O Mediterrâneo continua a ser o grande território do fogo na Europa. Portugal, Espanha, Itália, Grécia e o sul de França concentram há décadas uma parte importante da área ardida do continente e é para estes países que olhamos quando chega o calor e a floresta começa, aparentemente de forma inevitável, a arder. Só que esse mapa já não conta a história toda. Nos últimos anos, os registos começaram a mostrar grandes incêndios em regiões europeias onde eram raros; e há até mudanças na altitude a que o fogo chega, na altura do ano em que aparece e nas condições meteorológicas que deixam a vegetação pronta para arder. Não significa que a Escócia esteja a transformar-se na Andaluzia, nem que exista uma linha de fogo a avançar imparável do Mediterrâneo para o norte da Europa. Significa que começam a aparecer novas geografias do fogo — e algumas delas já eram visíveis antes deste verão.
Uma das pistas vem de 2025, o pior ano de incêndios alguma vez registado na União Europeia pelo EFFIS, o sistema europeu de informação sobre incêndios florestais. O Joint Research Centre da Comissão Europeia contabilizou 1.079.538 hectares ardidos na UE, quase o dobro da média anual entre 2006 e 2024, e a época começou cedo: no final de março já tinham ardido mais de 100 mil hectares. Mas há outra forma de perceber como 2025 saiu do normal. Um grupo internacional de investigadores que estudou o que aconteceu começa o trabalho assim: “A época de incêndios europeia de 2025 foi historicamente extrema”. Os autores contabilizam mais de 1,4 milhões de hectares no universo europeu que analisam e vários incêndios sem precedentes à escala regional.
O trabalho, Attribution of the Record-Breaking 2025 European Fire Season to Climate Change, tem entre os autores Ricardo Trigo, do Instituto Dom Luiz, e Andreia Ribeiro, além de investigadores como Friederike Otto. A primeira versão foi submetida em março ao EGUsphere: os investigadores escolheram cinco regiões onde 2025 tinha sido particularmente fora do normal: o noroeste da Península Ibérica; o norte e oeste da Grã-Bretanha; a Occitânia, no sul de França, entre os Pirenéus e o Mediterrâneo; a zona do Adriático oriental e do Jónico, uma faixa dos Balcãs que desce em direção à Grécia; e o norte e oeste da Turquia. Três destas geografias voltaram a aparecer no mapa dos incêndios deste verão: Península Ibérica, França e Reino Unido. Os autores usam a expressão emerging fire regimes para falar de mudanças no padrão dos incêndios. Não significa que o fogo tenha surgido onde nunca existira. Pode mudar a frequência com que aparece, a dimensão que atinge, a época do ano em que arde ou os territórios onde encontra condições para crescer. E há uma frase no resumo do estudo que ajuda a perceber por que razão isto deixou de ser apenas um problema do sul da Europa: estes novos padrões e o comportamento extremo do fogo estão a criar “desafios crescentes de adaptação”. Há países e regiões que se prepararam durante décadas para conviver com incêndios; outros estão agora a descobrir que também têm de o fazer.
Uma das respostas encontradas pelos investigadores está na seca, mas não apenas a que vem da falta de chuva. Analisaram também o défice de pressão de vapor, ou VPD, uma medida que ajuda a perceber a capacidade que a atmosfera tem para retirar água à vegetação. Quanto mais quente e seco está o ar, maior pode ser esse défice e mais depressa plantas, matos e árvores perdem água. Ou seja, não basta olhar para a chuva, o estado da vegetação depende também do calor e da humidade do ar que a rodeia.
Os investigadores encontraram uma tendência para verões mais secos e para valores extremos deste défice de pressão de vapor. Concluem que a alteração do VPD é “a principal razão” para as combinações de calor, seca e vento se terem tornado mais frequentes do que seria de esperar apenas pela variação natural do clima. A síntese do trabalho deixa ainda uma ideia inquietante: “As condições de 2025 não foram raras em algumas regiões, apesar dos incêndios devastadores”. Ou seja, a meteorologia já não é extraordinária, as consequências que consegue produzir é que podem ser ainda mais graves.
