Nada diria que, aos 25 anos, Rislene se tornasse uma artista profissional, premiada e em franca ascensão no mercado lusófono. Mas a vida — e a música — é feita destes acasos felizes, das pequenas probabilidades que se transformam em percursos e carreiras palpáveis. O álbum de estreia, Poi Beat, foi editado em junho e é o primeiro passo de uma promissora trajetória que já se adivinha longa.
Nascida em Paris, a capital francesa, filha de pais cabo-verdianos que haviam emigrado da cidade de Assomada, na ilha de Santiago, Rislene Semedo sempre gostou de cantar e via na escrita uma forma de partilhar os seus desabafos. Fruto de um mundo cada vez mais globalizado — e que, por isso mesmo, num movimento aparentemente contraditório, permite uma maior conexão com as raízes distantes — Rislene cresceu em França, mas de auscultadores ligados ao rap crioulo que se fazia na vibrante diáspora em Portugal.
Né Jah e Ghoya eram das principais referências, numa era em que o género se disseminava a olhos vistos com a ascensão do YouTube — no início da década de 2010 — e a democratização dos meios de produção: em poucos anos, tornou-se infinitamente mais acessível e barato produzir e gravar um tema com recursos caseiros, bem como os respetivos videoclipes de rua, que proliferaram nesta época.
Musicalmente, esta geração do rap crioulo — onde também se incluíam Loreta, Landim, Abrov Souldjah, Babydog e outros, sobretudo concentrados na Linha de Sintra, mas não só — apostava num som de tons boom bap particularmente duro e soturno, frequentemente com samples dramáticos de violinos, bases instrumentais que serviam de cama sonora às rimas que descreviam a realidade dura do que é viver numa periferia, mais social do que geográfica, em contextos de pobreza, exclusão social e marginalidade.
https://open.spotify.com/intl-pt/album/3Rd8aMCTTDt8n47N2Bcff5?si=88wmsX8kTQGJH7L52ZeVRA
“Cresci a ouvir boom bap, quando tinha vontade de escrever, era sempre um beat assim que eu punha”, conta Rislene ao Observador, em crioulo cabo-verdiano, uma vez que não domina o português. Ainda assim, chegou a experimentar outro tipo de instrumentais para soltar a sua voz e letras, entre as quais batidas de kizomba. “Foi numa altura em que decidi escrever letras e experimentei uma série de estilos de beats, mas não me conseguia encaixar. Identifiquei-me com o rap. Foi a música mais fácil para conseguir passar a minha mensagem.”
Rislene tinha algumas faixas soltas publicadas online, de maneira amadora e informal, que acabaram por chegar a Diogo “Gazella” Carvalho, cineasta, encenador e artista visual do coletivo Unidigrazz, também ele com origens em Cabo Verde e com uma passagem por França. Seria esse o início da coincidência feliz que permitiu a Rislene ter hoje um disco editado e uma carreira cada vez mais sólida.
Diogo “Gazella” Carvalho escolheu um desses temas de Rislene para passar no final de uma peça de teatro que estava a encenar. Na audiência estava Ana Moura, que ficou encantada com aquela voz: a rouquidão característica da jovem artista é magnética e traz uma densidade para as canções que entoa, sobretudo por abordar temáticas sentidas de luta, resiliência, superação, por usar a música para purgar as suas dores. Rislene pode ter apenas 25 anos, mas é um quarto de século vivido — é mãe de três filhos, largou a escola cedo para começar a trabalhar e as suas músicas são também um reflexo da experiência da diáspora cabo-verdiana na Europa, nessa matriz tão expressa no cancioneiro nacional onde se cruzam a Sodade, os limbos existenciais e as tensões identitárias, de tantos milhares e milhares de pessoas que são profundamente cabo-verdianas sem nunca terem visitado o arquipélago, que não se sentem em casa nos únicos países que de facto conhecem, com todas as inquietações que isso implica.

Ana Moura acabou por partilhar aquela descoberta com o seu manager, o também criativo Gonçalo Afonso, ligado à editora Sony Music, que por sua vez fez a mensagem passar na hierarquia da multinacional em Portugal. Assim que o responsável máximo da editora no país, Bernardo Miranda, ouviu a voz de Rislene, quis de imediato marcar uma reunião com a cantora.
Rislene era uma cabo-verdiana nascida e criada em Paris, sem qualquer ligação específica a Portugal, que tinha experiência a trabalhar como cuidadora de pessoas deficientes na capital francesa mas também no bar do pai — um local com música ao vivo todos os fins de semana, com festas regulares onde se ouvia funaná e a variante mais acelerada do cotxi pó, e onde Rislene também foi cantando. “O bar do meu pai acrescentou muita música à minha vida”, revela.
Quando recebeu um contacto da Sony Music Portugal, Rislene sentiu-se “chocada”, até porque nem percebeu o que estava a acontecer. “Eu nem sabia o que era a Sony, para mim era só a marca das televisões. Só depois é que me explicaram e comecei a perceber a grandeza da coisa, que era uma coisa séria. E até aí nunca tinha valorizado a minha voz, foi quando comecei a ganhar mais confiança.”
