“Acho que está na hora de encontrares uma namorada norte-americana. O casamento entre pessoas do mesmo sexo será o caminho mais rápido para o green card. De longe.” Este e-mail está nos ficheiros do caso Epstein. Foi enviado a 15 de março de 2013 pelo empresário norte-americano a alguém que conhecia muito bem: Karyna Shuliak. A jovem de 24 anos — natural de uma pequena aldeia dos subúrbios da capital bielorrussa, Minsk — queria permanecer nos Estados Unidos da América (EUA) por mais tempo. O seu visto de estudante já tinha expirado.
A solução encontrada por Jeffrey Epstein consistia em casar Karyna Shuliak — com quem já se teria envolvido na altura — com uma mulher no estado de Nova Iorque, um dos primeiros a permitir o casamento entre pessoas do mesmo sexo nos EUA. A bielorrussa aceitou essa solução. Casou com uma assistente do empresário norte-americano, de 30 anos, natural do Minnesota, a 9 de outubro de 2013. O certificado de casamento entre as duas mulheres, assim como uma fotografia da oficialização da cerimónia, é também um dos milhões de documentos divulgados em fevereiro de 2026 pelo Departamento de Justiça.
Karyna Shuliak pôde permanecer nos Estados Unidos e até obteve cidadania norte-americana anos depois. No país, tornou-se a mulher com quem Jeffrey Epstein passava mais tempo. “Ela é a minha favorita atualmente”, chegou a confessar, num e-mail, o magnata que montou uma rede sexual em abril de 2012. Era uma espécie de parceira informal, mas o empresário mantinha em simultâneo relações sexuais com outras mulheres. A jovem queixou-se uma vez das “coisas sujas” que ele fazia, mas acabou por permanecer ao seu lado durante anos, enquanto tentava estabelecer a sua vida nos EUA.

Desde muito jovem, a bielorrussa desejava ser dentista. Jeffrey Epstein entendeu que isso talvez fosse a porta de entrada para se aproximar de Karyna Shuliak. Pagou-lhe os estudos na prestigiada Universidade Columbia. E a mulher tornou-se efetivamente dentista, ainda que apenas tenha obtido a licença para exercer em Nova Iorque — onde vive — há pouco tempo, anos após a morte do empresário. Antes de os ficheiros serem divulgados, trabalhava numa clínica em Brooklyn. Despediu-se em fevereiro de 2026 e ninguém sabe dela. Contudo, pode no futuro herdar dezenas de milhões de dólares.
A jovem que nasceu numa aldeia bielorrussa deu negas, mas acabou seduzida por Epstein
Foi numa pequena aldeia nos subúrbios de Minsk que Karyna Shuliak nasceu a 31 de maio de 1989. Segundo conta o New York Times, tentou ser dentista na Bielorrússia, inspirada pelos problemas de saúde oral que afetavam a sua família e a população bielorrussa. Estudou na capital do país para seguir esse sonho, mas interrompeu os estudos para ir para Nova Iorque aos 20 anos. O objetivo? Estudar inglês em Manhattan. Ao mesmo tempo, trabalhava como assistente de medicina dentária a ganhar 15 dólares (cerca de 13 euros) por hora, enquanto tentava arranjar outros empregos.
Nos primeiros tempos após a chegada aos Estados Unidos, a cidadã bielorrussa — que entrou nos EUA com visto de estudante — tentava encontrar forma de continuar a sua formação para se tornar dentista, ao mesmo tempo que trabalhava. Nova Iorque é uma cidade cara, sendo que Karyna Shuliak não vinha de uma família rica e a sua rede de apoio nos Estados Unidos era praticamente inexistente.