Mas o estudo também impede uma conclusão demasiado limpinha. Na Península Ibérica, no Adriático/Jónico e na Turquia, os modelos climáticos reproduzem melhor as tendências encontradas nas observações. Na Occitânia e na Grã-Bretanha, isso não acontece da mesma maneira. Seria por isso precipitado olhar para Espanha, França e Escócia neste verão e concluir simplesmente que o fogo mediterrânico está a subir para norte por causa das alterações climáticas. O que arde e quanto arde depende do tempo, mas também da vegetação que existe, da quantidade e continuidade do combustível, da forma como o território é usado e gerido e, claro, das ignições.
O fogo também está a subir as montanhas
Há outra mudança que não se mede de sul para norte. Mede-se em metros. Um estudo publicado a 30 de abril na Nature Communications, liderado por Mirela Beloiu, analisou 6.225 incêndios que queimaram quase 2,85 milhões de hectares em oito regiões montanhosas europeias entre 2000 e 2025. Logo na primeira frase, os autores escrevem que os incêndios florestais são “uma ameaça emergente para as regiões montanhosas”. E os números mostram porquê: em 25 anos, os grandes incêndios subiram, em média, cerca de 72 metros por década e tornaram-se mais frequentes depois de 2015.
A mudança também não foi igual em todo o lado. As montanhas ibéricas, os Balcãs e os Apeninos continuam a concentrar a grande maioria dos incêndios analisados. Mas nos Alpes, Cárpatos e montanhas franco-suíças, onde a atividade era baixa, o fogo começou a aparecer com maior consistência. É a estes territórios que os investigadores aplicam a classificação low and emerging fire regime: podemos falar de novos padrões de incêndio em regiões onde o fogo era historicamente pouco frequente. Nos Pirenéus e nas montanhas da Turquia, onde já havia incêndios com alguma regularidade, a frequência também aumentou depois de 2015.
Há ainda um resultado que vale a pena reter: um quarto dos incêndios estudados ocorreu acima dos 1.400 metros e, nessa altitude, os autores encontraram uma ligação à aridez extrema da atmosfera. A conclusão é particularmente relevante para ecossistemas de montanha que durante muito tempo estiveram protegidos do fogo pelo frio, pela neve e pela maior humidade. O aquecimento está a retirar parte dessa proteção e a permitir que o fogo chegue a lugares onde antes tinha mais dificuldade em chegar.
Os dois trabalhos não estudam a mesma coisa: um tenta perceber o que esteve por trás da época extraordinária de 2025; o outro acompanha 25 anos de incêndios nas montanhas. Mas chegam a um ponto comum: o mapa europeu do fogo já não tem fronteiras tão nítidas como tinha. O Mediterrâneo continua a arder e continua a concentrar os grandes incêndios, mas há sinais de mudança para norte, para altitudes maiores e para épocas do ano diferentes.
É a partir daqui que vale a pena olhar melhor para o que está a acontecer neste final de julho de 2026.
2026: o mapa começou a aparecer
Se os estudos mostram que as condições favoráveis aos incêndios estão a chegar a novos territórios, 2026 está a dar-nos uma demonstração bastante rápida. Até 22 de julho, o EFFIS tinha detetado 1.254 incêndios com mais de 30 hectares na União Europeia desde o início do ano. Na média de longo prazo, deveriam ser 569 nesta altura. Ou seja, estamos com mais do dobro. A área ardida chegava aos 254.388 hectares, acima da média histórica, embora ainda ligeiramente abaixo dos 270.449 hectares que já tinham ardido à mesma data em 2025, o pior ano da série. Há ainda 8,31 milhões de toneladas de CO₂ emitidas pelos incêndios desde janeiro. E estes números têm uma limitação importante: o EFFIS atualiza este balanço semanalmente, pelo que a fotografia de 22 de julho ainda não apanha tudo o que aconteceu no fim de semana em Espanha e França.
É precisamente a diferença entre o número de incêndios e a área ardida que merece atenção. A área queimada não duplicou; o número de fogos, quando comparado com a média histórica, sim. Não significa que 2026 vá acabar pior do que 2025, nem sequer que todos estes incêndios tenham sido grandes. Significa que a Europa chegou ao centro do verão com muito mais ocorrências relevantes do que seria habitual nesta altura do ano. Depois vieram os incêndios de Espanha e França e, bastante mais a norte, o dos Cairngorms, na Escócia. Três lugares muito diferentes, com histórias de fogo também diferentes, a arder na mesma semana.
