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Operação Top Secret. Serviços secretos dos EUA queriam lançar armadilha para acelerar detenção do espião do SIS

CIA confirmou suspeitas do SIS em 2015: Carvalhão Gil vendia informações aos russos. Durante investigação, funcionários da CIA convidaram portugueses até à sede: queriam atrair espião para armadilha.

Pedro Raínho
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Os serviços secretos norte-americanos tentaram acelerar a investigação a Frederico Carvalhão Gil, o espião do SIS suspeito de vender informações classificadas à Rússia. Numa reunião em Langley, na sede da CIA, a equipa responsável pelo caso de Carvalhão Gil foi desafiada a seguir uma estratégia alternativa e conduzir o homem do SIS a uma armadilha. A proposta da agência norte-americana esbarrou nas barreiras legais portuguesas.

O processo contra o espião do SIS foi formalmente criado a 10 de novembro de 2015 e ficou na mão dos procuradores do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) João Melo e Vítor Magalhães. Mas, meses antes desse momento, já os serviços de informações norte-americanos tinham dado o alerta para a existência de uma toupeira no SIS, apurou o Observador junto de fonte conhecedora de todo o processo.

Em junho desse ano, uma funcionária da CIA deslocou-se pessoalmente ao Forte da Ameixoeira, reuniu-se com o responsável dos Serviços de Informações e Segurança, Adélio Neiva da Cruz, e entregou-lhe uma folha com um nome: Frederico Carvalhão Gil.

A conversa foi breve, mas relevante. O encontro serviu para a CIA alertar os serviços em Lisboa para a existência de fortes suspeitas em relação àquele funcionário. Estaria a encontrar-se com elementos do SVR, o braço externo das secretas russas, e poderia estar a passar informações sensíveis a um serviço considerado inimigo. O encontro é retratado no primeiro episódio do novo Podcast Plus do Observador, “A Vida Dupla do Espião Traidor”.

A referência explícita a Carvalhão Gil veio confirmar as suspeitas de que alguém, dentro dos serviços em Lisboa, estaria a passar informações para o exterior — várias missões teriam ficado comprometidas nos últimos tempos. E isso, acreditavam os mais altos responsáveis dos Serviços de Informações da República Portuguesa, só se explicava com a existência de uma “toupeira”.

Nesses meses, um grupo muito restrito no SIS tinha lançado uma investigação preliminar, oficiosa, para identificar potenciais responsáveis pelas fugas de informação. Entre os possíveis suspeitos estava precisamente aquele veterano das secretas — e agora a CIA dava mais força à tese de que Frederico Carvalhão Gil tinha passado para o outro lado. A consequência foi imediata: redobraram-se cuidados para garantir que Carvalhão Gil — o representante do SIS em reuniões de alta segurança da NATO — não tinha contacto com dados sensíveis.

A “armadilha” que a CIA queria lançar ao espião português

No início de novembro de 2015, a pedido do SIS, Carvalhão Gil está a ser vigiado pelos serviços secretos eslovenos quando se encontra em Liubliana com Sergey Nicolaevich Pozdnyakov. A conversa fica registada em vídeo e os fotogramas rapidamente chegam ao gabinete de Júlio Pereira, o responsável máximo do SIRP. Logo a seguir, a informação é comunicada à então Procuradora-geral da República, Joana Marques Vidal, e os procuradores do DCIAP avançam com o inquérito.

Mas, cerca de três meses mais tarde, a ausência de resultados começa a gerar preocupações no número 1000 da Colonial Farm Road, em Langley, no estado da Virgínia. Na sede da CIA, ter um espião de serviços amigos a encontrar-se com as secretas russas não deixa ninguém indiferente. Nem tranquilo. Menos ainda quando, durante os últimos anos, esse espião teve acesso a muita informação considerada sensível sobre a forma como a NATO poderia reagir caso um dos seus membros fosse alvo de um ataque militar. E, por isso, a decisão é entrar em ação. A CIA quer tentar acelerar as coisas.

A Lisboa chega, nas primeiras semanas de 2016, um convite para um encontro nas instalações dos serviços de informações. Os procuradores João Melo e Vítor Magalhães viajam para os Estados Unidos. No mesmo voo seguem a então coordenadora de investigação criminal da Unidade de Contraterrorismo da PJ, Manuela Santos, e ainda um representante do SIS.

Na sede da CIA, os portugueses vão encontrar-se com funcionários da agência norte-americana e, também, com agentes do FBI. A proposta que ouvem apanha-os de surpresa: querem levar o espião português a vender-lhes segredos. Para isso, propõem criar uma personagem fictícia, um cidadão do leste da Europa — talvez até de cidadania russa — que iria entrar em contacto com Carvalhão Gil e demonstrar interesse em informações sensíveis que o espião do SIS pudesse ter em sua posse.

Os portugueses não têm dúvidas: à luz da legislação nacional, aquele plano simplesmente não pode ser executado. Seria uma clara violação da lei, ninguém pode ser levado pelas autoridades a cometer um crime. Toda a investigação feita até àquele momento cairia por terra. Por isso, procuram tranquilizar os espiões norte-americanos e manifestam-lhes a convicção de que é uma questão de tempo. Carvalhão Gil vai voltar a encontrar-se com o controlador russo.

Semanas mais tarde, uma escuta a um dos telemóveis do espião revela que ele se prepara para viajar para fora do país. A informação surpreende todos os envolvidos na investigação — e até no Forte da Ameixoeira a notícia é recebida com espanto. O espião tinha pedido dois dias de folga, mas disse que ia à Beira Baixa, de onde é originário, tratar de assuntos pessoais.

A 21 de maio de 2016, uma megaoperação da PJ e das autoridades italianas conduz ao desfecho da investigação. Frederico Carvalhão Gil é apanhado em flagrante em Roma. Estava à mesa de um café na capital italiana e à sua frente, sentado à mesma mesa, estava um nome já conhecido das autoridades nacionais: Sergey Nicolaevich Pozdnyakov, espião russo do SVR, o controlador do homem do SIS.

[Os serviços secretos portugueses enfrentam uma crise de segurança sem precedentes: existe uma toupeira infiltrada no SIS. A suspeita é de que esteja a vender segredos da NATO à Rússia de Putin. E a confirmação final vai ser feita pelas secretas norte-americanas: a CIA traz o nome de um dos espiões mais antigos do serviço. Já estreou “A Vida Dupla do Espião Traidor”, o novo Podcast Plus do Observador. Pode ouvir o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]