A sua vida marcada pela precariedade em Nova Iorque muda quando conhece uma mulher natural da Sibéria, na Rússia. Era próxima do magnata e costumava recrutar jovens para a sua rede. Assim, apresentou Karyna Shuliak a Jeffrey Epstein. Essa recrutadora aconselhou o empresário a ir “com calma” no primeiro encontro. “Ela não quer que saiba que ela trabalha numa casa de massagens. Ela vai fazer-se de inocente”, lê-se num e-mail de março de 2011.
Jeffrey Epstein terá tentado conhecê-la e terá percebido que o sonho de ser dentista era o que movia a jovem, tendo admitido que a achava atraente. No entanto, Karyna Shuliak terá recusado as ofertas do magnata. Num e-mail, a bielorrussa confessou, em 2011: “Estou contente por ter a chance de te ter conhecido e acho-te uma pessoa extraordinária, e é bom saber que ainda há pessoas no mundo que ajudam e cuidam das outras da forma como fazes.” “Estive a considerar muitas coisas e cheguei à conclusão: não posso simplesmente aceitar a tua ajuda, devido a algumas convicções que defendo.”
O motivo? Ao que tudo indica, a bielorrussa terá estudado o historial de Jeffrey Epstein — que, em 2008, já tinha sido preso por crimes sexuais com menores. “Devo dizer que li alguma informação sobre ti na internet e, mesmo que entenda que alguns detalhes podem ter sido exagerados ou não reflitam a realidade, fizeram sentir-me mal”, desabafou Karyna Shuliak. No entanto, o magnata não desistiu. E continuou com as operações de charme para que a jovem se juntasse à rede sexual.
Idas a restaurantes, à Broadway para ver espetáculos, uma viagem de helicóptero em Manhattan e até uma visita à polémica ilha privada de Jeffrey Epstein. Nos meses seguintes ao “não” da bielorrussa, Jeffrey Epstein tentou seduzi-la com dinheiro e experiências luxuosas. E os esforços parecem ter resultado. Em 2012, Karyna Shuliak deixou cair muitas das dúvidas que tinha sobre o magnata e já o descrevia como “o mais puro de todos os homens”.
Como fazia habitualmente, o magnata foi tentando convencer as jovens — principalmente aquelas sem rede de apoio — de que poderiam ter um futuro ao seu lado. Assim sendo, a partir do inverno de 2012, através dos seus contactos e prometendo uma doação de milhões à instituição, Jeffrey Epstein arranjou forma de a bielorrussa ir estudar para a Universidade Columbia. Mais: o empresário pagou integralmente as propinas da jovem ao longo dos três anos do curso e ofereceu uma viagem aos EUA à mãe de Karyna Shuliak.
Uma grande generosidade que a jovem agradeceu enfaticamente a Jeffrey Epstein num e-mail, por todo o “amor e cuidado” que lhe tinha oferecido. E não só: além de lhe financiar os estudos para ser dentista, o empresário pagava-lhe a renda num apartamento em Nova Iorque. Por esta altura, deduz-se que Karyna Shuliak já se tivesse envolvido com o magnata, embora demonstrasse algumas dúvidas sobre o seu comportamento.

Em agosto de 2012, os dois debatiam abertamente a frequência e a forma como mantinham relações sexuais. “Eu entendo que precisas de novidade, então vou usar melhor as minhas fantasias para fazer algo de que tu/nós possamos gostar, se houver alguma coisa que gostasses de experimentar”, escreveu Karyna Shuliak. A jovem manifestava também dúvidas sobre as ligações que Jeffrey Epstein mantinha com outras mulheres, admitindo que gostava de “entender” o que levava o magnata a precisar de “tanta novidade”.
De qualquer forma, apesar de a incomodar e sentir alguns ciúmes, Shuliak nunca se opôs às práticas de Jeffrey Epstein para outras mulheres. A bielorrussa estaria consciente da dimensão dos segredos incómodos que o magnata escondia. Porém, preferia que ele lhos escondesse: “Se não é pedir muito, por favor desfruta, mas mantém isso longe de mim. Eu vou ficar contigo, não importa o que aconteça, desde que estejas feliz. Amo-te. Estou muito grata por tudo o que fizeste por mim. Desfruta da ilha.”
Esta conveniência deu os seus frutos. Em 2013, o visto de estudante da bielorrussa já tinha expirado e era necessário arranjar uma solução, correndo o risco de ser deportada para o seu país de origem — havendo uma data já estipulada para ser ouvida pelos serviços de imigração. O casamento com uma assistente do magnata foi o atalho que Jeffrey Epstein encontrou para facilitar o processo. E resultou: as autoridades deixaram cair a possível deportação de Karyna Shuliak, que obteve, meses mais tarde, o green card, passando a ser residente legal nos EUA.

Apesar disso, e de se manter muito próxima de Jeffrey Epstein, Karyna Shuliak simulava ter uma vida ao lado da assistente — cujo advogado, em declarações ao New York Times, não confirmou nem negou a história, limitando-se a dizer: “A ninguém era permitido negar ou desobedecer a Jeffrey Epstein.” As duas mulheres partilhavam um apartamento perto de Central Park, mantinham uma conta bancária conjunta no Deutsche Bank e viajavam frequentemente juntas para destinos como o Reino Unido ou o Japão.
O casamento durou o tempo estritamente necessário. Em 2018, a bielorrussa que chegara aos EUA aos 20 anos obteve a cidadania norte-americana. No ano seguinte, divorciou-se — afinal de contas, já não era preciso fingir. De qualquer forma, Karyna Shuliak destacou-se entre todas as mulheres com quem Jeffrey Epstein se relacionou: parece ter encontrado o seu lugar ao lado do magnata, que passou a confiar nela quase de olhos fechados.

