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"Fomos enganados pela propaganda russa." Estão os apoiantes de Trump a mudar de opinião sobre a Ucrânia?

Depois de anos de hostilidade em relação à Ucrânia, a visita da influencer Laura Loomer a Kiev mostra como o movimento MAGA está a mudar de opinião — e como a base de Trump se começa a render ao país.

José Carlos Duarte
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Numa esplanada, tendo como pano de fundo um edifício destruído por mísseis russos em Kiev, Laura Loomer provava um hambúrguer do McDonald’s na capital ucraniana. “É muito bom. É um hambúrguer que tem a receita do McDonald’s da América. Não aquela porcaria que é uma cópia barata da Rússia”, descrevia a influencer, uma das mais influentes no seio do Make America Great Again (MAGA) — o movimento que representa uma das principais bases eleitorais do Presidente norte-americano, Donald Trump.

Laura Loomer mudou radicalmente de opinião sobre o conflito ucraniano. Nos meses após a invasão, a ativista chegou a difundir teorias de conspiração e a dizer que a Ucrânia “estava cheia de nazis”. Nos últimos dias, a influencer foi a Kiev, entrevistou o Presidente e tem feito vários elogios a Volodymyr Zelensky. Uma autêntica mudança de 180 graus, mas que não é totalmente inédita: vários apoiantes do MAGA — que eram hostis à Ucrânia — alteraram o seu posicionamento nos últimos meses.

Para grande parte dos apoiantes da direita radical norte-americana, a Ucrânia era vista como um país hostil para o qual os EUA (em particular, a administração Biden) enviavam somas avultadas de dinheiro público. Em contrapartida, o regime russo era bem visto por influencers conservadores, que até o apontavam como um modelo a seguir por Donald Trump. Durante o período que antecedeu a campanha para as eleições de 2024, o Kremlin tentou seduzir a base do movimento através das redes sociais — uma estratégia inicialmente bem-sucedida, mas que começa agora a demonstrar algumas falhas.

https://twitter.com/LauraLoomer/status/2080374206072545743

Este movimento da sua base eleitoral não foi indiferente para Donald Trump. Na Truth Social, o Presidente dos Estados Unidos partilhou a entrevista de Laura Loomer a Volodymyr Zelensky e até chegou a escrever: “Muito bem!”. Mais: questionado pelos jornalistas sobre o apoio crescente da base MAGA à Ucrânia, respondeu: “Eles apoiam o que eu apoio”, disse o líder norte-americano, que nunca escondeu (principalmente no início do segundo mandato) que sentia alguma animosidade por Volodymyr Zelensky — até chegou a discutir com o homólogo ucraniano na Sala Oval.

Esta terça-feira, o Presidente da Ucrânia regressa aos Estados Unidos, numa altura em que as imagens da discussão na Sala Oval parecem ter ficado no passado. No entanto, Zelensky deverá chegar a Washington ainda com alguns anticorpos, já que a base MAGA não aderiu em bloco à causa ucraniana — o vice-presidente JD Vance, por exemplo, nunca deu sinais de aproximação a Kiev. Contudo, há já um coro de vozes na direita radical norte-americana a contestar abertamente a ideia de que a Ucrânia devia ser abandonada, apoiando de forma declarada o país invadido.

A desconfiança alimentada pela propaganda russa

Na campanha para as presidenciais de 2024, a Ucrânia foi um tema que ganhou bastante preponderância. Os republicanos acusavam o então Presidente, Joe Biden, de passar “cheques em branco” para apoiar o esforço de guerra ucraniano. Donald Trump prometia terminar o conflito em 24 horas e lembrava frequentemente as boas relações que mantinha com Vladimir Putin. Apoiado por vozes isolacionistas — como a de JD Vance —, o agora Presidente dava sinais de acreditar que as hostilidades podiam cessar em pouco tempo, provavelmente à custa de cedências territoriais por parte de Kiev.

Num contexto bastante polarizado, muitas das vozes mais radicais do movimento MAGA defendiam que a administração Biden estava a alimentar um “partido da guerra” na Ucrânia, país liderado por “neonazis” e com um Presidente “corrupto” que não queria convocar eleições. Na perspetiva deste eleitorado, o conflito tinha de terminar a todo o custo — e a única forma era pressionar Kiev. Em plataformas como o X, após Elon Musk ter adquirido a rede social, esta narrativa começou a fixar-se na base do trumpismo.