Assinaram rapidamente um contrato e começaram a trabalhar em conjunto, a definir o que seria a artista Rislene e o seu projeto. As viagens entre Lisboa e Paris tornaram-se frequentes, mesmo que nem sempre fosse fácil conciliar com a vida quotidiana e familiar na capital francesa. “Com as crianças é muito mais complicado, mas também são eles que te dão força para continuar.”
https://www.youtube.com/watch?v=HdPjwZc2W7o
Rislene passou a trabalhar com três dos mais influentes compositores e produtores da música urbana em Portugal, a dupla Ariel & Migz e Charlie Beats, o núcleo duro em torno do som de Richie Campbell — que também participa no disco Poi Beat, a par do rapper Apollo G — e da agência e subeditora Bridgetown, onde Bernardo Miranda era manager antes de assumir a liderança da Sony Music Portugal.
“Eu estava numa de boom bap, boom bap, boom bap. Mas disseram-me que, com a minha voz, poderia experimentar isto ou aquilo, fazer diferentes coisas”, conta. “Acabei de deixar um pouco o boom bap de lado, mas a minha raiz está sempre lá se ouvires a minha música.”
O processo em estúdio foi um trabalho de depuração de uma identidade artística. O rap era a origem e a base, mas permitiram-se navegar por diferentes sonoridades, com uma linguagem moderna que integrou elementos sonoros cabo-verdianos, percussões trap e uma voz que, embora rouca, pôde explorar toda a melodia e harmonias que contém em si, construindo um refinado R&B contemporâneo de aroma crioulo como ainda não tínhamos ouvido até aqui. “Testámos muitas coisas, houve muitos trabalhos antes de saírem os melhores. Fazíamos, ficávamos a ouvir um ou dois meses e, se me cansasse, era porque faltava alguma coisa e deixava aquilo de lado.”

As letras, integralmente escritas por Rislene, foram aparecendo naturalmente. São as suas histórias e adversidades, e das pessoas em seu redor, as confidências transformadas em canções, dos desafios da vida familiar à violência doméstica, passando pelo luto e pela morte. “Descreve as minhas dores, aquilo com que me chateio. Foi simplesmente o que me veio à cabeça”, atira de forma descomprometida. São temas universais que, por isso, também terão encontrado facilmente um público.
“Não esperava este impacto”, admite. “Estava nos transportes e alguém a passar a minha música, a dizer que a minha mensagem tira as pessoas do fundo do poço. Sempre achei que cantava bem, mas não tinha esta noção de que a minha voz era especial. Foi importante as pessoas começarem a falar comigo e a dizerem-me que se identificavam, são histórias pelas quais outras pessoas também passaram.”
Se Cesária Évora, nome mais importante na história da música cabo-verdiana, que morreu em 2011, reencarnasse numa jovem artista em 2026, provavelmente iríamos ouvir algo como Rislene — uma voz vivida que canta os seus traumas e problemas, uma mulher resiliente com uma ligação a Paris, uma melancolia cabo-verdiana que hoje não se reflete necessariamente na morna da terra, mas na música moderna erguida nos subúrbios europeus onde a diáspora resiste. Rislene é uma diva não de pés descalços, mas de casaco desportivo, negro e cintilante, a cobrir-lhe parcialmente o rosto na capa do disco, uma imagem que tanto retrata as subculturas urbanas do presente.
https://www.youtube.com/watch?v=tLApOv7hnZo
Tímida e reservada, Rislene admite que não gosta de dar entrevistas e que fica extremamente nervosa antes dos concertos. “Espero, um dia, gostar das entrevistas e dos espetáculos”, brinca entre risos. “Antes de subir ao palco fico doente, agora já estou melhor, mas ninguém pode vir falar comigo.” Num dos primeiros concertos, foi incentivada a não cantar excertos do seu maior êxito até ao momento, o single Disisti, para incitar o público a acompanhá-la nos versos. “E se eu deixar espaço e depois ninguém cantar? Então não o fiz e as pessoas cantaram a música do início ao fim à mesma [risos].”
Com uma carreira musical a estabelecer-se em Portugal, onde há pontes mais do que estabelecidas para outros destinos do mercado lusófono — onde se inclui, evidentemente, Cabo Verde, onde já foi agraciada com o prémio de Artista Revelação nos Cabo Verde Music Awards — ponderou mesmo mudar-se para Lisboa, mas encara a barreira linguística e a vida familiar estabelecida em Paris como dificuldades para dar esse passo. Até lá, vai mantendo um contínuo fluxo de trânsito entre as duas capitais.
“Não tenho enormes objetivos na música. Onde der para ir vou. Não tenho esperança de ir super longe, quero ir andando e vendo até onde é que as pessoas vão gostando da minha música, Deus é que sabe e eu deixo-me levar. Mas, pelo apoio que tenho tido dos fãs, acredito que vai correr bem.”