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Yan Diomande: o novo craque do Real Madrid que joga pela irmã e que já não vê o futebol como um jogo

Começou numa casa onde fingia que ia dormir e depois "ligava a televisão bem baixinha, via futebol no escuro e sonhava". Agora chega a Madrid e quer ser o "melhor do mundo" — ou "morrerá a tentar".

Manuel Conceição Carvalho
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Está a ser a grande novela do mercado de transferências de verão e não é só ele quem a está a escrever. Yan Diomande foi um dos destaques da Costa do Marfim no Mundial 2026 e a Europa do futebol esteve atenta a todos os passos que o extremo do RB Leipzig foi dando com a campanha dos africanos no Campeonato do Mundo. A sua seleção acabou eliminada pela sensação Noruega nos 16 avos de final da competição, bem longe da final, cujo caminho costuma fazer esquecer quem sai cedo da prova. Não foi o caso de Yan Diomande, que conquistou o coração dos adeptos — dentro e fora do relvado.

A Costa do Marfim foi eliminada numa fase ainda prematura do Mundial, é certo, mas deixou a imagem de bater sempre o pé aos principais conjuntos que defrontou: contra a Alemanha, esteve em vantagem durante mais de uma hora e perdeu com um golo nos últimos instantes do jogo; contra a Noruega — uma das grandes surpresas da competição — a história foi idêntica, com o golo da derrota a surgir quando faltavam apenas quatro minutos para os 90′. Tudo isto, depois de vencerem a seleção francesa — uma das grandes favoritas —, 11 dias depois de se estrearem na prova.

No centro de uma seleção costa-marfinense jovem e talentosa, surge Yan Diomande, o mais novo do grupo e uma das grandes promessas do país e a estrela do jogo de estreia dos africanos no Mundial-2026, diante do Equador. Ao que tudo indica, está a um passo de ingressar no Real Madrid de José Mourinho, por cerca de 100 milhões de euros — o mesmo valor que o Liverpool tinha oferecido em junho, mas que o clube alemão tinha recusado.

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Ainda em junho, antes da eliminação da Costa do Marfim do Mundial, Marcel Schafer, diretor-geral desportivo do RB Leipzig, parecia inabalável com as propostas — incluindo a dos reds — que lhe chegavam pelo atleta africano: “A nossa intenção é clara: o Yan Diomande vai jogar pelo RB Leipzig na próxima época e não vamos recuar nessa decisão. Sabemos o que ele vale. Claro que, se o Yan continuar a evoluir desta forma, chegará o momento de lhe darmos a oportunidade de dar o próximo passo, mas não este ano“, afirmou ao jornal alemão Bild.

https://twitter.com/FIFAWorldCup/status/2066335059351662631

A evolução a que Schafer se referia tinha a ver não só com a presença de Diomande no Mundial 2026 como com os 13 golos e nove assistências em 36 jogos pelo RB Leipzig, que acabou a temporada 2025/26 em 3.º lugar da Bundesliga. Diomande, com apenas 19 anos, foi um dos atletas mais utilizados por Ole Werner, técnico do conjunto alemão.

https://twitter.com/Bundesliga_EN/status/2032026310147797396

Mas o caminho de Diomande não se resume a tabelas estatísticas compostas por golos e assistências — uma carta que o atleta escreveu em homenagem à sua irmã, que morreu envenenada numa festa em 2025, comprova-o. Até chegar ao Leganés, o seu primeiro clube na Europa a nível sénior, Yan Diomande realizou treinos de captação em diversos clubes europeus, como o Bournemouth, Chelsea, Rangers, Olympiacos e Crystal Palace: não foi contratado por nenhum, nem por qualquer equipa da MLS. Antes sequer de chegar ao patamar de tentar a sua sorte em clubes europeus do primeiro escalão, o costa-marfinense cresceu numa casa com 25 pessoas em Abidjan, a maior metrópole da Costa do Marfim, e já tinha um ídolo, que subiu (ainda mais) a fasquia dos nomes mais icónicos de Madrid com a camisola merengue: Cristiano Ronaldo. “Querida Roxane, lembras-te de quando alguém me comprou uma camisola falsa do United e eu escrevi ‘Ronaldo 7’ nas costas com o marcador preto? Não sabíamos o que era ser rico ou pobre. Só conhecíamos a felicidade”, começou por escrever no The Players Tribune.

“Lembras-te das 25 pessoas a dormir numa única casa, lá em Abidjan? A mãe queria ver as suas telenovelas. Todos os outros queriam ver filmes. Lembras-te de como eu costumava fingir que estava a dormir e depois ia para a sala de televisão depois da meia-noite? Ligava a televisão bem baixinha. Apenas com duas riscas de volume. Via futebol no escuro e sonhava“, acrescentou, antes de contar uma das suas primeiras experiências no futebol, “longe de casa” e com apenas nove anos. “No Inter Foot Sud Comoé, bem perto da fronteira com o Gana. Era só um menino sozinho. Não sei se já te contei esta história, mas eu e os outros miúdos costumávamos ir à aldeia roubar batatas porque estávamos com muita fome. Fazíamos um ‘assalto a um banco’. Dois miúdos distraíam o dono da loja e outros 18 saíam a correr com duas batatas. Nem sequer eram boas. Mas sabiam maravilhosamente bem”, contou, enquanto continuava a dirigir-se à sua irmã Roxane, que, aos 10 anos, já era a sua agente, nas palavras do próprio.

