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Da ajuda à mãe aos desafios de ser pai de um filho autista: a história que é muito maior do que os cabelos de Cucurella

Já foi "vilão", veste agora a capa de herói, é sobretudo exemplo dentro e fora de campo. Entre vitórias, Cucurella foi humanizando a figura do futebolista ao partilhar uma vida longe de ser perfeita.

Bruno Roseiro
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Não era a primeira vez que acontecia, também não era a primeira vez que, existindo, não levava a um cartão vermelho. Jack Stephens já tinha sido expulso num encontro do Southampton frente ao Chelsea por puxar o cabelo de Marc Cucurella, João Neves repetiu esse filme na final do Mundial de Clubes de 2025. “Antes do jogo, estávamos na brincadeira e o Vitinha disse assim: ‘Quem puxar o cabelo ao Cucurella ganha não sei quanto, eu pago’. Mas sempre na brincadeira. Mas o João [Neves] fez isso e depois passados uns dois ou três meses lembrou-se: ‘Olha lá Viti, tu disseste isto, estás a dever-me dinheiro’. Se pagou? Não, não… Nem encaixa muito no perfil do João, o Nuno por exemplo estava mais de cabeça perdida nesse jogo. Aquilo foi uma coisa instintiva”, contou Gonçalo Ramos, companheiro do médio na Seleção e no PSG, no watch.tm com Pedro Teixeira da Mota onde esteve com Nuno Mendes ainda antes do Mundial de seleções deste ano.

“Se é chato jogar contra ele? É, mas os espanhóis são mesmo assim, nós temos o Fabián Ruíz connosco e percebemos que é top ter na nossa equipa mas jogar contra eles é horrível… Mas não são o expoente máximo porque depois há os argentinos e os uruguaios mas é chato”, acrescentou depois o avançado, recordando essa final como um dos momentos mais duros da época pela forma como o Chelsea venceu esse Mundial saindo a ganhar por 3-0 já ao intervalo e pelo acumular de jogos que os franceses já levavam numa temporada em que tinham ganho a Liga dos Campeões frente ao Inter e a Liga das Nações diante da Espanha… de Cucurella. Antes, ainda em 2022, o central argentino Cuti Romero tinha-se atrevido também a arriscar um puxão de cabelos na área antes de um canto num dérbi londrino entre o Tottenham e os blues e conseguiu sair sem qualquer sanção. Em 2025, Daniel James, do Leeds, fez o mesmo sem sanção. João Neves, que antes tinha sido “picado” pelo defesa espanhol, que lhe deu um encosto sem bola, não teve a mesma sorte e foi expulso.

O cabelo comprido tornou-se uma imagem de marca de Marc Cucurella com o passar dos anos. No limite, o defesa até pode admitir fazer uma tatuagem do seu selecionador em caso de vitória, como aconteceu agora no Mundial de seleções com Luis de la Fuente, mas deixar de ter aqueles caracóis compridos foi sempre algo fora de qualquer equação. Existe uma justificação, que tem a ver com tudo menos com imagem. E foi através do aprofundar dessa história que o defesa espanhol passou de vilão a herói discreto não só na seleção de Espanha mas também no futebol mundial e na sociedade. Mais do que isso, Cucurella tornou-se aos 28 anos num exemplo a vários níveis pela forma como humanizou a figura do jogador de futebol ao partilhar a sua vida mais privada e os desafios que qualquer pessoa pode enfrentar no quotidiano. Se Erling Haaland deixou os Estados Unidos como figura mais mediática e Vozinha ganhou o bilhete dourado de nova estrela da modalidade, o espanhol, que vai reforçar o Real, promoveu a maior metamorfose na perceção dos adeptos.

Hoje, Cucurella deixou de ser aquele defesa chatinho dos cabelos grandes que é amado pelos seus e “odiado” pelos outros. Não precisa necessariamente de ser amado por todos, até porque é crível que vários catalães não tenham achado piada à mudança de Londres para Madrid nesta nova versão dos merengues com José Mourinho no comando, mas sobretudo ganhou o respeito pelo trajeto feito dentro e fora de campo.

