O apelido não é o mesmo, não há nomes em comum e não seria o país de origem a levantar suspeitas. Contudo, Aziz Abdul nunca quis esconder o passado e sempre vincou o orgulho nos antepassados — mesmo que um desses antepassados seja Idi Amin, um dos ditadores africanos mais cruéis do século XX.
Idi Amin, que morreu no exílio na Arábia Saudita em 2003, governou o Uganda de 1971 a 1979, liderando uma brutal ditadura militar que matou cerca de 500 mil pessoas e expulsou toda a população asiática do país. Foi deposto na sequência de uma invasão da Tanzânia e não voltou ao país durante as mais de duas décadas que ainda viveu. Mais de 20 anos depois de ter morrido, porém, volta a surgir na atualidade à boleia de um dos netos.
Aziz Abdul tem 25 anos, é pugilista e está a competir no boxe nos Jogos da Commonwealth que estão atualmente a decorrer em Glasgow, na Escócia. Natural da região de West Nile, assim como o avô paterno, vai defrontar o inglês Damar Thomas, campeão europeu de juniores, no combate que dá acesso às eliminatórias de atribuição de medalhas. Thomas, um dos favoritos na categoria de +90 kg, procura um quarto ouro consecutivo para Inglaterra na prova — mas nada parece toldar a confiança do ugandês.
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“Os feitos do meu avô inspiram-me. Ele foi um pugilista peso-pesado, tal como eu sou, e tenho muito orgulho nele. Os leões geram leões. Um leão não pode gerar um cão ou um camelo. Um leão deve parecer-se com um leão, é o que é. Sou um verdadeiro guerreiro. Sou filho do filho”, explicou Aziz Abdul, que responde pela alcunha “Ringo” que também vinca a memória do avô ao bater continência depois das vitórias.
O passado de Idi Amin no boxe é bastante conhecido. Antes de chegar ao poder, foi campeão nacional de pesos-pesados durante nove anos consecutivos, ao longo de toda a década de 50. Foi precisamente nessa altura que guardou um rancor que só iria resolver já como presidente: depois de ter perdido um combate contra Peter Sseruwagi em 1958, convidou-o para a desforra e orquestrou uma espécie de luta encenada em que venceu por KO sem sequer tirar o casaco do fato e a gravata.
Em Glasgow, Aziz Abdul disse estar confiante na potência do seu “soco Ringo” e garantiu contar com os conselhos que o avô deixou. “Estou muito feliz por defrontar o pugilista inglês. Esperei por este momento durante três anos. Mas agora não estamos em África, estamos na Europa. Como o meu avô costumava dizer, é preciso ganhar por KO. Foi para isso que treinei e é isso que espero fazer. A única maneira de derrotarmos um inimigo do nosso país é ganhar por KO”, acrescentou.
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Nas mesmas declarações, o pugilista deixou ainda um piscar de olho a um dos capítulos mais curiosos da biografia de Idi Amin: antes de ser presidente e depois de cumprir o serviço militar nas King’s African Rifles, já que o Uganda ainda fazia parte do império britânico, apaixonou-se pela Escócia e pelas paisagens escocesas, chegando a autodenominar-se “Rei da Escócia”. A história, aliás, acabou por dar título a um livro sobre a vida de Amin, de Giles Foden, e também a um filme, “The Last King of Scotland”, onde o ator Forest Whitaker até ganhou o Óscar de Melhor Ator pela interpretação do ditador africano.
“Conheço os pesos-pesados britânicos, como o Anthony Joshua e o Tyson Fury, mas o meu ídolo continua a ser o Mike Tyson. O homem mais duro do planeta. Se ganhar a medalha de ouro vou ser o homem mais duro da Commonwealth, o homem mais duro de Glasgow e o novo rei da Escócia”, concluiu.