A ideia de que a liderança ucraniana enriquecia com a ajuda militar norte-americana ou de que a Ucrânia era governada por um regime “neonazi” foi fortemente alimentada pela propaganda do Kremlin, interessado em minar o apoio ocidental. O movimento MAGA revelou-se a ferramenta ideal para a disseminação destas narrativas e teorias da conspiração, por causa da capacidade de pressão que esta base exerce sobre Donald Trump. Assim, vários ativistas passaram a replicar discursos pró-russos — alguns por afinidade ideológica e também isolacionista, outros na sequência de rublos de Moscovo.

Em setembro de 2024, por exemplo, o Departamento de Justiça norte-americano revelou que o canal estatal russo Russia Today terá injetado secretamente cerca de 10 milhões de dólares (cerca de 8,8 milhões de euros) numa empresa de media conservadora (a Tenet Media). O objetivo da operação era pagar a seis conhecidos influencers da direita radical para “amplificar as divisões domésticas dos Estados Unidos” e enfraquecer a oposição norte-americana aos interesses do Kremlin, nomeadamente no apoio à Ucrânia.

Moscovo dispunha dos meios e procurou forjar uma aliança ideológica com o movimento MAGA. Os propagandistas do Kremlin vendiam a Rússia como um baluarte do conservadorismo social e dos valores tradicionais cristãos — um modelo que, segundo esta narrativa que não corresponde à verdade, as elites ocidentais ambicionavam destruir através de sanções e até da guerra. Esta mensagem colou junto de muitos apoiantes de Donald Trump, que já de si propagavam discursos antissistema. Trump, ainda assim, manteve uma posição ambígua: nunca subscreveu totalmente estas posições pró-russas, mas raramente as censurou.

Mesmo tendo sido invadida, a Ucrânia era apresentada como a vilã no meio desta história: um país corrupto, manipulado pelas elites ocidentais que provocaram a Rússia, que, por sua vez, teve de agir e atacar o país vizinho em último recurso. Tudo isto ajuda a explicar que, em fevereiro de 2025, Donald Trump tenha sido bastante duro contra Volodymyr Zelensky nas redes sociais: “Um ditador sem eleições. Zelensky é bom que seja rápido a agir ou pode não ter mais um país.”

Nos primeiros meses da segunda administração Trump, a retórica era dura quer na Casa Branca, quer no seio do movimento MAGA. Mesmo que Volodymyr Zelensky tentasse elogiar o homólogo norte-americano e os europeus censurassem estas palavras, o Presidente norte-americano parecia empenhado em enfraquecer o líder ucraniano, que também atravessava uma fase negativa na linha da frente. Em Moscovo, o Kremlin sorria e deleitava-se: os esforços de propaganda junto da base eleitoral do trumpismo estavam a surtir o efeito desejado.

Este estado de tensão entre a presidência norte-americana e a Ucrânia atingiu o clímax durante a reunião na Sala Oval, em 28 de fevereiro de 2025. Donald Trump e JD Vance discutiram abertamente — perante as câmaras de televisão — com Volodymyr Zelensky. “Não tens mais cartas”, atirou-lhe o chefe de Estado norte-americano, enquanto o seu número dois questionava a gratidão do líder ucraniano: “Já disse alguma vez ‘obrigado’ desde que entrou aqui?”

O desaire diplomático foi tão aparatoso que o Kremlin já via mais perto um acordo de paz que lhe permitiria terminar a guerra com uma vitória em toda a linha. Os tempos seguintes foram complexos para as relações entre Kiev e Washington — a Casa Branca chegou mesmo a suspender o envio de informações confidenciais para a presidência ucraniana. Na entrevista a Laura Loomer, em julho de 2026, o Presidente ucraniano recordou que a relação com Donald Trump apenas melhorou após o encontro “de 15 a 20 minutos” que mantiveram no Vaticano, em abril de 2025, durante as cerimónias fúnebres do Papa Francisco.

A mudança de atitude que não é uniforme: o mea culpa de Laura Loomer

No último ano, Donald Trump e Volodymyr Zelensky melhoraram as relações entre si. Os dois líderes encontraram-se várias vezes. Continuava a haver alguma desconfiança, que ainda permanece hoje em dia. Porém, as discussões em frente às câmaras de televisão e a hostilidade deram lugar a sorrisos e a alguma ambiguidade.