E para que não existissem dúvidas, até a promessa mais “complicada” de cumprir foi concretizada. Antes de juntar-se aos restantes companheiros no Real, o defesa escolheu um local para fazer uma tatuagem do seu selecionador, Luis de la Fuente, na sequência da conquista do Campeonato do Mundo após o Europeu de 2024 e da prata nos Jogos Olímpicos de 2020. “Tenho de pensar onde é que vou colocar. As pessoas também me vão perguntar, por isso não tem de ser num sítio visível, mas enfim… Acho que agora temos um longo caminho pela frente, espero que me deem ideias. Vou pensar nisso e, mais cedo ou mais tarde, terei de o fazer”, tinha assumido Cucurella depois da vitória frente à Argentina no prolongamento. “Eu disse aos meus jogadores que cometeram um erro ao prometer tatuar a minha cara porque eles cumprem a palavra e vão mesmo fazê-lo. De qualquer forma, também não sou assim tão feio”, dissera antes o técnico.

O dia em que um anónimo entrou no stand do pai e mudou o trajeto de Cucurella

Nascido em Alella, Marc Cucurella entrou cedo no desporto mas a jogar futsal no clube da cidade, o FS Alella. O futebol, esse, surgiu quase do nada numa conversa entre o pai e um cliente no stand de automóveis onde trabalhava, que lhe sugeriu que fosse fazer um teste às escolinhas do Espanyol após Óscar ter comentado que não sabia onde o filho mais velho ia buscar tanta energia. Também ele tinha sido jogador de futebol, sempre em clubes e competições amadoras, e pensou que não faria mal em seguir o conselho e colocar Marc a fazer treinos no futebol. Um dia aconteceu. Em vez de ir para o pavilhão do FS Alella, foi para o campo do Espanyol. Agradou, não mais voltou ao futsal. “Esse homem anónimo foi a principal razão pela qual entrei no sistema do futebol de elite”, assumiu o defesa, recordando essa mudança quando era mais novo.

O único problema era mesmo a logística. O pai não conseguia muitas vezes sair a tempo de ir buscar o filho à escola para ir levá-lo ao treino (e havia também o irmão mais novo, Lucas, que também ainda experimentou o futebol mas nunca passou de equipas amadoras como o CF Masnou antes de seguir outra carreira no setor empresarial) e era a mãe, Patrícia, que trabalhava como administrativa, a sair de forma pontual à risca para levar Marc para o Espanyol e, mais tarde, para o Barcelona – sempre com bocadillos preparados por não haver tempo para passar por casa ou parar para lanchar. Só chegavam depois à noite, para banhos, jantar, trabalhos que tivessem vindo da escola e dormir. Um dia, outro dia, vários dias, uns a seguir aos outros. E se era assim, o pai não “perdoava”: nas noites em que ficava até mais tarde com amigos, Óscar acordava o filho à mesma hora e exigia que desse tanto ou mais no treino como sinal de “responsabilidade”.

Aos 14 anos, tudo começou a tornar-se mais “sério” com a passagem para La Masia e para o Barcelona, clube de toda a família. Foi também aí que houve o primeiro “capítulo” da história do cabelo comprido: no futsal era fácil a mãe perceber onde Marc estava em campo, no futebol tornava-se mais complicado. Por isso, o filho teve permissão para deixar crescer o cabelo, o que facilitava a tarefa de Patrícia em perceber onde estava. Até hoje, agora por razões diferentes, essa tornou-se uma imagem de marca do jogador, que fez a estreia como sénior em 2016, ao serviço do Barcelona B. Nessa temporada fez mais de dez encontros pelo conjunto secundário dos catalães, que conseguiu subir de escalão, na época seguinte teve o primeiro e único jogo pela formação principal, quando substituiu Lucas Digne numa partida da Taça do Rei com o Murcia.

Essa acabaria por ser a única ocasião em que Cucurella jogou pelos blaugrana, antes de duas temporadas de empréstimos a Eibar e Getafe e a venda a título definitivo à formação de Madrid, em 2020. Agora, seis anos depois, o defesa está de regresso à capital espanhola para representar aquele que foi desde sempre o rival em casa. Foi e continua a ser: Lucas, irmão mais novo com quem tem uma relação próxima no plano pessoal e profissional com projetos diferentes entre a comercialização de óculos de sol e a recente ideia de organização de torneios desportivos, foi questionado sobre a mudança de Marc para os merengues e assumiu que estará sempre “dividido”, por querer sempre o sucesso do irmão mas ao mesmo tempo que o Real… “perca sempre”.

