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"Meu amor, eu te amo, mas não me vou casar em Massachusetts". O "big wedding" brasileiro de Conor Kennedy e Giulia Be

Filho de Robert F. Kennedy e cantora brasileira planeiam casamento de três dias no Rio de Janeiro, entre 150 membros do clã norte-americano, e um possível encontro entre Trump e Lula no Brasil.

Sâmia Fiates
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“Meu amor, eu te amo, mas não vou me casar em Massachusetts”, protestou Giulia Be, para convencer o noivo a embarcar rumo ao Brasil, acompanhado de cerca de 150 membros da família Kennedy. Casar-se num evento de três dias parece ser o novo padrão dos noivos high profile, e depois das comemorações de Jeff Bezos e Lauren Sánchez em Veneza, ou de Taylor Swift e Travis Kelce em Nova Iorque, todos os holofotes estão apontados para a cidade maravilhosa. É no Rio de Janeiro que Conor Kennedy, filho de Robert Kennedy Jr. e sobrinho-neto do antigo Presidente dos EUA, JFK, vai trocar alianças com a atriz e cantora brasileira com quem namora desde 2022. Muito já se falou sobre a festa, que estava prevista para 2025 e tinha Donald Trump na lista de convidados. A data e o local do evento foram alterados mais de uma vez, para acontecer já depois do lançamento do novo álbum da noiva — que canta em inglês, espanhol e português sobre as dificuldades da vida adulta (de pagar multas a comprar tachos) — mas agora parece definitivo. O enlace está marcado para começar a 10 de outubro.

A cantora já assina Giulia Bourguignon Marinho Kennedy desde março, quando os dois se casaram oficialmente numa cerimónia pequena para a família, em Los Angeles, onde o casal vive. Contudo, a artista brasileira revelou recentemente detalhes da comemoração prevista para outubro, ao site brasileiro GShow, da Globo. E deixou claro que a festa precisava ser grande — e no Brasil. “Uma das primeiras coisas que eu disse [ao Conor]: ‘Meu amor, eu te amo, mas não vou me casar em Massachusetts.’ Acho que o Brasil é um dos melhores lugares para se casar. A gente sabe como fazer, se entrega de corpo e alma, e a festa não acaba às 22h. Isso é algo muito importante que eu queria mostrar para as pessoas”, disse Giulia Be, que alcançou o sucesso em 2020 com a canção Menina Solta.

Quando mais de uma centena de Kennedys desembarcarem no Rio de Janeiro, serão recebidos com uma festa de boas-vindas com uma bênção das famílias no Cristo Redentor. No dia seguinte, está prevista uma cerimónia religiosa na Igreja Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé, no Centro do Rio. A grande festa será numa casa no Jardim Botânico — onde o pai da noiva dirige uma fundação que funciona no palacete considerado o “Taj Mahal carioca”. “Eu sou da cidade mais linda do mundo e era minha única chance de realmente trazer a família toda dele pro Brasil, os amigos, e eu precisava mostrar o melhor do Brasil, então quero proporcionar uma festa incrível. Imagina que você nunca viu o Cristo Redentor, e vai vê-lo pela primeira vez em um casamento. É realmente muito especial.”

Lista de convidados vai de Trump a Lula

Conor Kennedy tem 29 anos e é advogado, mas o motivo por ser tão reconhecido está mesmo no apelido. O noivo é filho de um dos elementos mais controversos da família: Robert Kennedy Jr., o secretário de Saúde de Donald Trump. No início de 2025 a imprensa brasileira avançou com uma lista de convidados que incluía o Presidente norte-americano. Questionada pelo portal UOL, a cantora explicou que o pai do noivo tem uma lista de convidados particular. “E eu e o Conor temos a nossa. Então, se tem Trump, vai ter Lula também, sabe?“, afirmou a artista.

