Na política, quando um candidato pertence ao nosso partido, presume-se frequentemente que é competente, sério e preparado. Quando pertence a outro, é muitas vezes rejeitado antes mesmo de falar. A camisola substitui a análise, a lealdade partidária dispensa perguntas e o voto transforma-se no apoio a uma equipa de futebol.
Mas um candidato não se torna melhor do que outro apenas pela camisola que veste.
Uma sigla não transforma incompetência em competência. Não substitui preparação, carácter, experiência, capacidade de liderança ou conhecimento da realidade.
Esta questão é importante em qualquer eleição, mas torna-se ainda mais relevante a nível local.
Numa freguesia ou num município, a política não acontece num lugar distante. Acontece nos passeios que percorremos, na iluminação das ruas onde moramos, na limpeza dos espaços públicos, na manutenção dos jardins, no apoio às associações e na resposta dada aos problemas concretos da população.
A política local é política de proximidade. Por isso, escolher quem vai conduzir as decisões da nossa terra exige um cuidado ainda maior.
É preciso olhar para a pessoa.
Perceber, através do seu percurso e da forma como se relaciona com os outros, se sabe ouvir, se assume responsabilidades, se tem capacidade para liderar equipas e tomar decisões e se concorre para servir a sua terra ou apenas para satisfazer uma ambição pessoal.
A ambição é legítima. Querer participar, assumir responsabilidades e fazer melhor não é um defeito. O problema começa quando o objetivo deixa de ser servir a população e passa a ser apenas chegar ao lugar.
Há quem construa o seu percurso apresentando ideias. Outros constroem-no apenas criticando o trabalho dos outros, porque atacar dá frequentemente mais palco do que apresentar trabalho próprio.
Um bom candidato deve afirmar-se pelo que faz, não pela capacidade de diminuir aquilo que os outros fazem.
Falar mais não significa dizer mais.
Ruído não é obra feita.
Há pessoas que parecem acreditar que, se falarem suficientemente alto e atacarem um número suficiente de adversários, ninguém reparará na sua falta de competência.
Podem conseguir atenção, publicações e alguns aplausos.
Mas existe uma diferença profunda entre receber aplausos e merecer a confiança de quem vota.
Quando alguém bloqueia nas redes sociais quem o critica e continua depois a atacá-lo, sabendo que essa pessoa não pode responder diretamente, não está a promover o debate. Está a garantir um palco sem contraditório.
Isso não é coragem. É encenação.
Fiscalizar é indispensável. Questionar é necessário. Criticar faz parte da democracia. Mas uma política séria não pode viver apenas de ataques. Exige alternativas, posições fundamentadas e responsabilidade pelas consequências das propostas apresentadas.
Exige também a capacidade de reconhecer uma boa ideia, mesmo quando não foi nossa.
O mérito de uma pessoa não diminui por reconhecer o trabalho de outra. Pelo contrário, atribuir o devido mérito demonstra segurança, carácter e maturidade.
Quando alguém precisa permanentemente de diminuir os outros para parecer maior, talvez o problema não esteja na dimensão dos outros.
E quem precisa de derrubar todos os que encontra pela frente para conseguir subir talvez não tenha altura para o lugar a que aspira.
Esta avaliação deve ser feita pelos eleitores, mas também pelos próprios partidos.
Os partidos também erram. Nem todos os candidatos de um bom partido são bons candidatos. Por vezes, escolhem os mais próximos em vez dos mais competentes, os mais ruidosos em vez dos mais preparados e os mais obedientes em vez dos mais capazes.
Um cargo público não deve ser uma recompensa por lealdades, um prémio por persistência partidária ou uma oportunidade para satisfazer ambições pessoais.
É uma responsabilidade perante milhares de pessoas.
Por isso, antes de votar, não basta perguntar a que partido pertence o candidato.
É preciso perguntar quem é.
Que trabalho apresentou?
Conhece verdadeiramente a terra que pretende governar e os seus problemas?
Sabe trabalhar em equipa?
Respeita quem discorda?
Consegue criticar sem insultar?
Tem competência para executar aquilo que promete?
Estas perguntas são muito mais importantes do que olhar para a camisola que veste.
A camisola não governa. Não estuda os documentos, não lidera equipas, não ouve os cidadãos e não toma decisões. Tudo isso é feito pela pessoa que está dentro dela.
Por isso, numa eleição, devemos ter muito cuidado com quem escolhemos para governar o lugar onde vivemos.
Porque a camisola não torna competente quem a veste, nem faz de quem a veste um líder.