Ainda assim, todos valorizam aquilo que foi um percurso em que só os próprios acreditaram, de constantes avanços e recuos que não o impediram de chegar ao topo do futebol mundial dentro e fora de campo. Como um dia escreveu o Relevo, na altura da chegada do internacional ao Chelsea, “nada foi dado a Marc Cucurella, nem quando era apenas suplente dos infantis do Espanyol, nem agora que se tornou o lateral mais caro de sempre”. “A assinatura deste contrato foi apenas uma recompensa para o jogador que todos os treinadores queriam ter na sua equipa mesmo que ninguém esperasse que chegasse até onde chegou – nem mesmo os mais otimistas. Muitos viam Marc como jogador profissional, poucos apostavam nele. No entanto, foi subindo degraus de forma silenciosa escolhendo o caminho que nunca foi o fácil”, acrescentou. Em boa hora o defesa fez um compasso de espera nos estudos, onde chegou a começar Educação Física.

O grande “salto” chegou quando rumou a Inglaterra mas, antes, Cucurella foi dividindo balneário com vários jogadores hoje conhecidos que na altura procuravam apenas uma oportunidade. “A equipa A dos infantis do Espanyol tinha três jogadores com relatórios positivos no Barça: Carles Torrents, Carles Pérez e Cucurella. Ainda assim, o que gerava mais dúvidas era o Marc, porque não era um titular indiscutível. No dia em que fomos fazer uma observação in loco, com o Albert Puig e o Guillermo Amor, ele foi suplente, entrou e, dez minutos depois, voltou a sair. Não conseguimos vê-lo. Era muito competitivo mas no primeiro ano estava a custar-lhe assimilar os princípios do jogo por posição mas, a pouco e pouco, conseguiu perceber o que era ser um lateral. Aí, tornou-se indiscutível”, contou Franc Artiga, o primeiro técnico que teve nos culé.

"A primeira vez que vi o Marc fixei-me no cabelo dele, era impossível passar ao lado daquela cabeleira. Nessa altura percebi que era um jogador de equipa que queria fazer brilhar os companheiros. Fazia o difícil parecer fácil e tinha um espírito competitivo espetacular. Embora não fosse um prodígio da técnica, esteve sempre entre os melhores."
Aleix Piqué, agente de sempre de Marc Cucurella, em entrevista ao Relevo

“A primeira vez que vi o Marc fixei-me no cabelo dele, era impossível passar ao lado daquela cabeleira. Nessa altura percebi que era um jogador de equipa que queria fazer brilhar os companheiros. Fazia o difícil parecer fácil e tinha um espírito competitivo espetacular. Embora não fosse um prodígio da técnica, esteve sempre entre os melhores”, contou também ao Relevo o agente que ainda hoje lidera a sua carreira, Aleix Piqué. Foi num jogo com o Damn que tudo mudou, convencendo os responsáveis do Barcelona a irem para a sua contratação. Em La Masia, Cucu, como sempre foi conhecido, passou a ser visto à luz de uma outra glória do clube: Carles Puyol. O cabelo longo e encaracolado ajudava mas era a forma abnegada com que ia à luta em cada lance e dava tudo pela equipa que o colocou nesse patamar. Ah, e o número 5 também dava uma ajuda, mesmo que tivesse como principal referência nessa altura o central brasileiro David Luiz.

Em 2018, o “novo Puyol” precisava de jogar, de minutos, de “crescer”, sobretudo depois de ter ficado de fora das opções do treinador Ernesto Valverde na digressão dos catalães pelos Estados Unidos. Acabou por ser emprestado ao Eibar, com um pormenor que ia deixando antever um caminho cada vez mais estreito: levava uma cláusula de opção de compra de apenas dois milhões de euros. “Conhecíamos bastante bem todos os jogadores da equipa B do Barça e ele encaixava no nosso estilo de jogo. Queríamos laterais profundos, que fossem verticais, que saltassem alto na pressão. Ele era assim e passava bem a bola”, contou o então diretor desportivo do clube do País Basco, Fran Garagarza. Terminou a temporada com 31 jogos na La Liga e 33 no total de todas as provas nacionais, regressando depois à Catalunha para nova cedência… desta vez ao Getafe.

Ainda assim, essa mudança acabou por surgir de forma enviesada: o Eibar pagou a cláusula de rescisão para ficar com Cucurella mas o Barça aplicou o direito de recompra, avaliado em quatro milhões de euros, apenas 16 dias depois, emprestando o jogador ao conjunto de Madrid com uma cláusula nova de seis milhões mais uma percentagem de 10% dos direitos económicos. “Ele não é rápido, ele não é forte. Todas as coisas que conseguimos medir com as máquinas temos à nossa disposição, não se destaca em nada. Por isso, nunca assinaríamos com ele. Mas ele é um jogador de futebol”, destacou ao The Guardian o antigo técnico no Eibar, José Luis Mendilibar, que fez de tudo para ficar com um jogador que já estava prometido a outras “paragens”… europeias: foi no Getafe que se estreou na Liga Europa, tornando-se titular absoluto e ficando em definitivo na equipa a partir de 2020. No entanto, e mais uma vez, não seria por muito mais tempo.