“Lembras-te de quando eu voltava para casa e tu dizias aos meus amigos do bairro: ‘Porque é que deixaste de treinar? O Yan não te vai comprar carros. Tens de continuar a esforçar-te’. Tinhas 10 anos e já eras a minha agente”, prosseguiu, recordando o dia em que conseguiu as suas primeiras chuteiras. “Lembras-te de quando comprei as minhas primeiras chuteiras a sério e costumava dormir com elas calçadas? Enquanto cresci, jogava sempre com aquelas sandálias brancas de plástico. Mesmo agora, quando volto a casa, continuo a jogar com elas. É a nossa tradição”, revelou.

Mais tarde, surgiu a oportunidade de Diomande ir para os EUA com 15 anos, para frequentar o secundário, onde “não sabia o que ninguém dizia durante meses” e sentia “muitas saudades de casa”. O próprio atleta recorda que o sentaram “ao lado de um miúdo francês” e que “ele tentava traduzir tudo o que o professor dizia”, antes de recordar os treinos de captação que teve em vários clubes europeus, onde se cruzou com dois nomes hoje conhecidos do futebol internacional. “Lembras-te de quando me levaram para fazer um teste em Bournemouth? No Chelsea, nos Rangers, no Olympiacos, no Crystal Palace? O Eze e o Olise até vieram ter comigo depois de um treino e disseram: ‘Ei, miúdo, és mesmo bom’. Mas mesmo assim não me contrataram“, escreveu.

As ‘negas’ estenderam-se a clubes norte-americanos e o seu visto de permanência nos EUA expirou: “Nem sequer as equipas B da MLS me queriam. Eu nem sabia porquê. Nunca me deram uma razão. Os adultos tratavam de tudo. Continuavam a levar-me por toda a Europa, e toda a gente continuava a dizer que não. O meu visto tinha expirado. O meu sonho tinha acabado. Mandaram-me de volta para África e chorámos juntos”, lembrou. Mas Roxane, a sua irmã, “nunca deixou de acreditar”, sublinhou Yan Diomande, antes de escrever que, “poucas semanas depois”, assinou pelo Leganés, em janeiro de 2025. “Chorámos lágrimas diferentes”, recordou.

Foram apenas necessários 10 jogos em Espanha para convencer o RB Leipzig, que pagou 20 milhões de euros ao Leganés e resgatou Diomande para o seu plantel da época passada. A história recente de Diomande é bem mais curta que o seu passado, muito marcado pela morte da sua irmã Roxane, que desde sempre acreditou que Diomande “poderia ser o próximo Cristiano, quando todos os outros se riam”.

https://twitter.com/CDLeganes/status/1927375775373603212

“Isso foi na altura em que eu ainda tinha emoções. Agora, já não sinto nada. É como se nem sequer fosse humano. Desde que morreste, sinto-me vazio”, rematou Yan Diomande na carta que escreveu à sua irmã, a dias de se estrear num Campeonato do Mundo. Yan Diomande dedica cada momento da sua carreira à sua irmã. “Tudo o que faço num campo de futebol, é por ti”, escreveu. Recordou também que, após a sua estreia no Leganés, contra o Real Madrid, trocou de camisola com Mbappé, mas sublinha que a irmã sempre o considerou superior a qualquer estrela.

E, apesar do sucesso já em Espanha, Diomande admitiu que passou a ver o dinheiro que passou a ganhar a jogar futebol como “apenas um fardo”. “Tudo o que eu ganhava, mandava para casa. Chegou ao ponto de eu já nem querer dinheiro. Era apenas um fardo. Eles nunca paravam de pedir. Acho que pensavam que eu já era milionário. Eu nem sequer tinha um apartamento. Vivia no centro de treinos, num quarto sem televisão. Só futebol e dormir, futebol e dormir”, explicou.

Nas palavras do iminente reforço do Real Madrid, o relvado é o único local onde Diomande se sente em casa. “É o local onde me sinto calmo e onde posso falar contigo”, desabafou o atleta africano, referindo-se à sua irmã. E já não olha para o futebol como um jogo. Olha para ele “como um palco”, onde tem a oportunidade de mostrar aquilo que a irmã viu nele, explica Diomande. “Todas as vezes que marcar, vou certificar-me de que toda a gente conhece o teu nome. Vou certificar-me de que não se esquecem de ti”, acrescentou.

“Gostava que ainda estivesses aqui para que te pudesse dizer que ‘conseguimo-lo'”, concluiu, antes de fazer uma promessa: “Vou fazer o que previste, juro. Antes mesmo de eu ter umas botas de futebol a sério, já dizias a toda a gente: ‘O meu irmão vai ser o melhor do mundo’. Vou provar que tinhas razão, ou morrerei a tentar”. Dois anos depois de ver o seu visto expirado, de ter sido rejeitado por vários clubes e de voltar para África numa altura em que julgava que o seu sonho tinha acabado, Yan Diomande vai tentar provar que a irmã Roxane tinha razão num dos maiores clubes do mundo ao lado de José Mourinho: o Real Madrid.