Na divisão ensombrada do espaço Evoé, uma pequena mas carismática sala de espectáculos no coração de Lisboa, a poucos metros da Sé e do turismo da Rua dos Bacalhoeiros, uma multidão de espectadores impacientes e pegajosos por causa do calor de fins de julho espera a subida a palco de um grupo improvável de artistas. Subida como quem diz — naquela sala não existe desnível entre a plateia e aqueles que tomam o microfone, separados apenas pela fina camada de veludo de um cortinado vermelho.
Nos bastidores, apesar da ventoinha e de uma porta aberta que facilita a circulação do ar, todos suam em bica, mais por causa dos nervos do que do calor. Concluído um mês de curso de stand-up, chegou o momento em que os aspirantes a humoristas enfrentam o fantasma que lhes tirou o sono nas últimas semanas: o público. Qualquer que seja o desfecho, é certo que vai haver carnificina — resta saber se vão partir a audiência a rir ou matá-la de tédio.
Henry Ferreira é o mestre de cerimónias (MC) da noite e cruza a cortina entre aplausos e risos dos espectadores, com os quais interage com uma naturalidade invejável. Nas traseiras do palco, um singelo candeeiro de pé ilumina o alinhamento da gala final do curso e as caras dos seus nove protagonistas, ora sentados, ora de pé, de volta de páginas manuscritas que servem de cábula e de abanico, e de ecrãs preenchidos com palavras.
Há quem molhe os lábios com tímidos goles de água, há quem corra para a casa de banho — todos se esforçam para perpetuar esta roda-viva silenciosa. Mas Henry já anunciou a primeira vítima e, do outro lado do pano, o público ruge de excitação. O espectáculo vai começar, depois de semanas de preparação.
Coragem, verdade e humildade: os três eixos do stand-up
Há diferentes tipos de espectadores de comédia stand-up — uma manifestação cultural cada vez mais popular e que esgota salas no interior do país com a mesma facilidade com que o faz nas cidades grandes. Algumas pessoas riem alto e de forma engraçada, fazendo as delícias dos comediantes que são fãs de crowd work e de interação com o público; outras são mais comedidas; quase todas experimentam uma sensação de terror diante da perspetiva de subir ao palco para dizer umas “palhaçadas”.
É um fenómeno curioso: pouca gente ousa colocar-se no lugar do humorista (apenas “um por cento da população”, de acordo com os formadores da Bang Academy), mas é relativamente fácil escrutinar aquilo que ele faz e pensar em dezenas de punchlines melhores do que as que proferiu em palco. Pela sua simplicidade — não exige mais do que um microfone, um banco e um comediante disposto a enfrentar o público —, o stand-up não é entendido como algo que se aprende ou pratica. A aparente ausência de artifício, quando comparado, por exemplo, com o teatro ou a música ao vivo, sugere uma naturalidade e espontaneidade inatas, que poucos têm.
Paulo Oliveira não podia ser mais contrário a esta ideia. Para o fundador da Bang Produções, empresa dedicada à dinamização da comédia stand-up, produção teatral e eventos personalizados para empresas, “o humor treina-se”. Foi por esse motivo que, em 2009, fundou o primeiro curso de stand-up comedy em Portugal, a Bang Academy, que já vai na 104.ª edição e recebeu mais de 1.000 alunos durante os 17 anos de existência.
Por esta formação já passaram vários comediantes conhecidos do circuito português, entre os quais Luana do Bem, Guilherme Duarte e Joana Gama, que aprenderam com Paulo Oliveira o trabalho de minúcia — ou “de ferreiro”, nas palavras do próprio — que um profissional da comédia ao vivo precisa de dominar. A receita para um bom comediante, segundo o fundador da Bang, vai bastante além do talento natural ou da queda para a palhaçada. Exige “tempo e muito trabalho”, “um ‘pim pim pim’ [martelado] que deve ser constante, praticado todos os dias ou com regularidade”.

Além do esforço e capacidade de trabalho, Paulo Oliveira elenca outros três ingredientes essenciais: “coragem, verdade e humildade”. “Um aspirante a humorista é um cientista que experimenta piadas e que tem de fazê-lo com humildade para conseguir aceitar a falha”, admite. “Quando uma piada não resulta, não tem mal, porque agora dispõe da informação necessária para poder melhorá-la.”