“Ele tinha a inteligência tática de ter passado pelas equipas de formação de grandes clubes e as passagens por Eibar e Getafe fizeram com que tomasse contacto com o futebol real, o outro futebol. Sempre foi um jogador trabalhador, que se esforçava ao máximo, e tinha tudo o resto que trazia pela inteligência tática. Era isso que fazia dele alguém diferente”, contou Charles, ex-companheiro de equipa, ao portal da FIFA. Também aqui, o que podia ser, não foi: entre hipóteses na La Liga (Atl. Madrid), na Serie A (Nápoles) e na Bundesliga (Bayer Leverkusen), acabou por optar pelo mais modesto Brighton, entendendo que as características de uma equipa e de uma liga como a Premier seriam mais favoráveis para o seu estilo de jogo. O Getafe negociou o defesa por 18 milhões de euros, com o Barça a receber ainda 1,8 milhões mais mecanismos de solidariedade.

O lateral mais caro da história que foi deixando de ser vilão para se tornar um herói

Cucurella dava mais um passo em frente na carreira. Um passo que alguns podiam achar pequeno mas que, uns anos depois, confirmou que seria o trampolim para o maior dos saltos. Se o Brighton acabou por ser uma escolha surpresa, a temporada de 2021/22 foi suficiente para voltar a mudar. “A equipa já funcionava muito bem mas a chegada de um jogador como ele veio ajudar imenso. Teve uma adaptação rápida e encaixou de uma forma perfeita na equipa, destacando-se pela capacidade tática, física e intensidade. É alguém muito bom nesses três princípios mais básicos do futebol”, explicou Bruno Saltor, glória espanhola da equipa que, na altura, contava com outros nomes conhecidos como Alexis Mac Allister, Trossard ou Moises Caicedo. “Desde cedo que se viu ser o tipo de pessoa que faz dos outros melhores dentro e fora de campo”, salientou.

Fez 35 encontros na Premier League num total de 38 na época, foi o jogador do Brighton com mais minutos, ganhou o prémio dos adeptos para MVP da equipa, consolidou a posição na seleção A espanhola depois de ter percorrido todos os escalões de formação da Roja (onde teve contacto novo com Luis de la Fuente), motivou o interesse das equipas de topo da Premier League. Outra vez, numa história que se repetiu ao longo de toda a carreira, o que parecia, não foi – que é como quem diz, quando parecia estar garantido no Manchester City de Pep Guardiola acabou no Chelsea então campeão europeu de Thomas Tuchel. “Houve muita gente que criticou a decisão de ter ido para o Brighton mas comprovou-se que foi a mais acertada”, contou Aleix Piqué.

“Foi a semana mais intensa das nossas vidas. Ficámos surpreendidos pela forma como o Chelsea apareceu de repente no meio do negócio. Já tínhamos mantido alguns contactos informais mas, quando viram que o City não andava para a frente com o Brighton, foram com tudo e fecharam o acordo numa operação relâmpago. A forma como mostraram interesse no Marc deixou-nos impressionados”, confidenciou o agente. A hipótese de ser treinado por Pep Guardiola caía, outro desafio se levantava. Até agora, com muito sucesso pelo meio.

Cucurella tornou-se o lateral mais caro da história do futebol, num negócio que, com bónus desportivos, foi aos 74 milhões de euros depois de ter começado numa base fixa de 60 milhões. No entanto, esse valor aplicado aos blues não é propriamente uma fortuna. E, com o passar das épocas, teve rentabilidade desportiva e financeira: quase sempre indiscutível na equipa desde que estivesse bem em termos físicos, foi resistindo às alterações técnicas que se iam sucedendo e contribuiu para o regresso do Chelsea aos títulos internacionais. Mais: o espanhol esteve na formação que conquistou nos Estados Unidos o primeiro Mundial de Clubes no novo formato, em 2025, já depois de ter ganho a Liga Conferência. Com isso, o Chelsea passou a ser o único clube com todos os troféus internacionais no seu museu, o defesa continuava a somar títulos.

