A 19 de junho de 1857, em tempos de Napoleão III, foi promulgada a lei que impôs a florestação de milhares de hectares de terras pantanosas nos territórios da Gironde e Landes. Foi assim que a região da Nova-Aquitânia ganhou nova roupagem, um grande perímetro de lodaçais e dunas foi ocupado por uma vasta cultura de pinheiro-bravo, área hoje apelidada de Floresta das Landes. Deu-se deste modo um grande desenvolvimento económico: produção de resina (técnica ao que parece, ancestral nas paragens), exploração intensiva de madeira até à implementação da indústria do papel. Verificou-se igualmente o progresso das comunas piscatórias situadas em torno da Baía de Arcachon, hoje uma reputada estação balnear. Tudo isto, benesse do pinheiro. A floresta artificial das Landes, representa na atualidade, um território de aproximadamente um milhão de hectares de monocultura, um dos maiores braseiros da Europa. As monoculturas florestais são sensíveis aos fogos, impulsionadoras de uma rápida propagação de incêndios e até zonas adjacentes, povoações e reservas naturais. Impossível deixar de relacionar este caso com a realidade portuguesa: segundo dados do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, a cultura do eucalipto ocupa 26% da superfície florestal nacional.
Dado o momento estival propício, hoje iremos até à Baía de Arcachon. Estação balnear desde o séc. XIX, até aqui chegavam pessoas abastadas vindas de toda a Europa, eram agraciadas pelo ar do mar e do pinhal, vinham em busca de refúgio, afastavam-se dos surtos de tuberculose e aproveitavam as águas terapêuticas da nascente de Sainte Anne des Abatilles. Inúmeras foram as figuras de destaque hospedadas na Baía de Arcachon, desde a Princesa Sissi ao pintor Salvador Dalí. Durante quase uma década, este também foi um dos meus lugares de retiro. Parisiense que era, entrava num TGV e 3h mais tarde e 600km percorridos, a chegada ao paraíso. A umas estações antes de Arcachon, havia sempre um odor inconveniente vindo da fábrica de papel de Biganos. Uma vez bem instaladas, encontravam-se até quatro gerações de amigos reunidas num ambiente familiar. Estavam sempre presentes os da casa, por vezes os que vinham de Paris, Luxemburgo, Casablanca… Na mesa nunca faltava um bom vinho Bordeaux, peixe fresco e um “plateau” de queijos adquiridos no mercado local e meticulosamente selecionados. Escapadas de fim de semana, férias, festas de aniversário, festas de fim de ano, tudo era desculpa para uma estadia na Baía de Arcachon. Recordo-me do descanso merecido, de saber o nome dos pássaros e das flores, das caminhadas de fim de tarde bem junto às cabanas de ostras do porto da comuna da Teste, dos mergulhos no mar a qualquer hora do dia, dos passeios de barco até ao Cap Ferret… Ao longo das praias deste cabo, restam vestígios vários da “Muralha do Atlântico”, imaginada e executada pelos alemães. A Baía de Arcachon foi “alemã” durante a Segunda Guerra Mundial. Envolvida pela História e riqueza natural da região, conseguia perceber que durante o Verão, fogos florestais aí eram recorrentes.
Os incêndios de julho de 2026 na região da Nova-Aquitânia têm origem em dois focos distintos, e dada a evolução, estes parecem convergir. Um deles desenvolveu-se na comuna de Biscarosse (Landes) e alastra-se em direção a norte, onde um incêndio anterior se encontra igualmente ativo, na zona do Cap Ferret (Gironde). Este último, tende a aproximar-se da metrópole de Bordéus. Testemunhos oculares apontam a ação humana acidental como a causa dos sinistros. Paralelamente a estes, em declarações feitas a 23 de julho, Thierry Gouaichault, Presidente da comuna de La Teste-de-Buch, confirmou a tentativa de fogo posto numa área aproximada à Duna de Pilat, tendo sido recolhidas provas no local, entre elas um isqueiro, pela Police Nationale. O princípio de incêndio em assunto foi rapidamente extinto graças à prontidão dos bombeiros sapadores locais, previamente alertados pelos transeuntes que se encontravam no alto da duna. Todas estas ocorrências merecem uma investigação aprofundada. A questão da monocultura, anteriormente citada, é um fator intensificador da atual situação alarmante de fogos florestais nesta região, do mesmo modo que os fenómenos climáticos devem ser considerados. Face às atuais circunstâncias, França ativou o dispositivo do Mecanismo de Proteção Civil da União Europeia. Numa publicação feita a 26 de julho na plataforma “X”, o Presidente da República Francesa, Emmanuel Macron, agradeceu a cooperação de Portugal pelo envio de duas aeronaves Air Tractor. No mesmo dia, Catherine Vautrin, Ministra das Forças Armadas, confirmou a mobilização de 1500 militares para a ajuda no combate aos incêndios do sudoeste do país. De acordo com o jornal Le Figaro, o corrente incêndio florestal da Gironde já é “o mais devastador dos últimos 50 anos em França”. As últimas imagens e relatos que nos chegam mostram um cenário de catástrofe, vilas inteiras calcinadas, animais em fuga, milhares pessoas desalojadas, forças de combate esgotadas e uma vastidão de área ardida.