Namorada? Como Karyna Shuliak se tornou a mulher em que Epstein confiou
Nos últimos anos da vida de Jeffrey Epstein, Karyna Shuliak deixara de ser apenas mais uma jovem no círculo do magnata e da sua cúmplice, Ghislaine Maxwell. A bielorrussa assumiu o papel de namorada do empresário, mantendo com ele uma relação aparentemente estável: vivia na sua mansão em Nova Iorque e acompanhava-o nas suas viagens. Os dois até tinham um gato — chamado Blueberry.
Enquanto isso, a bielorrussa não desistiu do seu sonho de se tornar dentista. Não terá exercido a profissão até à morte de Jeffrey Epstein. Em vez disso, Karyna Shuliak organizava a vida e os negócios do magnata. Dava ordens aos motoristas, era responsável por gerir a mansão — incluindo as equipas de limpeza — e planeava as viagens. Embora o seu nome surja em vários documentos e trocas de e-mails do caso, a mulher nunca foi acusada de qualquer crime nem indiciada por envolvimento nas atividades ilícitas da rede sexual do caso Epstein.
Em meados de junho de 2019, os dois viajaram até Paris, cidade onde o magnata possuía um apartamento — cujo mordomo era um brasileiro casado com uma mulher de nacionalidade portuguesa. A 6 de julho desse ano, Jeffrey Epstein aterrou nos Estados Unidos, acabando por ser detido no aeroporto em Nova Jérsia, após ter sido aberto um inquérito em redor da sua rede de tráfico sexual. Karyna Shuliak ficou na Europa, mas viajou pouco depois para Nova Iorque para o apoiar — sem saber que seriam as últimas semanas de vida do parceiro.
https://observador.pt/2026/02/04/maria-a-companheira-portuguesa-do-ex-mordomo-de-epstein-em-paris-que-questiona-o-suicidio-do-milionario-na-prisao/
Foi a sua derradeira chamada. Na noite de 9 de agosto de 2019, Jeffrey Epstein falou ao telefone com a jovem bielorrussa a partir da prisão. Disse-lhe que o processo judicial iria ser longo, aconselhou-a a procurar outro local para ficar e pediu-lhe que fosse “forte”. No dia seguinte, a 10 de agosto, o empresário foi encontrado morto na sua cela. Ter-se-á suicidado.
A herança e o futuro como dentista da bielorrussa
Antes de morrer, Jeffrey Epstein alterou o seu testamento. Grande parte da sua fortuna de 600 milhões de dólares (aproximadamente 526 milhões de euros) deveria ficar para Karyna Shuliak, o que prova a intensidade da relação. A mulher bielorrussa devia ficar com aproximadamente 10 milhões de dólares (cerca de 8,8 milhões de euros) depois dos pagamentos às vítimas e a outros herdeiros. Além disso, devia herdar um grande e caro anel de diamantes que lhe foi oferecido pelo magnata — que provaria que, supostamente, iam casar num futuro próximo.
Tendo em conta os problemas judiciais, não é claro que a mulher bielorrussa receba alguma verba. Neste sentido, Karyna Shuliak foi capaz de refazer a sua vida, na sequência da morte do empresário. O velho sonho de ser dentista voltou e, através das suas redes de contactos, a mulher tirou uma pós-graduação na Universidade Columbia, que lhe permitiu obter uma licença para exercer a profissão no estado de Nova Iorque.

Em maio de 2025, Karyna Shuliak terminou a sua pós-graduação e, meses mais tarde, obteve a licença para exercer Medicina Dentária em Nova Iorque. Com 37 anos, a bielorrussa foi trabalhar em part-time numa clínica em Brooklyn. Manteve-se discreta, sem nunca revelar grandes informações sobre a sua vida. Ninguém conhecia o seu historial — nem as ligações a um dos homens mais controversos dos Estados Unidos.
Mas o passado arranjou forma de a encontrar. Em fevereiro de 2026, milhões de ficheiros foram divulgados publicamente: fotografias, e-mails, contas bancárias e informações que comprovavam todas as ligações a Jeffrey Epstein. Segundo o New York Times, em meados desse mês, a mulher ligou para a clínica e disse que estava doente. Nunca mais voltou ao local de trabalho. Desde então, não se voltou a saber o paradeiro da possível herdeira, que guarda muitos segredos do magnata.