"Cheguei como um jogador jovem com o sonho de ganhar muitos troféus e jogar a Champions. Tivemos um momento difícil, é verdade, mas com trabalho e esforço demos a volta. Posso dizer hoje, de uma forma honesta, que Londres será sempre o meu lugar e que o Chelsea fará sempre parte da minha história. Deixo o clube como um homem. Espero voltar a ver o Chelsea no lugar onde pertence e merece estar."
Marc Cucurella, na mensagem de despedida aos adeptos do Chelsea antes de rumar ao Real Madrid

“Depois de quatro temporadas juntos, é hora de nos despedirmos. Já tive tempo para refletir e recordar o que vivemos. Cheguei como um jogador jovem com o sonho de ganhar muitos troféus e jogar a Champions. Nós tivemos um momento difícil, é verdade, mas com trabalho e esforço demos a volta. Posso dizer hoje, de uma forma honesta, que Londres será sempre o meu lugar e que o Chelsea fará sempre parte da minha história. Não esquecerei a minha música que era cantada no estádio, as noites mágicas em Stamford Bridge, todos os títulos que ganhámos. Deixo o clube como um homem. Cumpri muitos sonhos e quero agradecer por isso. Espero voltar a ver o Chelsea no lugar onde pertence e merece estar”, escreveu um mês depois de ter assinado contrato com o Real Madrid, na despedida do clube onde esteve mais tempo como sénior. E, não saindo pelo mesmo valor pelo qual chegou, também não anda longe: 55 milhões fixos mais cinco de variáveis.

Já depois de ter estado na equipa espanhola que ganhou a medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020, Cucurella conquistou o Campeonato da Europa de 2024, fazendo mesmo a assistência para o golo de Oyarzabal que decidiu a final frente à Alemanha, e venceu agora o Mundial-2026, fazendo parte da defesa menos batida da competição com apenas um golo sofrido em oito jogos e com exibições de sonho nos duelos mais complicados frente a França e Argentina, nas meias e na final. Em paralelo com essas partidas, aquele jogador dos cabelos compridos que todos os adversários, dentro e fora de campo, não gostavam passou a ser alvo de uma perceção diferente. O vilão começou aos poucos a tornar-se um herói, num estatuto que começa a ser consolidado. E tudo porque, entre toda esta história, Cucurella não podia ser mais… humano.

“Antes de ser jogador, sou um pai de família, com três filhos, um deles com autismo”

“A sua reputação transcende o seu carisma e está consagrado no seu savoir-faire”, escreveu a GQ num longo artigo de fundo sobre o reforço de José Mourinho. “Aprendi no Barcelona uma lição: sabermos cuidar uns dos outros, entender que todos partilhamos o mesmo objetivo. Polivalência? Tudo depende da segurança que tens a fazer as coisas. No Chelsea, na primeira temporada, eram poucos os que confiavam em mim, diziam que não tinha nível para estar onde estava. Foi algo que me tocou bastante e tive de trabalhar muito, a minha pessoa, para voltar ao meu nível”, contou o defesa, numa entrevista onde se definiu, “antes de ser um jogador de futebol”, como “um pai de família, com três filhos, um deles com autismo. No final, aquilo que mais gosto é que estejam orgulhosos do pai, que vejam tudo o que fui capaz de atingir ao longo dos anos”.

Se quando era mais novo os cabelos longos ajudavam a mãe a perceber onde estava em campo, agora esse mesmo visual permanece para que Mateo, o filho mais velho, identifique de melhor forma o pai. Desde que viu a criança ser diagnosticada com autismo, todas as decisões desportivas passaram a ser tomadas a pensar na família. Foi por isso que, quando foi abordado pelo Real, fez apenas uma pergunta: existem escolas que sejam inclusivas em Madrid para Mateo? Quando percebeu que sim, negociou tudo o resto, já depois de ter assumido em entrevistas que nunca mudaria de clube por qualquer verba que lhe fosse oferecida a não ser que essa condição fosse cumprida. Hoje, quando todos percebem a história de Cucurella, dos seus cabelos longos e daquilo que foi passando com o passar dos anos, veem no defesa sobretudo um exemplo de vida.

“Há sempre alguém que aproveita para criticar quando falamos de uma forma aberta sobre a condição do nosso filho. Noto que muitas pessoas têm medo de se expressarem ou de falarem sobre determinados temas mais sinceros, de mostrarem ao mundo que não somos perfeitos, que todos temos problemas. Quando me abro, digo tudo a partir de um lugar onde sei que tenho pessoas que me apoiam. Gosto de poder ajudar aquelas pessoas que talvez tenham dúvidas ou que não se atrevem a dar esse passo, que vejam um reflexo de si mesmas em mim. Parecemos todos iguais, parece tudo muito superficial e que temos uma vida perfeita mas na verdade não é assim. Todos têm inseguranças, todos têm debilidades”, reforçou à GQ.

