo, mas sim a intenção por trás dela: homens e mulheres que renunciaram a tudo — riqueza, segurança, vida familiar — movidos apenas por uma fé profunda. Não por lucro, nem por glória política, nem por carreira. Apenas pela convicção de que certos valores mereciam ser transmitidos, custasse o que custasse.

Naquele momento, compreendi algo que a história medieval confirma: não é a verdade das relíquias que importa, mas sim a verdade da fé que move as pessoas geração após geração.

Porque escrevo sobre Santiago, a Galiza e Portugal

Não sou historiador. Sou alguém que nasceu em Espanha e, desde jovem, tenta compreender Portugal. Li Herculano com fascínio e assisti a conferências de historiadores contemporâneos, mas o que moldou esta reflexão foi outra coisa: sou descendente de galegos que se estabeleceram em Portugal e sempre me intrigaram as semelhanças profundas entre galegos e portugueses.
A lenda de Santiago surgiu-me primeiro como uma brincadeira: “De que cor é o cavalo branco de Santiago?” — mas logo percebi que escondia algo mais profundo.
Hoje em dia, a lenda está quase esquecida, mas permanece viva em Santiago de Compostela, capital política e religiosa da Galiza, onde as tradições cristãs coexistem com movimentos políticos de direita e de esquerda, e onde Santiago continua a ser o padroeiro das Forças Armadas espanholas. Em Portugal, existe a Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, atualmente dedicada ao mérito científico, literário e artístico, mas com raízes na Reconquista.

A Galiza contemporânea (2026): Identidade, cultura e desafios geopolíticos

A Galiza do século XXI é um espaço de tensões criativas. Esta região foi marcada por vários movimentos que deixaram uma marca profunda na sua contemporaneidade.

A reintegração linguística e cultural ganhou força com o reintegracionismo galego, movimento que defende a unificação da língua galega com o português. A celebração anual do “Dia das Letras Galegas”, a 17 de maio, em Compostela, transformou-se num importante evento de afirmação cultural. Este movimento não é apenas linguístico, mas também uma tentativa de reivindicar uma identidade partilhada com Portugal, reafirmando laços que vão para além da geografia, estendendo-se à história.

A Galiza tornou-se palco de conflitos industriais entre o desenvolvimento económico e a preservação ambiental, como na construção da fábrica de celulose e fibras têxteis da empresa portuguesa ALTRI em Lugo, que desencadeou manifestações populares em defesa do ambiente. Este conflito ilustra uma dinâmica complexa em que as relações económicas entre Portugal e a Galiza entram em conflito direto com identidades locais.

Integração infraestrutural ibérica: a 2 de julho de 2026, Portugal e Espanha inauguraram uma ligação elétrica de muito alta tensão entre o Minho português e a Galiza. Esta infraestrutura permite a troca de energia com uma capacidade indicativa de até 2000 MW, com previsões de expansão para 3000 MW. A Galiza tornou-se uma porta fundamental para o abastecimento energético de Portugal, particularmente em cenários de abundante produção hídrica. Esta integração reflete uma realidade ibérica que vai muito além da diplomacia.

Comércio bilateral luso-galego: embora o volume de comércio entre Portugal e a Galiza, registado entre 2025 e 2026, não esteja oficialmente separado das estatísticas gerais Portugal-Espanha, representa uma dinâmica crescente de trocas de bens, serviços e energia. A Galiza, enquanto centro estratégico de produção agroindustrial, energética e de transformação têxtil, constitui um parceiro comercial cada vez mais importante para Portugal.

Juntar as peças: a lenda, a história contemporânea e a identidade portuguesa

Compreender a história da lenda de Santiago é compreender parte da matriz que moldou Portugal. E também compreender a Galiza de hoje, com os seus conflitos ambientais, as suas aspirações linguísticas, a sua integração energética e a sua dinâmica comercial, mas também é compreender a realidade do Portugal do século XXI: um país que partilha não apenas história com a Galiza, mas também dilemas presentes.

O padre Gonçalo Portocarrero questiona se São Tiago está realmente sepultado em Compostela. A questão é legítima. No entanto, há outra questão mais decisiva: se a relíquia é incerta, por que razão é que a lenda moldou reinos inteiros?

A resposta começa na Galiza. A tradição jacobeia nasceu num lugar, num tempo e num povo específicos. A partir de cerca de 830, na Galiza e nas Astúrias, consolidou-se a narrativa segundo a qual Santiago protegia os cristãos e marchava com as tropas num cavalo branco, constituindo uma resposta espiritual à expansão muçulmana iniciada em 711.