A menção ao Presidente brasileiro não vem à toa. Em outubro de 2022 o casal encontrou-se com o na altura candidato à Presidência do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e tirou uma fotografia com o líder do Partido dos Trabalhadores, a fazer o L tradicional que marca a sua campanha. O encontro deu-se durante um compromisso de campanha, e Giulia Be serviu de tradutora na conversa entre Conor Kennedy e Lula. “Há alguns anos encontrei um de seus discursos e você tem sido um herói pra mim desde então. Sempre me emocionei com a forma como você defende os pobres e a classe trabalhadora, você me lembra o meu avô Bobby Kennedy, que entendia as preocupações dos meninos de carvão em Virginia e das minorias no Mississipi’”, escreveu Kennedy numa nota lida pela então namorada. Lula partilhou o encontro nas redes sociais, onde escreveu: “Vamos construir um mundo mais justo e democrático”.

https://twitter.com/LulaOficial/status/1579603235148828672

Contudo, nas declarações mais recentes Giulia Be evitou o assunto, alegando ter um “acordo” com o noivo de que não iria comentar o envolvimento de membros da Casa Branca no casamento. O afastamento da política dá-se num ano de eleições no Brasil, em que a própria família também está sob os holofotes do poder. A cantora é filha de Adriana e Paulo Marinho, empresário e político, ex-presidente do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) do Rio de Janeiro, que apoiou Jair Bolsonaro na campanha de 2018, mas declarou voto em Lula em 2022. Paulo Marinho está atualmente à frente do Instituto Brando Barbosa, no Jardim Botânico — que funciona no Palacete construído pelo banqueiro Jorge Brando Barbosa no final do século XIX, uma mansão de 2.500 metros quadrados conhecida como “Taj Mahal carioca”. Já o irmão de Giulia Be, André Marinho, influencer e radialista, é pré-candidato ao governo do Rio de Janeiro, apresentando como slogan de campanha a frase: “Sai Fuzil entra Brasil”. Membro do Partido NOVO, da direita liberal. Em abril, Marinho apareceu numa fotografia ao lado de Flávio Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro e candidato à Presidência do Brasil.

As love letters e a matching tattoo

Conor Kennedy e Giulia Be são um casal da era digital: conheceram-se e apaixonaram-se pelas redes sociais. Foram apresentados pela irmã de Kennedy, que conheceu a cantora numa viagem em 2021. “Conheço a irmã dele através do Dipplo, um DJ. Ela estava no rolê, começámos a falar. Ela disse: ‘Meu irmão já ficou com uma brasileira’. Me mostrou a foto dele e pensei: ‘Nossa, gatinho’.”, revelou, num programa de televisão do canal brasileiro Multishow. Os dois começaram a seguir-se no Instagram e a trocar algumas mensagens. “Quando eu fui indicada para o Grammy”, recorda, num podcast no final de 2022, “cheguei naquela classe, a dizer que o Instagram era muito ruim e tal, e mandei o meu número”, revela.

Mesmo assim, Kennedy não lhe enviou mensagens. Até que em novembro de 2021, antes de iniciar as gravações do filme da Netflix Depois do Universo, Giulia Be teve uma síncope vasovagal — uma quebra de tensão provocada por uma síndrome não diagnosticada. “Estava saindo da casa da minha amiga às 4h da manhã e estava com uma bolsa com uns detalhes de metal. Eu desmaiei, caí, e como estava com a sacola de metal, fez um barulho e então ela ouviu”, recorda a cantora. “Nisso que eu caí eu fraturei o meu crânio, tive um sangramento bilateral no cérebro”. Giulia Be diz que foi este o episódio que faltava para o agora marido finalmente entrar em contacto. “O que saiu disso tudo foi um WhatsApp, finalmente, do Conor. Eu postei agradecendo a galera que me mandou mensagem. Ele falou “oi, vi o seu post no Instagram. I hope your head is ok“. Começamos a falar daí.”