Mas antes disso, tem de reunir a coragem para se expressar diante de uma audiência que, em grande parte, desconhece — o que, de acordo com os formadores da Bang Academy e uma ideia generalizada (que estudos mais recentes já contestaram), é um dos maiores medos da humanidade.
Se os novos dados estatísticos contradizem esta ideia, também atestam que a glossofobia — termo médico para o medo extremo e irracional de falar em público —, não sendo necessariamente mais intensa do que o medo de morrer, é a fobia mais disseminada, pelo menos entre os jovens.
https://observador.pt/explicadores/quando-o-medo-de-ser-julgado-limita-o-dia-a-dia-7-perguntas-e-respostas-sobre-ansiedade-social/
A “verdade” elencada por Paulo “não está na naturalidade da representação, mas na origem do material” e é tão importante como os aspetos referidos anteriormente. O material do humorista deve nascer da sua própria vida e de um ponto de vista particular, mesmo que a persona que apresenta em palco seja exagerada ou artificial.
“O comediante fala em nome próprio, a partir da sua vida e do seu olhar, e é esse reconhecimento do que é autêntico que cria uma ligação com o público”, assume o fundador da Bang. Nas suas palavras, “a emoção [contida no texto] é o motor da piada”, cujo “núcleo tem de ser honesto — porque a sala cheira a falsidade a metros”.



De paraquedista a comediante
Paulo Oliveira acompanha todas as turmas de aspirantes a humoristas, a quem transmite os conhecimentos acumulados durante mais de 20 anos de trabalho na indústria da comédia. Num total de nove aulas online, os participantes da 104.ª edição do curso — que começou no início deste julho e terminou no dia 26 do mesmo mês — receberam instruções sobre como transformar ideias soltas e experiências pessoais em matéria com potencial cómico.
Mas se escrever um texto para stand-up implica trabalho e método, não existe uma forma única e absoluta de lá chegar. Contudo, é obrigatório aprender a olhar para a vida com uma lente humorística, algo que o fundador da Bang admite ter compreendido muito cedo — apesar do percurso pouco linear que descreveu até estabelecer uma carreira na área.
Natural da aldeia de Unhais da Serra, na Serra da Estrela, Paulo ingressou nos paraquedistas do Exército quando tinha 21 anos. Fez parte das Forças Armadas por duas décadas, durante as quais chegou a ocupar o posto de sargento e esteve destacado na Bósnia e em Timor-Leste. “Paralelamente, sempre escrevi, canções, poemas, contos”, recorda o militar, entretanto desvinculado da vida militar.
“Entre 2003 e 2009, fui produzindo e fazendo espetáculos [humorísticos], sendo que a partir de 2009 também comecei a colaborar com empresas”, continua Paulo, para quem a tropa se tornou “aquilo que na comédia chamam de day job” (emprego convencional que um humorista mantém para pagar as contas). “Quando comecei a trabalhar em stand-up comedy já tinha um pé de fora [do Exército]. Em 2009/2010 criei a [empresa] Bang Produções”.
O gatilho para a carreira de sucesso na indústria do entretenimento, e da comédia em particular, veio de dois filmes influentes, lançados na década de 90. “Quando o Tarantino fez o Cães Danados [Reservoir Dogs] e o Pulp Fiction, pensei, ‘é por aqui que vou’ e escrevi logo o guião de uma longa-metragem”, lembra Paulo. Depois fez parte da equipa de guionistas do programa de Rui Unas, Cabaret da Coxa (transmitido pela SIC Radical), começou a produzir espectáculos de amigos humoristas e, finalmente, subiu a palco. “Isso aconteceu quando dei por mim a julgar [um comediante] e pensei, ‘olha para ti primeiro e avança’”, recorda o fundador da Bang, que até esse dia tinha medo de se expor diante do público.
A empresa produtora de comédia que estabeleceu depressa se tornou numa escola para muitos dos humoristas amadores e profissionais com atividade no país — aí nasceu a vertente de Academy. “Sempre estive ligado à formação, partilhar coisas e criar mudança é aquilo que me move e que me dá prazer”, admite Paulo. Começou a formar comediantes em 2009, no Cinema City de Alvalade, durante a pandemia migrou para o online e nunca regressou ao analógico.
“O online facilita na questão geográfica, porque já tivemos alunos de Macau, França, Luxemburgo, Suíça, Inglaterra ou Brasil”, confessa o humorista. “Desde que mudámos para o digital que as aulas melhoraram substancialmente, porque fica tudo registado e gravado em vídeo, as pessoas podem rever, o que ajuda a melhorar o texto. No presencial ficava tudo na memória e a gente sabe que a memória atraiçoa, não é?”

