De repente, um grito: “Vai descer!”
Lentamente, o lustre da Sala Luís Miguel Cintra começou a descer, perante os olhares curiosos das cerca de duas dezenas de pessoas que encheram os camarotes do Teatro São Luiz, em Lisboa, ao final da manhã desta segunda-feira. Quando parou, a poucos centímetros da plateia, uma salva de palmas fez-se ouvir pela sala, antes de os curiosos serem convidados a descer e a olhar de perto para uma das peças mais belas, mas mais inacessíveis, da sala de teatro lisboeta.
Todos os anos, o lustre do Teatro São Luiz é descido para ser limpo e preparado para mais uma temporada de espetáculos. São cerca de 20 metros desde o teto até às cadeiras de veludo vermelho do teatro e a descida demora cerca de um minuto. Normalmente, decorre à porta fechada, mas este ano o São Luiz decidiu abrir uma exceção e convidar o público a assistir à primeira parte do ritual anual de cuidado da principal peça de iluminação da sala, que inclui trocar todas as lâmpadas e limpar a estrutura em ferro trabalhado, um trabalho que é feito por uma equipa externa especializada.
Para que o lustre seja descido, primeiro, “é preciso destravá-lo”. “Tem dois cabos de suspensão, o cabo de aço e o cabo que liga à corrente elétrica, e para descer ou subir o candeeiro é preciso tirar os travões e acionar o motor. É a única interação humana. Depois, é ficar à espera que tudo corra bem, que nada aconteça, porque o motor para automaticamente”, explicou Ricardo Joaquim, coordenador de manutenção e segurança do teatro, ao Observador. Desde que o técnico trabalha no São Luiz, nunca houve problemas com o mecanismo, instalado no forro do edifício.
Pouco se sabe sobre a proveniência do lustre do Teatro São Luiz. O candeeiro foi instalado na sala de teatro na mesma altura em que Ricardo Joaquim integrou a equipa do teatro, no início dos anos 2000, por altura da conclusão das obras de reabilitação feitas pela Câmara Municipal de Lisboa com o apoio da União Europeia, que mantiveram a sala fechada durante cerca de três anos, de 1999 a 2002. O técnico assistiu à montagem do lustre, que foi feita por dois especialistas belgas.
Uma delicada peça de decoração, que pesa à volta de 500kg, o lustre é feito em ferro pintado de dourado e em vidro, e decorado com cristais que refletem a luz projetada por 76 lâmpadas, 40 na parte de baixo e 36 na parte de cima, que são trocadas todos os anos quando o candeeiro é descido. Ninguém sabe porquê, mas as lâmpadas superiores fundem-se primeiro do que as de baixo, mas como o lustre “está quase colado ao teto”, as luzes superiores têm pouca influência e, por isso, não há necessidade de fazer descer a peça de propósito para as trocar, explicou Ricardo Joaquim.
É pouca (ou quase nenhuma) a informação que corre pelo teatro sobre o afamado lustre, mas isso não impede que seja admirado, pelos funcionários do teatro, que todos os anos acompanham a sua descida e subida, e este ano, de forma excecional, pelo público, que teve esta segunda-feira a oportunidade de ver de perto, a pairar sobre a plateia, o lustre do Teatro São Luiz.