Espanha: a primavera fez crescer, o verão pôs a arder
Espanha não é uma nova geografia do fogo. Pelo contrário: é um dos países europeus que melhor conhece os grandes incêndios, com décadas de experiência e um dispositivo de combate construído em torno desse risco. Como é que um país tão habituado ao fogo chegou a julho de 2026 com incêndios desta dimensão, ao ponto de o Governo declarar, pela primeira vez por causa de incêndios florestais, uma emergência de interesse nacional no âmbito do Sistema Nacional de Proteção Civil? A decisão colocou a resposta sob direção do Ministério do Interior, numa altura em que havia vários grandes incêndios em simultâneo e os recursos regionais estavam sob enorme pressão.
Uma parte da resposta começou meses antes das primeiras chamas. Choveu muito na primavera, tal como em Portugal. Isso reduziu o risco naquele momento, mas fez crescer ervas, mata e outra vegetação. Depois chegaram o calor e a falta de chuva. A vegetação fina perde água rapidamente e aquilo que na primavera estava verde transformou-se, semanas depois, em combustível. A Reuters apontava precisamente esta sequência — chuva abundante na primavera, seguida de calor extremo e tempo seco — como um dos fatores que agravaram os incêndios deste verão em Espanha e França (e o que provavelmente ainda acontecerá em Portugal). É um dos paradoxos do fogo: mais chuva pode significar mais combustível alguns meses depois, se o verão conseguir secá-lo.
Espanha já sabia que entrava num verão perigoso. Em maio, Pedro Sánchez apresentou aquilo a que chamou “o maior dispositivo estatal para uma campanha de incêndios” alguma vez montado no país. A frota incluía 15 aviões anfíbios, novos meios para lançamento de água a partir de aeronaves A400M e mais helicópteros militares. O primeiro-ministro recordou então os incêndios do verão de 2025 e disse que o Estado se tinha preparado para evitar uma repetição: “Há um país inteiro preparado para atuar.” Dois meses depois, o tamanho e a simultaneidade dos incêndios obrigaram a passar da preparação para uma emergência nacional.
O fogo de La Mierla, em Guadalajara, já se tinha tornado, a 22 de julho, o maior incêndio da história de Castilla-La Mancha. Sánchez foi ao posto de comando e voltou a pedir um pacto de Estado contra a emergência climática, que considerou “imperativo”, traduzido em “leis, medidas e recursos financeiros” para proteger vidas e território. Dois dias depois, perante a multiplicação das ocorrências, o Governo declarou a emergência nacional. E no fim de semana os incêndios de Madrid e Ávila, que tinham começado como emergências distintas, passaram a ser tratados operacionalmente como um único incêndio, com comando unificado.

E a escala da crise foi crescendo quase de dia para dia. Terça-feira, 28 de julho, mais de 171 mil pessoas tinham sido afetadas pelos incêndios em Espanha, entre evacuadas e confinadas, sobretudo em Madrid, Ávila, Toledo e Castellón. A noite trouxe algum alívio e permitiu conter várias frentes, mas as autoridades avisavam que as próximas horas seriam decisivas antes da chegada de nova subida das temperaturas a partir desta quarta-feira. A área ardida no país desde o início do ano já chegava a 172.396 hectares, segundo os dados provisórios do Ministério para a Transição Ecológica atualizados na segunda-feira. É quase seis vezes a superfície ardida no mesmo período de 2025. E Espanha já contabiliza 35 grandes incêndios florestais, mais de três vezes os 11 registados até esta altura no ano passado.