O relacionamento seguiu através da app de mensagens. “Chamávamos de love letters: de três em três dias a gente mandava 100 mensagens com as perguntas mais profundas”. Diz que falavam sobre a infância, os seus traumas, os filmes preferidos, os ex-namorados, ou sobre Nietzsche. “Foi uma história de amor das antigas. Sempre acreditei. Vou viver uma história de amor como eu vi nos filmes e li nos livros”, destaca Giulia Be, que trocou mensagens com Conor Kennedy até o final de janeiro, quando o casal se conheceu pessoalmente, na Califórnia.

“Eu estava muito nervosa, ele estava muito nervoso, mas parecia que era uma pessoa que eu já conhecia muito. Desde esse dia não desgrudamos mais. No terceiro date, ele já me apresentava para as pessoas como namorada. ‘My girlfriend’ e ‘my boyfriend'”, recorda a cantora. A história intensa rendeu inspiração para Giulia Be escrever músicas e gravar videoclipes. Passados três meses do namoro, os dois fizeram tatuagens a combinar. “Nós dois somos católicos e a mãe dele faleceu quando ele tinha 17 anos, e eu imaginei que seria legal fazer alguma homenagem para Mary. Então, a gente fez o Coração Imaculado de Maria, que é um símbolo que a gente sabia que era uma coisa que a gente nunca ia se arrepender”.

Mary Richardson Kennedy tinha 52 anos quando tirou a própria vida. “Muitas vezes não sabia como ela conseguia superar o dia”, afirmou Robert F. Kennedy Jr. na altura, citado pelo New York Times, que recorda que Mary enfrentava um divórcio, um histórico com abuso de drogas e álcool, e uma luta contra a depressão. “Ela estava num estado de agonia por tudo o que se passava na sua vida”, afirmou o ex-marido.

Conviver com a perda da mãe é a dor mais profunda de várias que Conor Kennedy já teve de enfrentar, assim como a família. O advogado é sobrinho-neto de John F. Kennedy, Presidente dos EUA entre 1961 e 1963, morto a tiro enquanto desfilava numa limusine conversível pela Dealey Plaza, em Dallas, no Texas, o caso mais conhecido dentre as muitas tragédias que atingiram os Kennedy ao longo das décadas, e que fomentam a lenda da “maldição”. Bobby Kennedy, irmão de JFK e avô de Conor, foi baleado cinco anos depois enquanto candidato à Presidência dos EUA; John F. Kennedy Jr. morreu três décadas depois, enquanto pilotava um monomotor ao lado da mulher e da cunhada, Carolyn e Lauren Bessette. Entre os 11 filhos de Robert Kennedy, dois já morreram em circunstâncias trágicas: David sofreu uma overdose aos 28 anos e Michael morreu num acidente de esqui no Colorado aos 39 anos. Este ramo da família ainda sofreu a perda precoce de outros três membros da terceira e quarta geração: Saorsie Kennedy Hill, que morreu aos 22 anos numa overdose acidental; e Maeve Kennedy, de 40 anos, e o filho Gideon, de 8 anos, que desapareceram num passeio de canoa em Maryland. A morte mais recente na família foi em 2025. Tatiana Schlossberg, neta de JFK e filha de Caroline Kennedy, faleceu aos 35 anos após enfrentar uma batalha contra um cancro agressivo.

Um Kennedy na Guerra da Ucrânia

Conor Kennedy já havia aparecido em manchetes de jornais no passado. Em 2012 esteve envolvido com Taylor Swift, quando tinha apenas 18 anos, o que lhe rendeu artigos em revistas como a People, que partilhava o encontro de 4 de julho do casal em Nantucket Sound, em Massachusetts, onde ambos estiveram num casamento da família Kennedy. A partir deste momento, passou a ser conhecido na imprensa como o “neto de Bobby Kennedy e ex-namorado de Taylor Swift”.

