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Genebra e a coragem do diálogo num mundo à beira do precipício

Num tempo em que a política recompensa frequentemente o confronto, a cidade mantém uma aposta menos visível: a de que ouvir o adversário pode ser mais útil do que derrotá-lo.

Sancha Trindade
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Há cidades que concentram poder político. Outras concentram riqueza. Genebra construiu a sua relevância em torno de uma ideia mais discreta e, talvez por isso, mais difícil de preservar: a convicção de que até os problemas mais complexos devem começar por uma conversa.

Na minha passagem recente por esta cidade suíça, visitei, a convite das Nações Unidas, o novo Portail des Nations, o Centro de Visitantes das Nações Unidas em Genebra. A experiência deixou uma impressão clara: num momento em que a política internacional parece cada vez mais dominada pela competição, pela desconfiança e pela lógica do ego, continua a existir uma comunidade de pessoas e instituições empenhadas em defender uma ideia aparentemente simples — a de que o diálogo não é um sinal de fraqueza, mas uma condição de sobrevivência da humanidade.

A mensagem surge num período particularmente difícil: o sistema internacional atravessa uma fase de grande instabilidade, as rivalidades entre grandes potências intensificaram-se, os conflitos armados multiplicam-se, a desinformação tornou-se uma ferramenta política e os movimentos populistas encontram no medo uma forma eficaz de mobilização. Ao mesmo tempo, a cooperação internacional, construída ao longo de décadas, é hoje frequentemente apresentada como um obstáculo, quando muitas vezes é precisamente o mecanismo que impede problemas comuns de se transformarem em crises maiores.

A possibilidade de uma escalada global, antes confinada aos cenários mais extremos, voltou ao centro da discussão internacional. A palavra “apocalipse” deixou de ser apenas uma metáfora distante e passou a fazer parte do imaginário político contemporâneo. E é neste contexto que Genebra assume uma importância particular: a cidade não tem o peso estratégico de Washington, a dimensão económica de Pequim ou a influência institucional de Bruxelas. A sua força reside noutra dimensão. Genebra é um dos poucos lugares no mundo onde países com interesses incompatíveis continuam a aceitar sentar-se à mesma mesa.

Num tempo em que a política recompensa frequentemente o confronto, a cidade mantém uma aposta menos visível: a de que ouvir o adversário pode ser mais útil do que derrotá-lo.

O novo Portail des Nations traduz essa identidade. Mais do que um centro de visitantes, é uma tentativa de tornar compreensível aquilo que normalmente permanece invisível: os mecanismos lentos da diplomacia, os processos de negociação e a complexa arquitectura institucional que sustenta a cooperação internacional.

A experiência imersiva “Together”, elemento central da visita, revela uma realidade que muitas vezes desaparece do debate público. A diplomacia não é uma sequência de declarações formais nem uma sucessão de gestos simbólicos. É um trabalho paciente, frequentemente frustrante, onde diferentes países procuram encontrar pontos de contacto em temas que afectam milhões de pessoas: alterações climáticas, saúde global, migrações, direitos humanos, segurança alimentar ou ajuda humanitária. O resultado raramente é perfeito. Mas a alternativa costuma ser pior.

Esta é talvez uma das mensagens mais difíceis de transmitir numa época marcada pela velocidade e pela simplificação. Esperamos respostas imediatas para problemas que demoraram décadas a formar-se. Confundimos firmeza com inflexibilidade e negociação com cedência. Esquecemos que muitos dos maiores progressos políticos e sociais nasceram não da imposição de uma visão única, mas da capacidade de construir acordos possíveis entre posições diferentes.

Também por isso merece atenção a decisão de Ivan Pictet, responsável pelo investimento que tornou este projecto possível. O novo centro tem cerca de 3.500 m² de área total (incluindo espaços interiores e exteriores) e foi pensado para receber cerca de 180.000 a 250.000 visitantes por ano. A escolha foi significativa: em vez de criar um monumento, criou uma ferramenta de literacia democrática.

Num momento em que as instituições multilaterais são frequentemente criticadas sem serem verdadeiramente compreendidas, explicar como funcionam tornou-se uma forma de defender a própria ideia de cooperação. A confiança pública não nasce apenas de discursos sobre valores; nasce também do conhecimento sobre os processos que os tornam possíveis.

No final da visita, torna-se evidente que o propósito deste espaço não é simplesmente promover as Nações Unidas. É defender um princípio mais amplo: os problemas globais exigem respostas que ultrapassem fronteiras. Pode parecer uma conclusão óbvia, mas a política internacional actual mostra que está longe de ser consensual. Há quem continue a acreditar que os desafios do século XXI podem ser enfrentados através do isolamento, da competição permanente ou da lógica dos blocos. A realidade sugere o contrário. As alterações climáticas, as pandemias, as migrações e as crises humanitárias não respeitam fronteiras nacionais.

Quando António Guterres descreveu este centro como “uma porta para a paz, uma ponte para a justiça e para a oportunidade”, não estava apenas a inaugurar um edifício. Estava a recordar uma ideia essencial: a paz não é uma condição natural das sociedades. É uma construção permanente, dependente de instituições, regras e, sobretudo, da disponibilidade para continuar a falar.

Talvez essa seja a principal lição de Genebra. Num mundo cada vez mais confortável com a polarização e com a linguagem do confronto, insistir no diálogo pode parecer uma escolha ingénua. Mas talvez seja precisamente o contrário. Exige disciplina, paciência e uma visão de longo prazo — três qualidades raras na política contemporânea.

As guerras não começam quando se dispara o primeiro míssil. Começam muito antes, quando o diálogo deixa de ser uma prioridade. Talvez por isso Genebra continue a lembrar-nos que conversar com diplomacia continua a ser o acto político mais corajoso do nosso tempo.