The Com. O nome soa inofensivo. Poderia ser uma plataforma tecnológica, um fórum de jogadores ou uma nova rede social. Mas é hoje uma das designações que mais preocupam a Europol. Não por estar associada a uma organização terrorista convencional, mas porque identifica um ecossistema digital onde a violência pode transformar-se em identidade e a vulnerabilidade dos jovens em matéria-prima para recrutamento.
No dia 24 de julho de 2026, a Europol anunciou uma operação internacional contra este ecossistema digital, cujo nome resulta da abreviatura de The Community. Durante várias semanas, em junho e julho, investigadores de nove países participaram na missão com o objetivo de perturbar a sua atividade online, limitar a disseminação de propaganda e identificar novas pistas de investigação. O resultado foi a remoção de cerca de 4.340 endereços eletrónicos associados a conteúdos violentos e perturbadores. A iniciativa foi organizada pela Unidade de Referenciação da Internet da Europol e pelo Centro de Inteligência contra o Terrorismo e o Crime Organizado de Espanha, no quadro de um esforço mais amplo integrado no Project COMPASS, coordenado pelo Centro Europeu de Contraterrorismo.
À primeira vista, pode parecer mais uma operação de remoção de conteúdos extremistas da internet. Não é. O que torna este caso especialmente relevante é que The Com não corresponde ao modelo clássico de organização terrorista ou extremista. Não estamos perante uma estrutura hierárquica, com liderança definida, doutrina coerente e objetivos políticos claramente formulados. Segundo a Europol, trata-se de uma rede difusa de grupos online, unidos por uma visão niilista e misantrópica do mundo, na qual a violência surge muitas vezes não como instrumento para alcançar um fim, mas como fim em si mesma.
O fenómeno desafia as limitações das tipologias de terrorismo definidas pela Europol. O terrorismo jihadista pretende instaurar uma determinada ordem religiosa e política. O terrorismo extrema-direita procura impor uma determinada visão identitária da sociedade. O terrorismo de extrema-esquerda procura substituir o sistema económico e político vigente por outro considerado mais justo. Todos possuem, pelo menos em teoria, uma visão de futuro. Já fenómenos como o The Com parecem mover-se num território mais sombrio: o da destruição sem projeto, da violência sem causa e da crueldade transformada em identidade.
É isso que torna esta ameaça tão difícil de compreender e tão complexa de combater. Durante décadas, as Forças e serviços de segurança habituaram-se a procurar sinais ideológicos: manifestos, discursos, símbolos, líderes, redes de financiamento, contactos operacionais. Aqui, porém, o perigo está muitas vezes em códigos, emojis, desafios, vídeos, humilhações, chantagens, memes violentos e interações aparentemente dispersas. A radicalização não se apresenta necessariamente como doutrina. Apresenta-se como jogo, provocação, transgressão e pertença.
A Europol refere que os grupos associados ao The Com recrutam membros e aliciam vítimas através de redes sociais, aplicações de mensagens e plataformas de jogos. O objetivo é atrair jovens para espaços digitais cada vez mais fechados, onde são sujeitos a manipulação psicológica, coerção e exposição progressiva a conteúdos e comportamentos cada vez mais violentos.
Este ponto é decisivo, porque revela a verdadeira natureza da ameaça. O The Com não é apenas um fenómeno extremista nem apenas um problema de criminalidade sexual, violência juvenil ou cibercrime. É a convergência de todos estes fenómenos num mesmo ecossistema digital. A fronteira entre vítima e agressor torna-se, por vezes, difusa: menores vulneráveis podem ser primeiro manipulados, depois coagidos e, finalmente, empurrados para reproduzir a violência sobre outros. O sofrimento deixa de ser apenas consumido e passa a ser produzido como prova de pertença ao grupo.
O que está em causa é uma forma particularmente perversa de socialização negativa. A criança ou adolescente isolado encontra uma comunidade. Essa comunidade oferece atenção, reconhecimento e estatuto. Mas o preço de entrada é a destruição progressiva da empatia. Primeiro, consome-se conteúdo violento. Depois, tolera-se. Depois, partilha-se. Depois, participa-se. A descida é gradual, mas o destino é devastador.
Importa sublinhar outro elemento perturbador: esta realidade não vive apenas na chamada dark web. A Europol alerta para o uso de plataformas acessíveis e amplamente frequentadas por jovens. Redes sociais, aplicações de mensagens e jogos online funcionam como portas de entrada. A partir daí, os potenciais membros ou vítimas são encaminhados para fóruns privados e salas fechadas, onde a radicalização e a vitimização se intensificam.
Durante anos, discutimos os algoritmos quase sempre a propósito de publicidade, privacidade, desinformação ou polarização política. Mas há uma pergunta mais incómoda que teremos de enfrentar: que acontece quando sistemas desenhados para maximizar atenção expõem adolescentes emocionalmente frágeis a conteúdos cada vez mais extremos? A Europol foi clara ao afirmar que jovens podem ser expostos a material extremista quer o procurem, quer não, e que conteúdos inicialmente aparentemente inofensivos podem escalar rapidamente para violência extrema e material traumático.
Também por isso, a discussão sobre segurança interna terá de mudar. Não podemos continuar a tratar a radicalização apenas como adesão a uma ideologia. Em muitos destes fenómenos, talvez seja mais adequado falar de manipulação, compulsão, isolamento e corrosão moral. O problema não é apenas aquilo em que os jovens passam a acreditar. É aquilo que deixam de sentir. Deixam de sentir repulsa perante a crueldade. Deixam de reconhecer a humanidade da vítima. Deixam de distinguir provocação de violência real. Deixam, em última análise, de perceber que há limites que não podem ser ultrapassados.
A operação da Europol deve, por isso, ser lida como um aviso. Um aviso às autoridades, para que reforcem a cooperação internacional e a capacidade de deteção precoce. Um aviso às plataformas, para que deixem de tratar estes fenómenos como meros problemas de moderação de conteúdos. Um aviso às escolas, para que a literacia digital inclua também a identificação de manipulação, coerção e violência online. E um aviso aos pais, talvez o mais difícil de todos: já não basta perguntar com quem os filhos andam na rua.
Hoje é preciso perguntar também quem os acompanha online.
The Com mostra-nos que a ameaça contemporânea pode não chegar com bandeiras, manifestos ou líderes carismáticos. Pode chegar através de uma notificação. De um convite para um grupo. De uma conversa aparentemente banal. De um vídeo recomendado por um algoritmo.
Durante décadas, ensinámos os nossos filhos a desconfiar de estranhos na rua. Hoje, os estranhos já não estão na rua.
Estão no ecrã.
E, por vezes, conhecem os nossos filhos melhor do que nós.