O passo seguinte foi a criação de uma plataforma de inteligência artificial (IA) para ajudar os alunos do curso. Paulo processou os dados acumulados em formato digital desde 2020 e inseriu-os num modelo de linguagem ao qual chamou de Comedy Buddy. “A minha forma de abordar e construir o humor e as metáforas que utilizo estão no Comedy Buddy, que acaba por ser uma ‘duplicação’ do meu cérebro disponível para apoiar as pessoas no processo de descobrir e criar piadas.” Por enquanto, a ferramenta só pode ser utilizada por alunos do curso, mas existe a perspetiva de a fazer chegar a outros mercados, nomeadamente de âmbito internacional.
Paulo foi adquirindo outros “buddies” ao longo do processo, sendo que, atualmente, a Bang Produções conta com um núcleo duro de mais três pessoas além do fundador — entre os quais o MC do espectáculo, Henry Ferreira, o comediante Ricardo Galamba e o produtor Daniel Oliveira. Junta-se a eles uma segunda linha de trabalhadores em freelance, que inclui cerca de oito videógrafos e formadores, alguns dos quais já colaboram com Paulo há mais de dez anos.
Desde que a Bang introduziu as aulas de stand-up à distância que o formato é o mesmo: uma sucessão de videochamadas (habitualmente) semanais, com a duração de duas ou duas horas e meia em horário pós-laboral, que permitem a participantes de diferentes partes do país — ou mesmo do mundo — acompanhar o curso a partir dos respetivos fusos horários. Com a duração de cerca de um mês, a formação ensina aos alunos a terminologia mais básica da comédia e as ferramentas que precisam de dominar para escrever piadas. Com esses fundamentos consolidados, o grupo segue para a próxima fase, e a mais difícil — a escrita do texto.
Dicionário do stand-up comedy
Rotina ou bit — parte de um espectáculo sobre um determinado tópico;
Set — alinhamento para o espectáculo ou conjunto de rotinas;
One liner — piada com apenas uma ou duas linhas, por exemplo:
(1) A minha mulher fugiu com o meu melhor amigo.
(2) Tenho tantas saudades dele.
Setup (1) — Primeira das duas partes que constituem uma one liner, destinada a produzir uma falsa expectativa no público;
Punchline (2) — Segunda das duas partes de uma one liner, cujo objetivo é produzir uma gargalhada;
Tag — punchline adicional que sucede uma anterior sem necessitar de um novo setup;
Callback — uma piada que se refere a uma piada usada anteriormente no mesmo espectáculo;
Blue — uso de material escatológico ou com elevado teor sexual;
Bomb — não conseguir fazer rir o público;
Kill — arrasar, quando o espectáculo resulta em pleno;
Heckler — um membro do público que fala e/ou interrompe o espectáculo;
Ad-lib — improviso;
Crowd work — interação dos comediantes com a audiência, a fim de relaxar o público e gerar algumas gargalhadas na base do improviso.
Bang Produções e https://stand-upcomedy.com/glossary/
Nesta fase do processo, as aulas não são mais do que conversas animadas entre contadores de histórias. Um de cada vez, os aspirantes a humoristas recordam momentos engraçados das respetivas vidas ou ideias com potencial, que vão sendo esculpidas e limadas até atingirem o seu estado mais propriamente cómico. Nesta etapa multimodal, onde tanto o texto escrito como a “entrega” do mesmo ganham proeminência, a opinião dos formandos é tão importante como a dos formadores — uma vez que o produto final vai sendo desvelado por via da troca de ideias ou brainstorming.
Entre as opiniões alheias, os materiais disponibilizados na plataforma online — a que todos os alunos têm acesso —, os bitaites do Comedy Buddy e os e-mails onde cada bit humorístico é espremido até ao tutano, os comediantes em potência vão estruturando o documento com que sobem a palco na gala final. São apenas cinco minutos de texto, com muitas pausas pelo meio para acentuar os momentos mais cómicos — mas nem por isso menos difíceis de escrever ou, pior ainda, de dizer com naturalidade. O resultado é um guião vagamente autobiográfico e que deve ser apresentado de forma coerente e autêntica, depois de várias horas de monólogos à frente do espelho ou, neste caso, da câmara.