Foi com esse título que a CBS noticiou a sua detenção em 2013 num protesto na Casa Branca contra a proposta de construção do oleoduto Keystone XL, que foi oficialmente cancelado em 2021. Na altura, Conor Kennedy foi detido com o pai, Robert F. Kennedy, e outros ativistas ambientais, como a atriz Daryl Hannah. Quatro anos depois, o filho de RFK Jr. voltou a ter problemas com a justiça, quando se envolveu numa luta num bar em Aspen, no Colorado. Declarou-se culpado, escreveu uma carta a desculpar-se à vítima e pagou uma multa de 500 dólares, comprometendo-se a abster-se do uso de drogas e álcool por seis meses.

Mas foi em novembro de 2022 que a imprensa norte-americana dedicou mais espaço ao sobrinho-neto de JFK, depois deste partilhar nas redes sociais que havia combatido na Guerra da Ucrânia. “Estava disposto a morrer lá”, escreveu, na publicação que conquistou os jornais. Ao The Gentleman’s Journal, Conor Kennedy deu mais detalhes do seu ato de rebeldia. Foi em maio de 2022 que se alistou na Legião Internacional para a Defesa da Ucrânia — viajou para a Polónia, e em três semanas, diz que estava na linha de frente de combate. Atuou como operador de drone e metralhador, e serviu por quatro meses até regressar.

Conor Kennedy diz que viajou sem revelar o seu próprio nome, com receio de receber tratamento especial ou ser um alvo russo. Alega também que não contou a ninguém que iria, para além da namorada. “Ele me perguntou: ‘Você tem certeza que você quer namorar comigo? Porque eu vou ter que sumir no verão, vou ter que fazer uma viagem e não posso falar pra onde vou, eu não posso te falar nada.’ ‘Como assim? Claro que eu quero, independentemente dessa viagem.’ E acabou que a viagem foi ele indo pra Ucrânia, pra lutar na guerra”, assume Giulia Be. “Na guerra, eu tava muito tensa porque havia momentos em que ele ia para o front e eu não conseguia falar com ele por três semanas. Não sabia se a pessoa estava viva ou não. Foram momentos de tensão, mas queria muito apoiá-lo. Se eu fosse uma mulher que falasse para ele ‘não vai’, não seria mulher para ele. Para mim, teria sido muito mais confortável falar para ele não ir, mas ele precisava de alguém que o apoiasse em uma coisa que ele acreditava muito.”

Nenhuma fonte oficial norte-americana ou ucraniana confirma a presença de Conor Kennedy no conflito, mas o próprio pai, Robert F. Kennedy Jr., descreve à revista People detalhes do período em que o filho esteve na guerra. “Quando ele voltou, expressei algum tipo de raiva”, assume Robert Kennedy. “Quando percebeu que eu estava preocupado, disse-me: ‘Pai, isso é o que você me ensinou: defender aquilo em que acredito'”. Já Giulia Be, partilhou nas redes sociais o momento do reencontro com o namorado.

A ida de Conor Kennedy para a Ucrânia foi alvo de críticas — o sobrinho-neto de JFK foi acusado de fazer “turismo de guerra”. “Eu acho que tem uma coisa meio que instalada na família dele de serviço, de devolver. Eles sabem e têm noção do privilégio que eles nasceram e usam isso como um ponto de partida para ‘como que eu posso devolver para o mundo? Como que eu posso ajudar?’. Eu sempre admirei muito isso sobre ele”, comentou Giulia Be, numa entrevista a um podcast em 2023. Se Kennedy já tem no ADN o que é preciso para produzir e ultrapassar polémicas, a cantora brasileira parece seguir os passos. Recentemente, no single Adulta, provocou a ira do público brasileiro ao cantar: “Agora eu sou adulta, tô aqui pagando multa, minha droga é meu sofá, eu só quero uma panela nova”; descrevendo as dificuldades típicas da classe média enquanto é casada com uma das famílias mais poderosas e tradicionais dos EUA. Mas para quem a acusa de soar alheada da realidade, Giulia Be defende logo que está a adorar a vida de casada. “Lá em Los Angeles, eu sou dona de casa, gosto dessas coisas, eu estou começando a tomar gosto, sabe?”