“Falar publicamente do autismo do Mateo? Não costumo prestar muita atenção porque para mim é normal, algo do dia a dia, mas é verdade que recebemos muitas mensagens de agradecimento pelo nosso trabalho. Não o faço com qualquer intenção oculta mas mostra que, num mundo aparentemente perfeito como o dos jogadores de futebol, também existem problemas. Fico muito feliz que, com a nossa capacidade de chegar à imprensa, possamos ajudar mais famílias e pedir a abertura de mais escolas, mais centros de assistência e apoio. O que me ensinou? Temos de valorizar e priorizar coisas que são realmente importantes, saber que há dias em que, mesmo que tudo pareça mau, ou que não esteja a ser o melhor dia da tua vida, as coisas importantes são o que são, e não o que muitas vezes pensamos que são”, contara antes ao El Mundo.

"O meu filho mais velho mudou a nossa vida. Quando estava no jardim-escola, fomos percebendo diferenças. As fotos tinham todas as crianças a brincar mas ele estava sempre um pouco sozinho. Quando foi crescendo, percebemos que não falava muito. Foi provavelmente a fase mais difícil. Ver um filho sofrer é das coisas mais complicadas que existem. Sim, chorei muito porque às vezes não sei como ajudar o meu filho."
Marc Cucurella, numa entrevista à TVE

Na história de Cucurella, tudo tem um significado – até mesmo quando parece não ter. “Vi na internet que os pinguins escolhem um parceiro e uma família para a vida toda, que permanecem juntos para sempre. Por isso, quis recordar a minha família, que me apoia sempre nos bons e nos maus momentos. Isto é para eles”, contou quando, ao serviço do Chelsea, comemorou um (raro) golo a imitar um pinguim. “O meu filho mais velho mudou a nossa vida. Quando estava no jardim-escola, fomos percebendo diferenças. As fotos tinham todas as crianças a brincar mas ele estava sempre um pouco sozinho. Quando foi crescendo, percebemos que não falava muito. Foi provavelmente a fase mais difícil. Ver um filho sofrer é das coisas mais complicadas que existem. Sim, chorei muito porque às vezes não sei como ajudar o meu filho”, dissera à TVE.

“No início, não tínhamos muita ajuda da escola. Esses foram os piores meses. Íamos todos os dias levar juntos o Mateo mas depois voltávamos para casa a chorar, todos os dias…”, admitiu também a mulher, Claudia Rodríguez, mãe de Mateo, que na altura estava também grávida de Río, o segundo de três filhos do casal (mais tarde nasceria Bella), no documentário “Married to the Game”, série da Prime Vídeo que segue de perto alguns casais da Premier League para mostrar esse outro lado extra treinos e jogos de futebol.

“Sentíamos uma sensação de impotência grande. Vês o teu filho a sofrer no colégio, a não conseguir adaptar-se, e por mais que tentes, ninguém na escola estava realmente preparado para ajudá-lo. Um filho autista não compreende as coisas da mesma forma que os irmãos. Tens de esquecer o que achas que sabes sobre ser mãe e aprender a linguagem dele, aprender a compreendê-lo. As pessoas olham para a vida de um jogador de futebol e acham que tudo é perfeito, mas nós também temos lutas diárias e desafios difíceis que ninguém vê por trás das câmaras. Tudo com o Mateo é muito mais difícil, exige o dobro do esforço, mas quando ele consegue alcançar alguma coisa, um simples passo em frente, dá-nos uma satisfação e uma felicidade muito maiores”, assumiu a criadora de conteúdos espanhola ao longo desse documentário da Prime Video.

“O Marc é um pai fantástico. Para nós, o futebol fica sempre em segundo plano. O foco das nossas vidas e de qualquer decisão que tomamos é a estabilidade, as terapias e o bem-estar do Mateo”, acrescentou Claudia Rodríguez, que descreve a sua casa como “um caos maravilhoso”. Foi todo este lado menos conhecido de Cucurella que foi mudando a perceção de “vilão” em campo para exemplo dentro e fora dele. E foi também a forma como toda a história de vida se tornou mais conhecida que quase secundarizou a passagem de Londres para Madrid, onde vai trabalhar no Real com José Mourinho em mais um novo projeto aos 28 anos.