O poder tem um efeito curioso.
Ao fim de algum tempo, há quem comece a acreditar que também controla o relógio.
Não falo da agenda.
Essa organiza-a quem governa.
Falo do momento em que começam a ser devidas explicações.
Esse momento nunca pertence ao governante.
Foi isso que pensei quando ouvi Luís Neves dizer que falaria “no seu tempo”.
Não sei qual será o desfecho da investigação. Nem me compete antecipá-lo. Também não acredito em condenações na praça pública. Um Estado de direito mede-se, precisamente, pela capacidade de resistir à tentação de transformar suspeitas em sentenças.
Mas é precisamente por acreditar nisso que recuso confundir justiça com política.
A Justiça pergunta se alguém cometeu um crime.
A política faz outra pergunta.
Continua esta pessoa a reunir as condições para exercer o cargo que ocupa?
As respostas podem coincidir.
Também podem não coincidir.
É essa diferença que protege, ao mesmo tempo, a presunção de inocência e a credibilidade das instituições.
Durante demasiado tempo habituámo-nos à ideia de que a responsabilidade política só existe quando a responsabilidade criminal está demonstrada.
Mas nunca foi esse o princípio que deve orientar a vida democrática.
Um ministro não permanece em funções porque ainda não foi condenado.
Permanece enquanto conservar a confiança política indispensável para representar o Estado.
E essa confiança não depende apenas da lei.
Depende também da autoridade.
No Ministério da Administração Interna isso é particularmente evidente. Quem tutela as forças de segurança não representa apenas um Governo. Representa uma das expressões mais visíveis da autoridade do Estado.
A autoridade vive tanto da confiança como da lei.
Constrói-se lentamente.
Mas pode começar a perder-se muito depressa.
Às vezes basta uma decisão.
Outras vezes basta uma frase.
Na minha opinião, foi isso que aconteceu.
O problema nunca foi Luís Neves dizer que responderia.
O problema foi dar a entender que responderia quando entendesse.
Só que esse tempo já não lhe pertence.
Pertence ao país.
Se entendia que precisava do seu tempo, tinha uma alternativa legítima: apresentar a demissão.
A partir desse momento, deixava de falar como ministro e passava a falar como cidadão.
Aí, sim, o tempo voltava a ser dele.
Por isso, considero que Luís Neves deveria ter apresentado a demissão.
Não porque o considere culpado. Não porque a investigação esteja concluída. Mas porque há momentos em que proteger a autoridade de uma instituição é mais importante do que preservar um lugar no Governo.
Não o fez.
Cabia então ao primeiro-ministro decidir.
Na minha opinião, Luís Montenegro deveria tê-lo demitido.
Também não o fez.
Luís Neves fez a sua escolha.
Decidiu continuar.
Luís Montenegro fez a dele.
Decidiu mantê-lo.
A partir desse momento, o problema deixou de ser apenas de um ministro.
Passou a ser uma responsabilidade política do primeiro-ministro.