No círculo mais próximo do Presidente norte-americano, a Ucrânia manteve sempre alguns aliados, apesar da tensão. O secretário de Estado e conselheiro de Segurança Nacional, Marco Rubio, nunca escondeu a desconfiança que sente em relação à Rússia. Quando era senador, apoiou fortemente o lado ucraniano, sendo uma voz que recupera a política intervencionista do Partido Republicano dos anos 2000, ainda moldada pelo legado da Guerra Fria.

Mas aquele que talvez tenha sido o maior aliado da Ucrânia — e com forte influência sobre Donald Trump — foi Lindsey Graham. O senador, que morreu a 12 de julho deste ano, apoiava como poucos republicanos a causa ucraniana e elogiava Volodymyr Zelensky. Uma das suas últimas grandes iniciativas no Senado consistia num pacote de sanções bastante duro contra a Rússia — proposta que ainda se encontra em discussão.

No funeral que ocorre esta terça-feira, Volodymyr Zelensky estará presente para prestar homenagem a um “amigo” da Ucrânia, no mesmo dia em que se encontra com o homólogo norte-americano. É certo que o país talvez tenha perdido o senador que era um dos melhores amigos de Donald Trump e que lhe sabia sussurrar ao ouvido. No círculo do trumpismo, os ucranianos perderam um aliado; mas, paradoxalmente, ganharam alguns após a sua morte.

Mesmo com vários anticorpos — cicatrizes da campanha eleitoral de 2024 —, vários ativistas e influencers no movimento MAGA alteraram a sua posição em relação a Volodymyr Zelensky e ao apoio norte-americano à Ucrânia. Laura Loomer foi o rosto mais visível dessa metamorfose. Na entrevista ao Presidente ucraniano, fez um mea culpa: “Disse ao Presidente Zelensky a verdade sobre mim. Costumava ser anti-Ucrânia. Até escrevi alguns artigos para a RT [Russia Today, um meio estatal russo], para a imprensa estatal russa e escrevi tweets muito maus sobre Zelensky. Uma vez até lhe escrevi que ele era um judeu nazi falso.”

Laura Loomer reconheceu ainda que “caiu” e que foi “enganada” pela propaganda russa. “Uma vez, disse a Zelensky que ele devia usar alguns dos milhares de milhões de dólares que os contribuintes norte-americanos lhe enviam para comprar um fato italiano em vez de andar como um boneco. Pedi desculpa por ter dito todas essas coisas”, confessou a influencer norte-americana.

Por sua vez, Tim Pool — outro influencer com bastante apoio no movimento MAGA — declarou o seu apoio à Ucrânia de forma ainda mais enfática nos últimos dias. “A Ucrânia tem lutado pela sua própria existência contra um ditador malvado. Entendo cada vez mais a importância da vitória ucraniana no combate contra a Rússia. Espero que Trump e as pessoas dos Estados Unidos lhe deem a mão”, escreveu o ativista no X.

https://twitter.com/Timcast/status/2080438553717129383

Com maior ou menor exposição, vários rostos do movimento MAGA estão a seguir esta tendência. No entanto, a mudança está longe de ser uniforme. Algumas vozes influentes no trumpismo continuam a opor-se ao apoio a Kiev e a manifestar abertamente as suas reservas. No início de junho, por exemplo, Candace Owens — figura de grande peso junto da base eleitoral — visitou a Rússia para participar num fórum em São Petersburgo, uma deslocação que coincidiu com a presença no país dos irmãos Andrew e Tristan Tate, influencers de extrema-direita conhecidos pelos seus conteúdos misóginos. Também Tucker Carlson continua a ser um dos principais defensores da aproximação entre Washington e Moscovo.

Mesmo assim, a ida de Candace Owens a São Petersburgo, por muito que tentasse retratar a vida na Rússia como idílica, valeu-lhe várias críticas — inclusivamente de alguns apoiantes. Outra voz influente dentro do MAGA, o influencer conservador Glenn Beck, denunciou que a “operação de propaganda russa” estava a funcionar nos Estados Unidos com o objetivo claro de “dividir a direita americana”.

http://twitter.com/glennbeck/status/2062324057471881344

Mais do que o apoio explícito à Ucrânia, a base eleitoral MAGA começa agora a interrogar-se sobre as manobras de propaganda russa de que foi alvo. Em declarações ao Kyiv Post, Steven Moore, republicano que fundou uma associação humanitária de apoio à Ucrânia, recorda que os russos gastam “dois mil milhões de dólares em propaganda”, direcionada principalmente para os conservadores. A estratégia dos ucranianos passa agora por fazer entender a estas vozes próximas do trumpismo de que foram alvo de manipulação.