A lenda é, portanto, galega na sua origem e só depois se espalhou pela Península Ibérica através dos caminhos de peregrinação com epicentro em Compostela.

Antes do século XII, Portugal não existia. O Condado Portucalense fazia parte do Reino de Leão, governado por famílias nobres originárias do norte da Galiza. A “proteção de Santiago” era, originalmente, uma interpretação espiritual galego-asturiana.

Portugal foi repovoado por cristãos que veneravam Santiago

O território que viria a constituir Portugal não foi conquistado por cristãos europeus genéricos. Foi repovoado por populações galegas e asturianas que desciam do norte e que trouxeram consigo três elementos inseparáveis que moldariam o futuro reino.

O primeiro foi a língua. Portugal nasceu a falar galego-português, a língua da nobreza, dos cavaleiros, dos religiosos e do povo comum. Quando se tornou reino, em 1143, já falava essa língua, que não era latim nem árabe, mas sim uma evolução direta da fala galega.

O segundo elemento foi a fé. O culto de Santiago era vivido, não teórico. Os galegos e os asturianos que repovoaram Braga, o Porto, Bragança, Viseu e Coimbra traziam consigo uma devoção profunda ao apóstolo. Essa fé justificava correr riscos, participar em campanhas prolongadas e enfrentar repovoamentos difíceis. Não se tratava de um ornamento espiritual, mas sim de um motor histórico.

O terceiro elemento foi a continuidade populacional. Estudos genéticos mostram uma forte proximidade entre portugueses e galegos. O repovoamento não consistiu numa invasão de estrangeiros, mas sim na expansão de comunidades aparentadas para territórios perdidos. Quando Teresa de Leão, filha de Afonso VI e de Ximena Moniz, de origem galega, casou com Henrique de Lorena e teve Afonso Henriques, uniu-se a linhagem galego-leonesa à fé jacobeia. Desta união nasceu o impulso político e espiritual que permitiu a formação de Portugal.

Os Caminhos de Santiago constituíram uma infraestrutura de repovoamento

Os Caminhos de Santiago, incluindo o Caminho Português, eram vias de mobilidade e de contacto cultural. Peregrinos vindos da Galiza e das Astúrias percorriam estas rotas com destino ou origem em Compostela. Ao longo do caminho — Porto, Braga, Coimbra e Santarém — muitos acabavam por se fixar. Fundavam famílias. Levavam a sua língua, a sua fé e os seus costumes. Repovoavam.

A lenda espalhava-se através de encontros reais: refeições partilhadas, hospedarias comuns e capelas partilhadas. Foi graças aos peregrinos que a tradição jacobeia se espalhou pela costa atlântica.

Se a questão for “São Tiago está em Compostela?”, a resposta histórica será, provavelmente, “não”. No entanto, a questão pertinente é: “A fé em Santiago produziu efeitos históricos reais?” A resposta é sim.

Essa fé sustentou repovoamentos sistemáticos, deu coesão ao território emergente, motivou campanhas prolongadas e proporcionou uma narrativa espiritual partilhada. Séculos depois, os jesuítas no Brasil foram movidos pela mesma força interior. Não em Santiago, mas em Cristo. A fé, quando genuína, transforma-se em história.

Para compreender o papel de Santiago, é necessário reconhecer a matriz galega que moldou Portugal. Reconhecer esta herança não diminui Portugal, antes o esclarece. A fundação de 1143 não apaga a origem, mas sim lhe confere uma forma política.

Conclusão: Portugal e o dever de conhecer o Norte peninsular

Ao questionar se São Tiago se encontra em Compostela, o Padre Gonçalo Portocarrero coloca uma questão legítima, embora secundária. A verdade histórica sobre relíquias é discutível. O que importa é a fé que move as pessoas e que, ao fazê-lo, move a História.

Portugal nasce com uma matriz galega, linguística, populacional e espiritual, e afirma-se como reino independente porque essa matriz lhe conferiu a força necessária para existir.

E aqui está o ponto final: Portugal e os portugueses têm o dever de conhecer melhor a Galiza de hoje. Não como um gesto político, mas como um gesto de identidade. A Galiza não é um território estranho, mas sim um território de origem. Visitar as suas cidades, ouvir a sua língua, percorrer os seus caminhos, observar o eclipse total que aí ocorrerá: tudo isto é, de certa forma, conhecer melhor Portugal.

Porque parte da nossa história, da nossa cultura e até da nossa forma de estar nasceu na Galiza medieval — e continua a ser relevante na Galiza do século XXI.