Entre os principais incêndios continuam a aparecer Ávila, Madrid, Toledo e Castellón. Só o conjunto das frentes de Madrid, Ávila e Toledo afetou cerca de 77 mil hectares, ao largo de 280 quilómetros; La Vall d’Uixó, em Castellón, tinha ultrapassado 4.300 hectares. O incêndio de Burgohondo, em Ávila, queimou aproximadamente 50 mil hectares, tem um perímetro de cerca de 160 quilómetros e tornou-se o maior incêndio registado na história de Espanha. O Governo espanhol, em balanço, anunciou que 211 zonas foram afetadas em 14 comunidades autónomas. As autoridades continuam especialmente preocupadas com reativações, precisamente porque a nova vaga de calor deverá fazer subir as máximas e baixar novamente a humidade a partir desta quarta-feira e pelo menos até domingo, quando a Proteção Civil avisa que o perigo de incêndio deverá atingir valores extremos.
França e Espanha somavam na segunda-feira cerca de 320 mil pessoas retiradas ou afetadas pelas evacuações. Na terça-feira, esse retrato já tinha mudado: só em Espanha, o balanço oficial superava as 171 mil pessoas entre evacuadas e confinadas, enquanto milhares começavam entretanto a regressar às suas casas em algumas zonas onde as frentes tinham estabilizado. Esta terça-feira, uma mulher morreu no Hospital Virgen del Rocío, em Sevilha, devido às queimaduras sofridas no incêndio de Los Gallardos, Almería, elevando para 14 mortos o balanço desse incêndio.
O mais interessante no caso espanhol talvez seja o contraste com uma frase dita apenas dois meses antes: “Há um país inteiro preparado para atuar.” Havia mais meios, havia experiência e havia preparação. E, ainda assim, foi necessário declarar uma emergência nacional. Não prova que o combate tenha falhado, mas mostra o tamanho do problema quando aparecem vários grandes incêndios ao mesmo tempo e o tempo lhes é favorável. É aí que Espanha deixa de ser apenas mais um país mediterrânico a arder no verão e passa a mostrar que as novas geografias do fogo não substituem as antigas. As antigas também estão sob pressão.
França: o fogo já não fica no sul
Há um número que ajuda a perceber o que está a acontecer em França antes sequer de chegarmos às imagens de Bordéus: a 8 de julho, 54 departamentos franceses estavam com perigo elevado ou muito elevado de incêndio. Até este ano, o máximo tinha sido 29, em 2025. A Météo-France chamou-lhe uma situação de “amplitude inédita” e sublinhou outra mudança: o perigo estava a estender-se muito para lá do sudeste mediterrânico, atingindo o oeste, o sudoeste, o centro e avançando para norte.
Não apareceu do nada; junho tinha sido o junho mais quente alguma vez registado em França, 3,8ºC acima da média de 1991-2020. Entre 17 e 30 de junho, o país atravessou uma onda de calor que a Météo-France classificou como precoce, longa e muito intensa; nos dias 24 e 25, a temperatura média em 24 horas chegou aos 30ºC, algo que nunca tinha acontecido em França, nem sequer nos grandes episódios de 2003 e 2019. Ao mesmo tempo, choveu pouco: o défice de precipitação no mês rondou os 50% e ultrapassou os 70% na Córsega, na faixa mediterrânica e em algumas zonas do norte do Poitou. No final de junho, a seca já abrangia toda a França continental e a Córsega e os solos tinham níveis de humidade próximos dos registados em 2022 e 2025.
Depois veio julho e o calor não desapareceu. A segunda vaga de calor do verão prolongou-se de 4 a 19 de julho e houve regiões do sul com dez ou mais dias acima dos 35ºC. Quando os grandes incêndios começaram a avançar pela Gironde, encontraram uma vegetação que vinha a perder água há semanas. E é neste ponto que a falta de chuva deixa de ser apenas mais um número meteorológico: é parte da razão pela qual uma ignição consegue encontrar combustível disponível para continuar a avançar.
Foi nesse território que o fogo chegou, neste fim de semana, às portas de uma das maiores cidades francesas. No domingo, as frentes estavam a cerca de 15 quilómetros de Bordéus e já tinham passado pela península de Cap Ferret, uma das zonas turísticas mais conhecidas da costa atlântica. Cerca de 220 mil pessoas tinham sido retiradas em França, entre residentes e turistas, enquanto as autoridades faziam evacuações porta a porta em localidades próximas da cidade.