Brindar e subir a palco
A noite da gala começou relativamente cedo para quem está habituado aos horários portugueses. Após quase um mês de contactos à distância, os nove participantes desta edição do curso conheceram-se pessoalmente num restaurante, às sete da noite de domingo, 26 de julho. A hora da marcação veio no seguimento de um conjunto de recomendações que tanto Paulo como Henry enfatizaram diversas vezes antes da estreia — e que nem todos os presentes decidiram acatar, por sua conta e risco.
“Os nervos e a ansiedade de estar em palco obrigam o corpo a um esforço de gestão de emoções, que lhe permite manter-se alerta, mas gasta energia”, informa o MC do evento. Antes do espectáculo, é importante “descansar bem, hidratar, ou seja, beber bastante água”, e evitar o álcool. “Porque obviamente põe um stress maior no corpo e também desidrata”, o que não é desejável quando se precisa de projetar a voz. “As refeições muito pesadas também aumentam o gasto de energia”, conclui o humorista, que recomenda “cuidar do corpo” antes de subir ao palco, sobretudo quando se trata da primeira vez.
O menu de um restaurante que serve massa e pizza não parece o mais indicado para quem deseja comer uma refeição leve, motivo pelo qual algumas pessoas ajuizadas — ou que conhecem melhor as respetivas idiossincrasias intestinais — pedem uma sopa, ao invés dos pratos ricos em hidratos de carbono que caraterizam a cozinha italiana importada. Henry assume a dianteira da conversa (Paulo não pôde comparecer por causa de outro projeto da empresa, o concurso “O Último a Rir”), que evolui sem constrangimentos e sem a força motriz do álcool, consumido em doses reduzidas ou mesmo posto de parte.
Afinal, embora seja a primeira vez que os aspirantes a humoristas partilham o mesmo espaço físico, já por diversas vezes haviam ocupado janelas virtuais contíguas, nas quais a conversa foi bastante além da superfície e explorou as vulnerabilidades dos nove que ousaram fazer comédia. Já sabemos que o Pedro é madeirense e que o José agora dá pelo nome de “pai do Salvador”; que a Sandra se inscreveu para desafiar o horror que tem a falar em público e que o Rui é um autodiagnosticado obsessivo-compulsivo.
Somos todos muito diferentes, em termos de idades, profissões, gostos e origens, e a razão que nos levou ali não é a mesma. Contudo, temos um objetivo em comum — além dos mesmos nervos à flor da pele, suores frios e uma quase sensação de tragédia iminente. A minha jornada no curso da Bang começou para escrever sobre a experiência, mas houve quem quisesse profissionalizar-se na área ou simplesmente o fez para fins de lazer.
“Temos pessoas interessadas em usar as ferramentas de comunicação do humor para as suas atividades profissionais”, admite Henry. “Também há gente que tem medo, pavor de falar em público e isto é uma forma relativamente obscura de conseguirem sair da sua zona de conforto e de se desafiarem. É um espetro muito alargado, que também inclui pessoas que querem mesmo trabalhar na comédia.”
A hora escrita no cartaz do evento aproxima-se a passos largos e o grupo desloca-se para o Espaço Evoé, a cinco minutos do restaurante. Ali, um caos ordenado ganha os primeiros contornos e revela a disparidade de personalidades e métodos de trabalho dos membros do grupo.
Na sala de espectáculos, Henry testa o som dos microfones com monossílabos, enquanto os seus aprendizes se dispersam pelos arredores do edifício. Eu escondo-me atrás de um carro estacionado, em busca da privacidade necessária para memorizar o meu monólogo. Escrevi o texto no próprio dia e ainda preciso de limar umas arestas.
Há quem esteja perfeitamente tranquilizado com o guião que preparou ao longo do último mês e aproveite para trocar dois dedos de conversa com os funcionários do estabelecimento; ou aqueles que, sobriamente, fixam o auditório vazio — talvez para se mentalizarem do desafio que têm pela frente. A cada par de minutos, ouve-se a descarga do autoclismo, sobrepondo-se ao sussurro das pás da ventoinha.



À entrada do teatro, coroada por uma buganvília em flor, começam a agrupar-se os primeiros membros do público. Ao mesmo tempo, dentro do recinto espera-nos uma tradição que a Bang consolidou nos 17 anos de atividade: um brinde com vinho do Porto, depois do qual se ouvem as habituais palavras de ordem que anunciam pernas partidas e expressões vagamente escatológicas.