Além disso, as tropas ucranianas aparentam estar a virar a situação no campo de batalha a seu favor com o recurso a drones e à tecnologia. Se, antes, defender a Ucrânia parecia apostar no cavalo errado, agora parece ser uma causa vencedora. Ao Telegraph, Glen Howard, presidente da Saratoga Foundation, sublinha que este fator levou a que a “comunidade MAGA tenha desenvolvido um grande respeito pela Ucrânia”.

“Há um certo fascínio no movimento MAGA pela tecnologia dos drones. Eles veem os avanços ucranianos, reconhecem-lhes valor e assimilam-nos”, prossegue o mesmo especialista, lembrando também o contexto do Médio Oriente e a ameaça dos drones iranianos. “O conflito levou a que a importância da tecnologia ucraniana fosse finalmente reconhecida, provando como Kiev ajudou os Estados Unidos quando Trump pediu esse apoio aos seus aliados.”

"Há um certo fascínio no movimento MAGA pela tecnologia dos drones. Eles veem os avanços ucranianos, reconhecem-lhes valor e assimilam-nos."
Glen Howard, presidente da Saratoga Foundation

Trump começa a apoiar a Ucrânia e testa movimento para explicar mudança de posição?

É um debate antigo na política norte-americana: a base MAGA é totalmente controlada por Donald Trump ou é o Presidente dos Estados Unidos que se deixa influenciar por aquilo que os seus apoiantes pensam e desejam? Nos ficheiros do caso Epstein, a pressão da base eleitoral foi tão forte que levou o chefe de Estado a divulgar milhões de documentos do escândalo sexual. Na Ucrânia, atualmente, a fronteira de influência é ainda mais difícil de definir.

Donald Trump tem dado alguns indícios de aproximação à Ucrânia, ainda que reitere que mantém uma “boa relação” com Vladimir Putin. O Presidente norte-americano sinalizou algum apoio ao pacote de sanções contra a Rússia — a iniciativa legislativa de Lindsey Graham — e concedeu recentemente uma licença para que Kiev possa produzir e montar os mísseis interceptores para os sistemas de defesa aérea Patriot. Ao mesmo tempo, manteve um clima cordial com Volodymyr Zelensky durante a cimeira da NATO.

Como recorda ao Guardian o jornalista James Risen, Donald Trump “gosta de vencedores”: “Mesmo sem o apoio irrestrito de Washington, a Ucrânia tem conseguido atrasar o avanço da Rússia. Kiev tornou-se um líder mundial na tecnologia de drones e levou a guerra à Rússia através de mísseis de longo alcance às infraestruturas petrolíferas do país, causando uma crise energética numa das nações que mais produzem petróleo no mundo.”

Dito de outro modo, o Presidente norte-americano pode ter chegado à conclusão de que apoiar a Ucrânia é o passo mais inteligente e pragmático para a política externa dos Estados Unidos. Donald Trump não suporta os custos diretos do apoio militar — que são assegurados pelos restantes Estados-membros da NATO — e pode ficar com os louros de uma eventual vitória ucraniana. E ainda há uma agravante para Moscovo: os Estados Unidos continuam num tenso braço de ferro com o Irão e a Rússia tornou-se um dos mais importantes aliados do regime de Teerão.

Tendo em conta esta mudança na presidência, Laura Loomer e outros influencers podem ter sabido interpretar os ventos de mudança para tentar cair “nas boas graças” de Donald Trump, diz o jornalista James Risen. Ao mesmo tempo, os vídeos da ativista conservadora em Kiev podem também servir como uma ferramenta para Donald Trump introduzir essa alteração de paradigma junto da sua base eleitoral: a de que a Ucrânia é uma causa vencedora, logo merece o apoio norte-americano.

O Governo ucraniano foi obrigado a reconhecer que, na guerra de informação em curso nos Estados Unidos nos últimos anos, a Rússia conseguiu conquistar uma vantagem considerável junto dos apoiantes de Donald Trump. Consciente de que o apoio da maior potência mundial é fundamental para suster o seu esforço de guerra, Kiev está agora a tentar inverter essa trajetória. E os resultados, sejam eles intencionais ou não, começam a surgir.