Dois dias antes, quando os incêndios se aproximavam dos subúrbios, o ministro do Interior, Laurent Nuñez, avisara que seria uma “longa e difícil batalha”. O primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, chamou “sem precedentes” ao que estava a acontecer. Nessa altura, os incêndios já tinham queimado cerca de 98 mil hectares e a pressão sobre os meios de combate era suficiente para levar o Governo a mobilizar também as Forças Armadas.
Emmanuel Macron deslocou-se esta segunda-feira à região e agradeceu aos bombeiros, mas a mensagem política foi além do combate às chamas: é preciso reforçar a prevenção. O Presidente francês descreveu a situação como a mais grave alguma vez registada no país e a mais difícil desde a Segunda Guerra Mundial. E há aqui uma distinção importante. A Météo-France estima que nove em cada dez incêndios em França tenham origem humana e que metade resulte de imprudência ou comportamentos perigosos. O calor ou a seca não acendem uma fogueira abandonada nem lançam uma beata: o que podem fazer é transformar uma ignição pequena num incêndio muito mais difícil de travar.
O balanço agravou-se entretanto. Esta terça-feira, a área ardida desde o início do ano em França já ultrapassava os 116 mil hectares, mais do que em todo o ano de 2022. Só o grande incêndio da Gironda queimou cerca de 42 mil hectares em menos de uma semana e destruiu pelo menos 150 casas.
E o perigo não terminou quando os bombeiros conseguiram estabilizar a frente principal. No final de terça-feira, cerca de quatro mil pessoas foram retiradas preventivamente de parques de campismo e aldeamentos turísticos na zona de Lacanau. Houve reativações durante o dia e novas chamas junto a Grand Crohot, na península de Lège-Cap-Ferret, obrigaram à intervenção dos meios aéreos. O problema é precisamente esse: dezenas de milhares de hectares continuam quentes, enquanto regressam temperaturas elevadas e condições capazes de reacender o fogo.

O balanço humano também já inclui vítimas mortais, embora seja importante não as atribuir ao grande incêndio de Saumos. Dois bombeiros morreram a 21 de julho quando combatiam outro incêndio, junto ao aeroporto de Bordeaux-Mérignac. Até esta terça-feira, não havia confirmação de mortos no megaincêndio que começou em Saumos, atravessou Cap Ferret e avançou depois em direção à região de Bordéus.
O que torna este verão particularmente interessante para a história das novas geografias do fogo é que o problema francês já não acaba no sudoeste. Depois das novas evacuações preventivas na zona turística de Lacanau, França chega esta quarta-feira ao dia mais quente e seco da semana. Météo-France já tinha avisado que o perigo voltaria a subir a partir de quarta-feira e que todas as regiões do país seriam afetadas, com perigo “muito extenso na metade norte”. É precisamente aí que esta crise ganha outra dimensão: o mapa do perigo já não termina no Mediterrâneo nem nas florestas do sudoeste. Está a avançar para regiões francesas onde incêndios desta dimensão eram muito menos habituais e é esse alargamento do território vulnerável — não apenas o tamanho do incêndio da Gironda — que começa a mudar o mapa francês dos incêndios.
É talvez o dado que melhor distingue França de Espanha. Em Espanha, estamos a ver incêndios enormes dentro de uma velha geografia do fogo. Em França, essa velha geografia está também a alargar-se. O sul mediterrânico continua exposto, mas o perigo começa a ocupar com frequência regiões que durante muito tempo ficaram fora do mapa habitual dos grandes incêndios.
E há um problema adicional. A Europa montou para este verão uma reserva comum de 22 aviões, cinco helicópteros e equipas terrestres, além de 777 bombeiros de 14 países pré-posicionados para poderem ser deslocados rapidamente. Mesmo assim, quando vários países ardem ao mesmo tempo, os meios têm de ser repartidos. França já tinha ativado o Mecanismo Europeu de Proteção Civil a 5 de julho, recebendo aviões da Suécia e de Chipre e helicópteros da República Checa. A crise destes últimos dias voltou a trazer meios estrangeiros para França e Espanha. O sistema foi construído para deslocar meios para onde o fogo aparece; se as zonas de perigo aumentam e vários países precisam deles ao mesmo tempo, a geografia do problema muda também a escala da resposta necessária.
E é ainda mais a norte que esta história deixa de parecer mediterrânica.