Depois, silêncio. Silêncio que é tão importante no stand-up e uma ferramenta de comunicação valiosa, apesar de assustadora. Nas palavras de Paulo Oliveira, “o silêncio é como o escuro: não faz mal e não mata”, pelo contrário — é sinal de “calma, segurança e poder” e, na comédia ao vivo, um ingrediente indispensável para deixar o texto respirar e ser interpretado pelo público. As pausas funcionam como o “oxigénio do humor, aquilo que lhe permite materializar-se na mente do grupo”.
“Uma vez, um aluno de 17 ou 18 anos que fez o curso foi para frente da câmara e ficou calado durante um minuto”, recordou Paulo, em entrevista ao Observador. “Ao fim de 30 segundos o peso na ‘sala’ e o desconforto eram tão grandes, que os colegas começaram a falar, a perguntar ‘onde é que moras?’ e não sei o quê. E ele aguentou-se um minuto sem abrir a boca. Foi brutal, delicioso, e, no final do curso, aquele puto foi dos mais eficazes em palco.”
Na noite de domingo, o silêncio é entrecortado pelo burburinho dos espectadores que começam a sentar-se. Os mais experientes já sabem que, se não querem sofrer o “assédio” dos comediantes, devem ocupar os bancos de trás, os primeiros a encher. Ao contrário da maioria dos espectáculos com lugar livre, no stand-up os assentos da frente são os últimos a ficar preenchidos e fazem as delícias de quem chega atrasado e não sabe que, do lado de cá, recebemos instruções expressas para interagir com o público.
Henry faz exatamente isso quando toma o palco: quinze minutos de picardia com uma senhora que ri de forma entusiasmada ou um casal que lhe chama a atenção, a “claque” particular de cada um dos aspirantes a humoristas e um miúdo mal-encarado de 13 anos — enquanto, do lado de cá da cortina passamos os olhos pelo texto uma última vez.
Mas então o humor aprende-se?
Nove sessões de aconselhamento, vídeos explicativos e guias com instruções, e-mails muito detalhados onde cada aspeto das nossas memórias pessoais foi escrutinado a fim de identificar uma punchline, interações com um chatbot de IA cujo sentido de humor foi feito à imagem de um humorista profissional. E tudo isto sintetizado numa página com aproximadamente 600 palavras — cinco minutos talhados à medida de cada aluno, depurados após sucessivas listas e discussões com os formadores e colegas, a partir de ideias simples, como uma ida a um festival de verão, um encontro falhado ou uma viagem marcante.
Com total liberdade — fora a janela temporal prevista para cada formando, entre sucessivas intervenções do mestre de cerimónias —, não aprendemos a ter sentido de humor ou piada, mas compreendemos que ambos já existem dentro de todas as pessoas. Em cada situação quotidiana ou conversa banal, e até mesmo na tragédia, a comédia insinua-se e afirma o seu caráter transgressor — e não é preciso saber a definição de setup, punchline, callback, bit, heckler, crowd work ou tag para fazer rir os outros.
Há pessoas com mais piada do que outras, isso é algo que todos observamos empiricamente — da mesma forma que há gente com mais aptidão para as letras ou para os números. Apesar disso, como acontece com a interpretação teatral ou de um instrumento, o carisma e a capacidade de escrita, a comédia deve quase tudo ao trabalho. A prova disso é que nove pessoas com origens e experiências totalmente diferentes mereceram os aplausos de um auditório cheio, porque aprenderam a desafiar o medo de falar em público e a dominar os melhores estratagemas para transformar uma história engraçada numa gargalhada.
“Na maioria das vezes, as pessoas querem pegar em situações potencialmente negativas, de modo a transformá-las em algo mais catártico e positivo”, admite Henry em entrevista, recordando as edições anteriores do curso. “Acho que o grande objetivo do humorista deve ser este: sentir que quem nos vai assistir sai dali um por cento mais feliz ou mais alegre do que quando chegou. […] Estas são as noites de que nos vamos lembrar quando formos velhinhos, principalmente por uma razão: eu confiei em mim, eu saí da minha zona de conforto e sobrevivi.”
A próxima edição do curso de comédia stand-up da Bang Academy começa já no próximo dia 7 de setembro, com inscrições disponíveis no respetivo site. A Bang Produções também oferece serviços de produção de eventos e dinamiza atividades e formações junto de empresas.
















