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O relógio do poder

Luís Neves fez a sua escolha. Decidiu continuar. Luís Montenegro fez a dele. Decidiu mantê-lo. A partir desse momento, o problema deixou de ser apenas de um ministro.

Hugo Oliveira
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O poder tem um efeito curioso.

Ao fim de algum tempo, há quem comece a acreditar que também controla o relógio.

Não falo da agenda.

Essa organiza-a quem governa.

Falo do momento em que começam a ser devidas explicações.

Esse momento nunca pertence ao governante.

Foi isso que pensei quando ouvi Luís Neves dizer que falaria “no seu tempo”.

Não sei qual será o desfecho da investigação. Nem me compete antecipá-lo. Também não acredito em condenações na praça pública. Um Estado de direito mede-se, precisamente, pela capacidade de resistir à tentação de transformar suspeitas em sentenças.

Mas é precisamente por acreditar nisso que recuso confundir justiça com política.

A Justiça pergunta se alguém cometeu um crime.

A política faz outra pergunta.

Continua esta pessoa a reunir as condições para exercer o cargo que ocupa?

As respostas podem coincidir.

Também podem não coincidir.

É essa diferença que protege, ao mesmo tempo, a presunção de inocência e a credibilidade das instituições.

Durante demasiado tempo habituámo-nos à ideia de que a responsabilidade política só existe quando a responsabilidade criminal está demonstrada.

Mas nunca foi esse o princípio que deve orientar a vida democrática.

Um ministro não permanece em funções porque ainda não foi condenado.

Permanece enquanto conservar a confiança política indispensável para representar o Estado.

E essa confiança não depende apenas da lei.

Depende também da autoridade.

No Ministério da Administração Interna isso é particularmente evidente. Quem tutela as forças de segurança não representa apenas um Governo. Representa uma das expressões mais visíveis da autoridade do Estado.

A autoridade vive tanto da confiança como da lei.

Constrói-se lentamente.

Mas pode começar a perder-se muito depressa.

Às vezes basta uma decisão.

Outras vezes basta uma frase.

Na minha opinião, foi isso que aconteceu.

O problema nunca foi Luís Neves dizer que responderia.

O problema foi dar a entender que responderia quando entendesse.

Só que esse tempo já não lhe pertence.

Pertence ao país.

Se entendia que precisava do seu tempo, tinha uma alternativa legítima: apresentar a demissão.

A partir desse momento, deixava de falar como ministro e passava a falar como cidadão.

Aí, sim, o tempo voltava a ser dele.

Por isso, considero que Luís Neves deveria ter apresentado a demissão.

Não porque o considere culpado. Não porque a investigação esteja concluída. Mas porque há momentos em que proteger a autoridade de uma instituição é mais importante do que preservar um lugar no Governo.

Não o fez.

Cabia então ao primeiro-ministro decidir.

Na minha opinião, Luís Montenegro deveria tê-lo demitido.

Também não o fez.

Luís Neves fez a sua escolha.

Decidiu continuar.

Luís Montenegro fez a dele.

Decidiu mantê-lo.

A partir desse momento, o problema deixou de ser apenas de um ministro.

Passou a ser uma responsabilidade política do primeiro-ministro.