Escócia: o fogo chegou onde era exceção
É preciso subir bastante no mapa para encontrar o caso mais estranho deste verão. A Escócia não tem o clima de Espanha nem uma história comparável de grandes incêndios. Tem charnecas, turfeiras, florestas e extensas áreas de vegetação que durante boa parte do ano permanecem húmidas. Mas 2025 mostrou o que pode acontecer quando deixam de estar. Foi a pior época de incêndios rurais de que há registo no país, com 241 ocorrências, 109 só em abril, e um incêndio entre Carrbridge e Dava Moor que queimou perto de 10 mil hectares, tornando-se o maior alguma vez registado no Reino Unido.
O ano seguinte começou, por isso, de maneira diferente. Em março de 2026, o Governo escocês apresentou o primeiro plano estratégico nacional para incêndios rurais, assumindo que estes estão a tornar-se mais frequentes, intensos e difíceis de controlar e que períodos de tempo quente e seco aumentam o perigo. O plano prevê melhor deteção, formação, equipamento, coordenação entre serviços e preparação para o recurso a meios aéreos. Não é apenas mais um documento sobre alterações climáticas: é um país a reorganizar a resposta a um risco que, até há pouco tempo, tinha outra escala.
https://twitter.com/SurreyPalmsWX/status/2080728651016929610
Poucos meses depois, o problema voltou aos Cairngorms. O incêndio que começou a 15 de julho acabou por levar à declaração de major incident e à retirada preventiva de habitantes de Nethy Bridge, depois de uma mudança do vento acelerar a propagação. A chuva e o enfraquecimento do vento ajudaram depois as equipas e permitiram o regresso dos moradores; uma avaliação aérea estimou em cerca de 2.500 hectares a área atingida. O número é pequeno quando colocado ao lado das dezenas de milhares de hectares dos incêndios espanhóis, portugueses e franceses. É precisamente por isso que o caso escocês interessa: não é a dimensão que o torna extraordinário, é o lugar onde aconteceu e aquilo que começou a obrigar o país a mudar.
Durante o combate apareceu ainda uma fragilidade bastante concreta. O Governo escocês procurou apoio aéreo do Ministério da Defesa britânico para o lançamento de água sobre o fogo, mas acabou por recorrer a helicópteros civis por tudo o resto estar ocupado. Num país onde incêndios desta dimensão eram excecionais, a discussão sobre que meios devem existir para os combater deixou de ser teórica.
Quando o incêndio começa a mexer no tempo: as nuvens de fumo que afinal são de tempestade
As imagens dos incêndios perto de Bordéus mostram enormes colunas a crescer acima do fogo. Não são apenas nuvens de fumo: em pelo menos um dos grandes incêndios formou-se um pirocumulonimbus, ou pyroCb: uma verdadeira nuvem de tempestade produzida pela energia do próprio incêndio. A Reuters descreve-o como o primeiro pirocumulonimbus registado em França. Não é o primeiro fenómeno deste género na Europa, longe disso. Portugal já teve episódios de piroconvecção intensa, nomeadamente nos grandes incêndios de outubro de 2017, e este tipo de nuvem também já foi observado noutras regiões atingidas por fogos extremos, como os EUA.
Mas como é que um fogo cria uma nuvem? Um grande incêndio liberta uma quantidade enorme de energia. O ar sobre as chamas aquece, torna-se menos denso e sobe rapidamente, arrastando consigo fumo, cinzas e vapor de água, formando uma coluna de ar extremamente quente. Além disso, há vapor de água mesmo num incêndio. A combustão da vegetação liberta água, e a própria vegetação contém humidade. Enquanto essa coluna sobe, entra numa atmosfera progressivamente mais fria. O vapor começa a condensar e forma-se uma nuvem: primeiro um pirocúmulo, que pode parecer uma grande couve-flor branca ou acinzentada a crescer por cima da coluna de fumo.
Se a atmosfera estiver suficientemente instável e a corrente ascendente for muito forte, a nuvem continua a crescer. Pode subir muitos quilómetros e transformar-se num pirocumulonimbus. A partir desse momento já não temos apenas um incêndio a responder ao vento: o incêndio começou a interferir com a atmosfera e a fabricar parte do seu próprio tempo.

