Mesmo sob o risco de sair da linha de sucessão do trono da casa imperial do Brasil, Rafael de Orleans e Bragança não parece disposto a desfazer o seu noivado com a aristocrata italiana Margherita delle Piane. No sábado, o intitulado príncipe imperial do Brasil compareceu ao casamento da arquiduquesa Isabel de Habsburgo acompanhado pela noiva, na primeira aparição pública desde que o noivado foi anunciado. No evento, estiveram também presentes Dinis de Bragança com a noiva, Anna Schaffgotsch, e membros de outras casas reais.
Numa das imagens, Rafael posa entre a noiva, Margherita, e a irmã, Maria Gabriela de Orleans e Bragança — que deve ocupar o seu lugar na linha de sucessão caso o príncipe renuncie ao trono. O anúncio do casamento não agradou ao tio, Bertrand de Orleans e Bragança, atual chefe daquela casa imperial cuja atuação é meramente simbólica, tendo em conta que o Brasil aboliu a monarquia a 15 de novembro de 1889.

“Será uma deceção a mais para os monarquistas brasileiros que, depois do falecimento de Dom Pedro Luiz, tinham em você a esperança de uma continuidade dinástica à frente da nossa família”, escreveu Bertrand de Orleans e Bragança numa carta datada de 13 de maio deste ano, divulgada pela associação Centro Dom Bosco e reproduzida em páginas de apoiantes da monarquia. A mensagem foi escrita quando Bertrand soube das intenções de Rafael de pedir Margherita, que não integra nenhuma casa real, em casamento.
No texto, o tio de Rafael recorda os casamentos dinásticos já realizados na família e a norma de conduta estabelecida pela Princesa Isabel. “Príncipe ou princesa que não estiver disposto a realizar um casamento reconhecido como dinástico pelo chefe da casa e optar por dar primazia a preferências afetivas, haverá de deixar a linha de sucessão imperial”. Bertrand afirma ainda que Antônio — que é pai de Rafael e morreu em novembro de 2024 — corroborava tal preceito. “Em nenhuma das vezes falou sobre este tipo de exceção [a realização de um casamento não dinástico na família Orleans e Bragança] e inclusive dizia que aplicaria a lei mesmo que fosse com os filhos dele“, escreveu.
Nesta primeira carta, Bertrand tentava alertar Rafael para a perda do seu título e também da herança ao trono real, que seriam formalizadas sem que fosse preciso que este assinasse uma renúncia. “A realização de um casamento não dinástico seu significará, ipso facto, e para todos os efeitos, a renúncia efetiva e inválida, ainda que tácita, aos seus direitos dinásticos”. A resposta de Rafael ao seu tio ocorreu a 15 de maio, mas apenas o teor do texto foi divulgado publicamente. Terá lamentado “a forma particularmente dura, fria e pouco sensível” com que Bertrand lidou com o seu noivado, citando ainda exemplos de casas reais que admitiram matrimónios com pessoas sem origem dinástica.
A réplica de Bertrand foi divulgada na íntegra, reafirmando o “anseio por uma ordem de coisas mais tradicional e conservadora” e a reprovação ao enlace. “Vejo que você não conseguiu entender a gravíssima questão de fundo que envolve o seu projeto de casamento. Não são ‘alianças políticas ou questões diplomáticas’ que estão em jogo”, disse. “Trata-se de uma questão de sobrevivência para a missão histórica da nossa família, com tudo o que essa missão significa de sacrifícios”.
Os “sacrifícios” citados por Bertrand tiveram início já na infância dos membros da casa imperial do Brasil, quando a sua mãe “muitas vezes negava” o pedido dos filhos por um gelado quando estes viam outras crianças a comer. “Se não conseguem agora renunciar a um gelado, como farão no futuro, quando o Brasil lhes pedir grandes sacrifícios?”, referiu. Relativamente às casas reais mencionadas por Rafael como exemplos, Bertrand afirmou que estas são “grandes perigos a evitar“, e que estiveram envolvidas, na última década, na produção de uma “quantidade de escândalos mediáticos“.