Dentro da nuvem há correntes ascendentes e descendentes violentas. Podem surgir rajadas fortes e mudanças bruscas do vento à superfície, capazes de alterar a direção das chamas em poucos minutos. Pode haver também relâmpagos e alguns desses relâmpagos podem cair fora da frente principal e iniciar novos incêndios. É por isso que estes fenómenos são tão perigosos para quem combate o fogo: tornam o comportamento muito mais imprevisível.
Há ainda outro risco. Se a coluna convectiva perder sustentação, parte daquele ar carregado de fumo, cinzas e partículas pode colapsar e descer violentamente. É o chamado colapso da coluna, capaz de produzir rajadas fortes junto ao solo e espalhar material incandescente. Nos incêndios de Gironda, em França, especialistas relatam vários episódios de piroconvecção e pelo menos um pirocumulonimbus suficientemente desenvolvido para gerar trovoada e relâmpagos. O Le Monde cita investigadores que observaram vários episódios semelhantes sobre a região.
E há uma diferença importante entre três coisas que muitas vezes aparecem misturadas: fumo é simplesmente o conjunto de gases e partículas produzidos pelo incêndio; pirocúmulo é uma nuvem formada pela convecção provocada pelo fogo; e pirocumulonimbus é o passo extremo: uma nuvem de tempestade suficientemente desenvolvida para produzir fenómenos semelhantes aos de uma trovoada. Aquilo que aconteceu em França não é apenas “uma nuvem de fumo gigantesca”: é o momento em que o incêndio deixa de ser apenas vítima da meteorologia e começa também a produzi-la, como explica a NOAA.
Portugal: o mapa antigo continua a arder
Portugal está no extremo oposto da história escocesa. Não há nada de novo na geografia do fogo portuguesa e seria estranho tentar encaixá-la nessa categoria. O que este final de julho mostra é outra coisa: o aparecimento de novos territórios de risco na Europa não tornou menos perigosos aqueles que já ardiam. E Portugal entrou nesta semana com calor forte no interior, vegetação seca, vento e numerosos concelhos com perigo muito elevado ou máximo de incêndio rural. O IPMA manteve aviso amarelo de tempo quente em praticamente todo o Continente na segunda e terça-feira — Faro foi a exceção — e, a esta quarta, o aviso permanece em vários distritos do interior.
A temperatura, sozinha, não explica um incêndio. O vento também não o provoca, mas pode mudar completamente aquilo que acontece depois da ignição, porque alimenta a combustão, inclina as chamas sobre a vegetação que ainda não ardeu e transporta as chamas para diante da frente. A combinação torna-se particularmente perigosa quando encontra vegetação já seca, e é por isso que o mapa do IPMA tem agora tantos concelhos nas duas classes mais altas de perigo, muito elevado e máximo.
Enquanto a Europa tenta perceber até onde está a mudar o mapa do fogo, Portugal volta a olhar para um mapa que conhece demasiado bem. Às 13h00 desta quarta-feira, havia 32 incêndios rurais ativos, mobilizando no total 1.167 operacionais, 347 meios terrestres e 12 meios aéreos, de acordo com a Proteção Civil e o Fogos.pt.
https://observador.pt/programas/quente-e-frio/vem-ai-nova-onda-de-calor-mas-escapamos-ao-pior-e-a-dorsal/
[Já saiu o terceiro episódio de “O Candidato Perfeito”. Em “Três candidatos e uma chave”, Vicente Valbom cai a pique nas sondagens para a Câmara de Lisboa. Zé consegue fugir dos raptores e pede ajuda a um estranho. Mas as coisas podem não correr como esperado. Este novo podcast de ficção do Observador, em parceria com a Coyote Vadio, é a continuação da história de “O Zé faz 25”. Conta com as vozes de José Raposo, Tiago Teotónio Pereira, Madalena Almeida, Vera Moura, Paulo Calatré, Susana Brandão, Sara Matos, Fábio Baptista, Pedro Laginha e Carla Andrino. Pode ouvir este episódio no site do Observador e também na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube. O primeiro e o segundo episódios estão aqui e aqui.]
